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“É quando damos um passo para fora da nossa zona de conforto, em ação ou pensamento, que nós expandimos e realmente modificamos a energia nas nossas vidas. Nós sacudimos. Quer seja um novo hábito alimentar, uma nova maneira de se exercitar, uma nova forma de apreciar, uma nova forma de perceber, é tudo tão bom.” – Dr. Shefali

Sem escrever aqui há um mês. É porque mudar não é fácil. Além de todas as burocracias. Além de todos os números novos para decorar: telefone novo, cep, cpf, placa do carro. (Na minha vida quando eu decoro esses números, bumba!, a gente muda e começa tudo de novo.) Só que hoje o ano começa. Então mesmo ainda no flat temporário, apertada com cachorro, gato, duas crianças, marido e 10 malas em um lugar que foi feito para acomodar confortavelmente menos da metade disso, estou escrevendo só para dividir o que foi esse comecinho.

João diz que odeia ser o “new guy” pois eu odeio ser a “new mom”. Não saber se a pessoa pergunta “Como estão as coisas?” querendo mesmo ouvir a resposta, ou só pergunta com o tempo de ouvir “tá tudo ótimo, tchau”. Ou ser a única sozinha em uma reunião onde todo mundo é amigo, se abraça, beija, faz piada. Mas isso é só uma parte.

Um dos livros que já li que mais marcaram a minha vida foi A Caverna do Saramago. Ele começa o livro se remetendo ao mito do Platão “que estranhos seres, que estranhos prisioneiros, são como nós.”

Somos sempre prisioneiros. Porque nascemos aqui e não ali. Porque somos dessa cor e não da outra. Porque nascemos nessa família e não na outra. Mas também somos prisioneiros porque muitas vezes ficamos parados olhando para uma mesma direção durante muito tempo. Como no mito de Platão, estamos ali olhando para aquela parede da caverna sem perceber que atrás de nós está a porta e depois dela está um mundo inteiro.

A maternidade chega de surpresa (no meu caso pelo menos) e deixa a gente sem ar, sem chão, perdidas. Nessa hora não há nada mais confortável do que achar alguma coisa em que acreditar. Alguma coisa que te dê conforto. E não tem nada de errado nisso. Ao contrário, temos mesmo que buscar. Um poeta disse uma vez “a utopia é uma estrela que está lá no céu e nos faz andar em direção a ela, para chegar mais perto. Só que quando andamos, ela anda também. Mas então para quê serve a utopia? Para a gente andar.”

É uma delícia ter algo em que se acreditar. Eu tive durante muito anos. Mas consegui enxergar que essa caverna tem uma porta – a vida deu uma ajuda, um empurrão (na verdade, um chute na bunda).

Voltamos para São Paulo, com uma vontade danada das crianças voltarem para a escola Waldorf onde estavam. Tentamos. Muito. Desde Novembro. Foram vários e-mails, telefonemas, visita e vivência, várias amigas conversando lá dentro, mas o processo foi tão desgastante que eu parei de sentir que esse caminho era o certo. Toda história tem dois lados. O lado deles até faz sentido, mas do nosso lado a reação deles criou muito sofrimento, angústia, prejuízo financeiro e emocional até que chegou no ponto que eu senti que não era para ser.

Olha que ironia: há dois anos eu teço essa colcha de palavras em homenagem e agradecimento a Pedagogia Waldorf e quando cruzamos o oceano para voltar para ela, a porta estava fechada. E um dia olhando para a frase do elevador, eu decidi seguir em frente.

Assim comecei 2016. Para meus filhos não sofrerem como se esses três anos de Miami não tivessem gerado nada de positivo só uma “estranheza” optamos por colocá-los na escola que os recebeu de braços abertos. Chorei quando a professora viu o João e falou “posso te dar um abraço?” Acho que só quem viveu alguns anos nos Estados Unidos entende o sentimento que senti nessa hora. E como ser mãe é pagar língua, eu que sempre achei muito estranho esse papo de escola bilíngue, matriculei meus filhos em uma delas. E como a vida é cheia de boas surpresas, recebi um convite das mães dessa escola para participar de um projeto incrível de voluntariado em um instituto que acolhe crianças e adolescentes em situação de risco. Fiquei emocionada em perceber a vontade dessas mães (que já fazem esse projeto) em fazer cada vez mais. Com isso estou sentindo que estou no lugar que devia estar agora.

No fim, o que é vivido em casa é sempre o mais importante. Ritmo, rotina, regras. Junto com alimentação saudável e o maior número de horas ao ar livre, vai dar tudo certo.

“Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar.” Esta frase traz a metáfora e o aprendizado do que foram esses primeiros dias de volta a São Paulo. Pense nessa frase, ela pode te ajudar também. Ela serve para tudo: amizade, relacionamento, trabalho, escola. De Platão a elevador, tem de tudo nesse blog.

Saudades da nossa partilha. Mas tô de volta.

