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A vida não é feita só de preto e branco. Por isso a gente precisa parar de olhar para tudo e buscar a resposta rápida: é ou não é, tá feliz ou tá triste, gosta ou não gosta.

Tenho este blog há pouco mais de 2 anos. Neste tempo, ele recebeu 3 milhões de visitas. A maioria são mulheres. Muitas me escrevem. Não consigo responder todas, mas respondo muitas e as outras vou respondendo com os posts ao longo do blog. Com tanta troca adquiri algum conhecimento do que as mulheres estão sentindo no papel de mãe.

Algumas pessoas colocam foto nas redes sociais para mostrar como são felizes com os filhos. Isso incomoda outras pessoas, algumas até bem instruídas, algumas até feministas que se sentem incomodadas, criticam falando que a vida não é um comercial de margarina. Queridos, lidem com isso: algumas mulheres estão sim, muito felizes. Claro que isso não significa que todo dia elas têm um sorriso no rosto de orelha a orelha. Claro que isso não significa que com isso elas querem ser mãe o tempo todo. Não, vai ter o dia que elas vão deixar as crianças ver televisão até cansar só para poder dormir um pouco mais, vai ter o momento que elas vão ficar frustadas de comer pizza fria depois de passar 5 minutos cortando as pizzas dos filhos, alguns dias elas vão sentir que gostariam apenas de ficar sozinhas. Só que mesmo assim, estão felizes. Sabe por que? Porque foi isso que elas escolheram, não ter filhos (necessariamente) mas ser feliz.

Ser feliz não é um estado alusinógeno ou um pote fechado com a etiqueta: 100% felicidade.

Muitos tomaram partido da mãe que colocou no perfil de Facebook uma foto falando da sua frustação e do quanto doía para ela ser mãe. O Facebook bloqueou o perfil da moça e centenas de milhares de pessoas ficaram do lado dessa mãe. Ótimo. Necessário que se faça isso mesmo. Necessário que se questione o papel da mãe santa. Necessário que exista um espaço para isso. Necessário que a depressão pós parto seja legítima porque ela é real para muitas mulheres. Mas não venham me dizer que as “felizes” são ditadoras, que estão criando mitos em cima do feminino. Gente, que papo chato.

Nada é preto e branco. Talvez aquela mãe que colocou a foto do sorriso, está precisando também ser acolhida porque depois de ficar em casa uma semana com o filho doente, ela se sente aliviada, feliz, mas está precisando de colo. Dá um like, comenta falando “que lindos!” e talvez isso a ajude a se restabelecer. Somos seres sociais, precisamos dos outros.

Talvez aquela mãe que colocou a foto do sorriso, também passou por depressão pós parto, foi julgada, foi abandonada, se sentiu sozinha, mas conseguiu superar com muito esforço, luta, tratamento. E agora, não quer mais ficar sozinha.

A maternidade traz muitos desafios. Isso todo mundo sabe. Não me venha com esse papo de “ninguém me contou que ia ser assim”. Sério? Então você devia estar assistindo sessão da tarde o dia inteiro. Porque em todos os lugares as pessoas falam da dificuldade que é ser mãe. Os pais, os tios e avós falam. Os médicos falam. Os olhares das mães exaustas sem dormir falam. Os olhares das mães morrendo de tédio falam. Mas para quem nunca prestou atenção a sua volta, para quem nunca escutou, nunca enxergou, a maternidade deve mesmo cair como um grande susto. Porque é vida real. É vida de adulto. Uma criança não consegue criar outra. Já falei muito sobre isso aqui.

Só queria dizer que de todos os desafios da maternidade, talvez o maior hoje em dia seja a solidão. Em caso de depressão, é preciso da ajuda de profissionais competentes. Mas no dia a dia a gente devia se unir mais. Parar de julgar o sorriso ou a tristeza do vizinho. Parar de racionalizar tanto, de querer chegar a conclusões rápidas o tempo todo. E simplesmente andar junto. Falta feminino no mundo de hoje e quem poderá nos salvar se não nós mesmas, mulheres?

