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Chorei de alegria e tristeza ao ver a passeata de 50 mil mulheres na Avenida Paulista na hora que elas dançavam juntas, em círculo, cantando: “Oh companheira me ajude, que eu não posso andar só. Sem você eu ando bem, mas com você ando melhor.”

Não quero falar sobre a violência da qual sofremos diariamente. Quero falar sobre nós mulheres que devemos aprender a nos unir mais. A parar de nos comparar umas com as outras. Parar com essa disputa cansativa. Parar com essa antipatia cansativa. Exercer o nosso feminino, a força que temos dentro de nós que é da acolhida. Deixar essa força falar mais alto do que nossas diferenças. É fácil reclamar do que os outros nos fazem. Como na frase de Sartre “o inferno são os outros”. Mas e nós? O que é que nós fazemos com nós mesmas? Quais são as pequenas e grandes coisas deste inferno que recebemos e aceitamos?

Os soutiens já foram queimados (vamos lembrar e agradecer) mas agora a gente podia queimar as revistas de moda feminina. Essas revistas nos destroem, nos humilham e já ficamos anestesiadas. Frases como “O que você pode vestir depois dos 30”, “Você é pra casar? Saiba o que está afastando os homens de você”, “Vera Fischer envelheceu (aos 63 anos) e está irreconhecível” são estampadas na nossa cara todo dia. Sem falar do mais cruel que é a constante propagação do conceito “Equilíbrio”. Sim, soa bem. (Ninguém vai querer o Desequilíbrio.) Até você começar a entender que o “Equilíbrio” é você conseguir segurar (sem deixar cair) as seguintes bandejas: carreira, realização profissional, dinheiro, maternidade ativa, vida social, corpo lindo, cabelo brilhando, uma casa bem arrumada e um marido constantemente apaixonado. Por favor, nem no circo dá para fazer isso e olha que os espetáculos são rápidos.

Agora com o fim da semi-escravidão que vivemos durante muito tempo no Brasil onde funcionários faziam todo o trabalho doméstico pelo valor mensal de uma calça jeans (da marca dos patrões), não passamos a ter uma sociedade mais justa. Passamos a ter mães que trabalham fora e quando chegam em casa tem que começar outra jornada. Ou a mãe fica em casa assumindo o serviço da casa e as crianças e é tida como “folgada” porque na verdade esse tipo de serviço nunca teve valor.

Tá bom, mas fazer o que? Lembrar que é fácil se colocar o papel de vítima, mas que ele não te leva a lugar nenhum. O raciocínio de “o inferno são os outros” de Sartre pode ser paralisante. Parece que só resta chorar. Mas o que eu acho que ele realmente quis dizer é que o paraíso quem consegue criar é só você mesmo. Aprendendo a dizer não para aquilo que te faz mal. Um não para “os outros” mas também para a sua própria cobrança interna.

Elizabeth Gilbert falou sobre isso na palestra que fui. O que segue abaixo é minha tradução do que saiu no Huffington Post:

“Quase todas as mulheres que conheço estão estressadas a ponto de adoecer e é tudo culpa de um medo patológico que sentem de que não estão fazendo o suficiente com suas vidas. E isso é loucura – porque as mulheres que conheço fazem muito e fazem bem. Minha prima Sarah, por exemplo, está terminando seu mestrado em relações internacionais, ao mesmo tempo em que trabalha para uma organização sem fins lucrativos que constrói playgrounds para escolas públicas lamentavelmente subsidiadas. Kate está em casa e cria as duas crianças mais encantadoras que já conheci e ao mesmo tempo, trabalha em um livro de receitas. Donna está produzindo sucessos de Hollywood; Stacy é executiva de um banco de Londres; Polly acaba de lançar uma padaria artesanal…
Com muito mérito, cada uma dessas mulheres, criativas e inteligentes deveriam estar radiantes e realizadas. Mas ao vez disso, elas se contorcem com uma dúvida preocupante e quase constante: a de que elas estão fazendo muito pouco na vida. Sarah se questiona se não deveria estar viajando ao redor do mundo, em vez de se comprometer com um mestrado. Kate se preocupa que pode estar desperdiçando sua educação ficando em casa com seus filhos. Donna teme que ela pode estar colocando em risco seu casamento, trabalhando tantas horas. Stacy preocupa que o mundo capitalista do banco está assassinando sua criatividade. Polly teme que sua padaria artesanal pode não ser suficiente financeiramente. Todos elas se preocupam que precisam perder 5 quilos.

É terrível e frustrante para mim testemunhar esta segunda-opção infinita. O problema é que eu faço isso também. Apesar de ter escrito cinco livros, eu me preocupo que eu não escrevi o tipo certo de livros, ou que talvez eu dediquei muito de minha vida à escrita e, portanto, tenho negligenciado outros aspectos do meu ser. (Mas sim, eu realmente podia perder 5 quilos.)

O que quero saber é o seguinte: Dá para aliviar um pouco?

Podemos elaborar uma resolução comum: acabar com essa expectativa louca de que todas nós devemos ser amigas perfeitas e mães perfeitas e trabalhadoras perfeitas e amantes perfeitas com corpos perfeitos e que conseguimos nos dedicar à caridade e cultivar nossos próprios vegetais orgânicos, ao mesmo tempo que executamos funções corporativas e ficamos muito tempo em casa cozinhando e tocando guitarra com os pés.