Cris Leão

Foto: José Cabaço (Instagram)

52 pensamentos em “Vida nova em São Paulo

  1. Cris, te mandei um e-mail ainda hoje perguntando como vocês estavam!! Fiquei preocupada com a ausência, mas imaginando que as coisas estivessem sendo colocadas em ordem. Mudar não é fácil, mas isso você sabe bem..rs
    Querida, fico feliz que de uma forma ou de outra as coisas tenham se ajeitado.
    Seja muito bem vinda! Que Deus abençoe vocês nesta nova jornada!!
    Como falei anteriormente e no e-mail, conte comigo!
    Um grande abraço com carinho,
    Rafaella

  2. Cris!
    Tem uma escola Waldorf nova e colaborativa em formação na Aclimação! Esqueci o nome, mas vou procurar o e-mail e te reenvio. Vai q vc quer voltar ano que vem! O Matheus estuda na Alecrim Dourado mas acho q. Vai até os nove anos… Porque eu entrei graças a vc principalmente, e estou muito feliz!!!
    Bom retorno e ótimo recomeço!!!
    Bjs!

    Enviado do meu iPhone

    >

    • Puxa, que “droga” de notícia. Risos. Acabamos de mudar de bairro porque meu filho começou no colégio Humboldt este ano. Depois de debater um post da Cris sobre a Waldorf. Morávamos na Aclimação mas não tinha nenhuma e a Alecrim ficava fora de mão (uns amigos, Ronaldo e Fabiana, tinham o filho lá). E o Rudolf aceitou mas era meio período. Enfim, bem vinda Cris! Abraços

  3. Olho para esta frase todos os dias e só agora pude enxergar … Obrigada !!
    Seus textos me comovem ! Boa sorte nesta nova fase !

  4. Oi Cris,

    Recebo seus e-mail faz um tempo. Confesso que fazia tempo que não lia, mas hoje resolvi ler.

    Ainda não sou mãe, e não sonho com isso loucamente, mas tenho vontade de ter filhos, na verdade dois, porque “se for para ter filho único eu prefiro não ter” (eu costumo falar isso). Sim, não sei bem porque respondo esse e-mail, me deu vontade, rsrs. Me identifico com seus relatos, e sua preocupação, e cuidado, na educação dos filhos. Como falei ainda não sou mãe, mas quando penso na maternidade, quero ser uma referência para meus filhos, e desejo viver essa tal maternidade de forma intensa e dedicada.

    Me identifiquei com as mensagens do universo. “Senti que não era para ser”, “sentindo que estou no lugar que deveria estar agora”, e claro a frase no elevador, tão banal e corriqueira, mas que pode fazer muito sentido.

    O universo (ou como queira nomear) tem me dado muitas resposta. Espero que ele continue guiando a gente pelo caminho, e que a gente tenha a capacidade de perceber.

    Gratidão por compartilhar as suas histórias.

    Um beijo de carinho,

    Naiana

    Naiana Barreto

    • Oi Naiana, obrigada pelas palavras. Uma vez minha irmã me disse que os milagres acontecem o tempo todo, mas o verdadeiro milagre está em enxergá-los. Acho que é isso né? Desejo que você continue conseguindo ver as respostas. Um beijo!

  5. Que máximo Cris! Como sempre amando seus textos e sua posturas diante ao novo! Parabéns! Seja bem-vinda!!! Juliana Avella (NutriFilhos)

    Enviado do meu iPhone

    >

  6. Cris, boas vindas! A você e a todos os seus! Que bom que estás de volt ano blog. Adoro te ler, você me inspira, me da paz, fala ao meu coração. Quase praticamente o que quer que seja que você escreve. Você tem luz, você tem alma. Que o universo abençoe sempre a sua caminhada.

  7. ” De Platão a elevador, tem de tudo nesse blog.” Que delícia! Este blog é tudo de bom! Impressionante como algumas situações da sua vida se parecem com a minha… Vamos bater um longo papo logo, logo, se Deus quiser… Dei de cara com o elevador da vida parado no andar de baixo, entrei, despertei, tô levantando e rindo….que é pra não perder o bom humor. Como diz uma professora waldorf antiga…. A vida é sábia! Um beijo! Cheio de saudades! Bem-vinda de volta!

  8. Cris! Obrigada por suas palavras… Doces, sinceras, profundas.
    Posso imaginar como esse NÃO da escola Waldorf te fez refletir… Mas admiro o seu jeito de encarar as coisas e a maneira como tece as palavras.
    Já estava com saudades…

  9. Doris, vale a pena ler este texto, do blog de uma mãe Waldorf ou foi.

    Enviado do meu smartphone Samsung Galaxy.

  10. Cris bem vinda!
    Você me inspira e me emociona. Sempre!
    Faça do limão uma limonada, sei que vc consegue isso, muito bem!
    Por aqui estamos iniciando na escola Waldorf, torço pra que seja uma feliz jornada!
    Bjo grande e muita força!!!

  11. Ola, voce escreve tao gostoso, simples e direto.
    Adorei.
    Sejam bem vindos a Sampa city.
    Esta tudo certo como deveria ser. Ontem voce nao via isso, hoje ve um pouco e amanha entendera muito mais.