Quando eu olho para a minha vida e as vidas de minhas amigas nos dias de hoje – com nosso número estonteante de oportunidades e talentos – às vezes me sinto como se fossemos ratos em um labirinto gigante experimental, correndo ao redor freneticamente, tentando encontrar o nosso caminho. Mas talvez haja uma boa razão histórica para toda essa confusão esmagadora. Não temos séculos de modelos femininos autônomos para imitar (não havia mulheres trabalhando fora como nós até muito recentemente), por isso ninguém nos deu um mapa. Como resultado, nós seguimos essa corrida cegamente neste novo labirinto de opções ilimitadas. E os riscos são íngremes. Nós cometemos erros. Tomamos curvas fechadas, na esperança de tropeçar em um caminho aberto, apenas para esbarrar em paredes sem saída e ter que voltar e começar tudo de novo. Nós empurramos alavancas misteriosas, na esperança de ganhar uma recompensa, só para aprender – whoops, que era um botão de dor!

Para tornar as coisas ainda mais estressantes, nos avaliamos constantemente contra o progresso de cada uma, o que é um hábito terrível. Minha irmã, Catherine, recentemente comentou sobre uma conversa que ela teve com uma vizinha querida que – depois de assistir Catherine passar uma tarde organizando uma caça ao tesouro para todas as crianças da rua – disse com tristeza: “Você é uma mãe muito melhor do que eu jamais serei. ” E nessa hora, minha irmã agarrou as mãos de sua amiga e disse: “Por favor. Não vamos fazer isso umas às outras.”

Não, sério – por favor. Não vamos.

Porque parte meu coração saber que tantas mulheres incríveis estão acordando às 3 horas da manhã e se torturando por não ter ido a escola de arte, ou por não ter aprendido a falar francês, ou por não ter organizado a caça ao tesouro. Temos que entender que – se continuarmos nessa busca louca pela perfeição – vamos todas acabar estressadas e nervosas sem apreciar nada a nossa volta, mas ficar apenas correndo atrás do próprio rabo.* essa parte eu inventei.

Então, vamos deixar isso cair?

Vamos apenas antecipar que nós (todas nós) vamos ser uma decepção de alguma forma. Vá em frente e deixe que isso aconteça. Deixe alguém ser uma mãe melhor do que você por uma tarde. Deixe alguém ir para a escola de arte. Deixe outra pessoa ter um casamento feliz, enquanto você tolamente pega o cara errado. (Inferno, eu já fiz isso.) Enquanto você está aqui, pegue o trabalho errado. Mude-se para a cidade errada. Perca a calma na frente do chefe, pare de ir no treinamento para maratona, devore um bolo inteiro no dia que era suposto começar uma dieta. Deixe tudo explodir catastroficamente, de fato, e, em seguida, comece de novo – renovada. Isto é o que todas nós devemos aprender a fazer, porque é assim que os mapas foram traçados – tomando caminhos errados que levam a passagens surpreendentes que se abrem para novos mundos espetacularmente inesperados. E as gerações futuras vão nos agradecer – confia em mim – por mostrar o caminho, fora dos velhos erros.

Caia de cara no chão, se for preciso, mas por favor, para o bem de todas nós, não pare

de mapear sua própria vida.”

E vamos dançar e cantar juntas, mais vezes.

Sem você eu ando bem, mas com você ando melhor.

Não sei se já viram esse vídeo da Clarice Falcão, mas a gente precisa dele. Nas horas de desamor, de desesperança, de desespero, a gente precisa lembrar que somos sobreviventes. Sério. Não é papo de auto ajuda. Lembra da sua mãe, da sua avó, das mulheres que conhece. A gente não desiste, a gente segue em frente com mais força.

Com carinho,

Cris Leão

Foto: Shorpy

 

27 pensamentos em “A melhor coisa que você pode fazer pelas mulheres e por você mesma.

  1. Nossa Cris, recebi o e-mail e corri pra ver o blog! Vontade de te dar um mega abraço de agradecimento por falar tudo que estava na minha garganta!!! sou mto grata a vc e espero ansiosa pelos seus textos!!!

    Beijo

    • Que legal isso, Rafaella! Da próxima vez que eu pensar em publicar um texto e aquela vozinha chata falar “que bobagem, ninguém liga pra isso” eu vou falar bem alto “a Rafaella liga”. Beijo

      • Imagina, não pense isso não!! Eu ligo e muito e tenho certeza que muitas mães também, só não comentam aqui.
        E falo de coração, você não tem noção de como me inspira e me faz refletir sobre as coisas que escreve!
        Bjs ❤

  2. Passando mal de chorar de emoção aqui…. Que texto maravilhoso! Como é bom ler isto tudo!!! Coragem!

  3. MARAVILHOSO !!!!!!! Texto coerente , certeiro !! Isso mesmo , vamos cair e levantar !! Nos ajudando e escrevendo “os mapas” para as novas gerações !!

  4. Texto necessário nesses tempos de busca incessante pela perfeição, competição desumana e biopoder devastador, afetando especialmente as mulheres. Chega dessa ideologia de mulher-polvo. Deixem esses pratos giratórios cairem e depois do caos, que venha a criação, a vida nova. Toda força à luta feminina, que é também uma luta humanista!

  5. Adorei o texto, Cris! Sempre espero ansiosa pelo e-mail dizendo que tem texto recém tirado do forno. Este é pra te dar um abração, viu?! Obrigada!

  6. Adorei Cris, o texto é maravilhoso! Obrigada de coração por esse trabalho marvilhoso que vc faz, nos ajuda muito. Bjus

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