  12. Voce tem muitos dons. Ver o lado ruim das coisas nao e virtude no mundo de hoje. Mas conseguir, apesar de tudo e de todos, ainda sim, ver beleza nas dificuldades e continuar lutando. Eis ai uma guerreira espiritual. Palavras que usamos sao poderosas. E elas acabam se concretizando. Seja para o bem ou para o mal. Ignore aquilo que nao esta em sua meta. Pouco a pouco as dificuldades vao se esvaziando. Porque quando se sabe que estamos no caminho que deveriamos estar. Nada mais incomoda. Foco Cris. Tudo vai dar certo. Obrigada.

  13. Cris, embora não saiba, vc é “minha amiga”, mesmo que virtual. Nesses tempos tão loucos e corridos, em que a frugalidade muitas vezes impera, é um alento receber seus escritos.
    Gosto de pensar que são cartas escritas para uma amiga, que pode ser eu ou tantas outras que se identificam com a sua sensibilidade, o seu jeito único e delicado de olhar a vida e respeitar (mesmo que a contragosto) os sinais que ela dá.
    Mais uma vez, fui às lágrimas. De emoção por seu relato, mas sobretudo de alegria por não me sentir única em minhas angústias e utopias.
    Esse é o bacana da tecnologia, que te permite escrever e tocar profundamente milhares de pessoas. E que, diferente de antigamente, criou essa “porta mágica” na qual entro pela primeira vez para dizer, com gratidão: obrigada. Por compartilhar, com tanta sensibilidade, suas percepções sobre o mundo, as pessoas e a maternidade.
    Como mãe, profissional, esposa e filha, me identifico, me emociono e aprendo muito com seus relatos. Bom saber que você está mais perto e com o mesmo olhar apurado para ver além do está exposto e aberto para receber o que nem sempre é o óbvio.
    Keep writing!

  14. Olá Cris eu aqui de novo. Acabei de ler seu post. Dei risada da sua última frase, a do elevador, porém estou com lágrimas nos olhos. E fico me perguntando, como alguém que não conheço, nunca vi pode tocar tanto em minha alma? Esse alguém é você! Muita sabedoria, aprendizado e momentos de felicidade nessa sua jormada ai minha (nossa?) terra natal, São Paulo. Beijos.

  15. Cris, que bom que voltou!! Só você mesmo, pra fazer de uma frase tão simples e corriqueira, uma metáfora tão inspiradora. Como li em um comentário acima – é um alento receber seus textos!! Ah, e super boa sorte pros pequenos na nova escola. 🙂 Bjs

  16. Lindo lindo. Me emocionei com pequenas frases… quanta riqueza podemos encontrar em lugarzinhos pequeninos. Obrigada por compartilhar. Vc e’ muito sensivel a vida Cris. Sabe bater nas portas que quer mas tambem aceitar quando essas nao abrem. Depois conta pra gente sobre as complicacoes que a escola Waldorf criou? Bjs e tudo de bom.

  17. Cris! Que bom que deu notícias!!! Aos poucos tudo vai se ajeitando e seus filhos serão muito felizes nessa nova escola!! Agora que está em terras brasileiras, quando vier passear em Belo Horizonte, dê notícias, quem sabe não tomamos um cafezinho com pão de queijo e conversamos sobre essa viagem deliciosa que é a maternidade? Os seus textos sempre me ajudam demais e adoraria conversar com você! Um grande beijo
    Guará

  18. Cris!!!! Desejo a você e a sua família muito acolhimento, muita alegria e proteção. Tenho certeza de que você já está à vontade e bem, basta ver a lucidez que há em seu texto. Mais uma vez obrigadíssima por mais este! Estou em SP, tenho um filho de 9 anos, sou professora atuante em escola e estou viva! Por sua resposta a Fekazi, logo acima, concluo que também sou sua amiga!!!!
    Um grande abraço!

  19. Oi Ricardo e Caroline, estou escrevendo (aos poucos) um post sobre esse assunto porque são muitas pessoas interessadas e não consigo responder a todos individualmente. Mas logo sai. Um abraço!

  20. Oi Cris
    Há dois anos acompanho seu blog. E me emociona muito. A sinceridade e delicadeza que escreve. Obrigada por compartilhar sua força! Você e guerreira! Eu aprendo muito com suas palavras. Aprendo a desaprender , a desmanchar e montar novos enredos para a história da vida aqui. Com fé é aquele espirito celeste que sempre nos guia tudo dará certo.
    Obrigada
    Adriana C. B. Romano

  21. Eu acho sempre uma “forçação” quando as pessoas fazem isso, mas acho que a gente tá vivendo tão igual essa fase. Só que agora vc está voltando e eu estou indo. Ficaria feliz se vc desse uma passa no meu blog e lesse os 2 últimos posts “Delay” e “Adeus, Brasília”. Foi meu jeito de descrever um final e um começo. Beijo. Adoro seus textos. de verdade.

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