Ando em estado de encantamento pela cidade de São Paulo. A cidade é tão feia, mas tão feia que a beleza interna aparece com destaque. Encantada com a arte na rua, com a arte dos museus, com a comida fabulosamente bem feita, com o potencial humano, com a criatividade, com as conversas que se tem por aqui. No meio de tudo isso, (no Rio que é logo ali) Maria Bethânia é rainha da Mangueira e esta é a escola campeã. Já viram ela falar? Já viram ela cantar? Quanta beleza. E na escola de samba ficou lado a lado da beleza fulgaz, da beleza de plástico, da beleza de corpos impossíveis, da beleza de sorrisos impossíveis, mas quem era a rainha? Quem era a rainha e dançava descalça?

É isso minhas amigas, não é o sorriso da foto, é o dia a dia. Não é um post, é o dia a dia.

A maternidade não é uma corrida, é uma jornada.

Não é sobre as aparências, é sobre o que está dentro. E que eventualmente vai vir pra fora. E se vier beleza, e se vier alegria, voilà! O mundo está precisando.

Fecho com minha diva Maya Angelou:

As mulheres bonitas se perguntam onde está o meu segredo

Eu não sou lindinha ou feita em molde no número de uma modelo

Mas quando eu começo a contar,

Elas pensam que eu estou mentindo.

Eu digo,

É o que os meus braços alcançam,

A largura dos meus quadris,

É o caminhar dos meus passos.

A onda dos meus lábios.

Eu sou uma mulher

Fenomenalmente.

Uma mulher fenomenal,

Essa sou eu.

 

Para quem quiser ler outros posts neste blog sobre o assunto depressão:

– Depressão pós parto e até quando

– Vamos queimar a bandeira da mãe perfeita?

Por Cris Leão

Foto: Amiri Baraka and Maya Angelou via Awesome People Hanging Out Together

22 pensamentos em “Nem só as mães são felizes e nem só as mães são infelizes

  1. Cris,
    Sempre que recebo um e-mail avisando que chegou post novo corro pra ler e a sensação é sempre mesma, que lição!!!
    Até quando as mulheres vão lidar com a maternidade como se fosse uma guerra?
    Sou fã!
    Beijos

    • Exatamente, Rafa! Por que todo assunto/tema precisa dividir? Precisa gerar briga? Vamos aceitar que no fundo ninguém tem a menor ideia do que está fazendo. Não só na maternidade, na vida. Guerra só vale a pena se for de travesseiro. ; )
      Beijo!

  2. Que engraçado, acabei de fazer o mesmo que a colega Rafaella: vi o teu email na minha caixa de mensagens e fui correndo ler! E não resisti a escrever um post: nunca planejei e sonhei ter filhos. Hoje tenho 3, de 6 anos, 3 e 1. Os três foram desejados e planejados. Como assim? Simples, a vida é uma jornada, a gente muda. Não foi e não e fácil. É bem cansativo física e emocionalmente. Mas sou feliz! Porque escolho todos os dias ser feliz. No começo, “caloura” na maternidade, sofri muito, pois o mundo de hoje não é feito para a maternidade. Então eu escolho todos os momentos ser feliz com as alegrias e com as dificuldades que meus filhos me trazem. E depois disso tudo ficou mais leve.
    Nessas horas me lembro dessa histósria (que esse post me fez mais uma vez lembrar): A mulher estava com câncer. Na cabeça apenas três fios ainda restavam. “Que bom, hoje vou fazer uma trança”, disse ela. No dia seguinte, apenas dois. “Ah, hoje vou fazer uma maria chiquinha e lembrar de quando era criança”. No outro dia pela manhã ela se olha no espelho e vê apenas um fio. “Hoje é dia do rabo de cavalo”. Até que não resta mais nenhum fio de cabelo. “Oba! Hoje não preciso me pentear”.
    Isso é escolher ser feliz. Fácil? Não. Mas é o melhor que podemos fazer por nós e por aqueles que nos cercam e que amamos.
    Cris, adoro teus textos! Obrigada sempre!

    • Obrigada, querida. Fiquei muito emocionada de ler seu testemunho. ” o mundo de hoje não é feito para a maternidade ” Muito verdadeiro isso. Quantas vezes me senti sobrando em um ambiente, em uma mesa, em uma cidade, só porque ser mãe me deixava uma extraterrestre. Por outro lado existe o mito da mãe santa. E ficamos entre uma coisa e outra. Fazendo de tudo para ser feliz. Um beijo carinhoso!

  3. Gente, como você consegue escrever tão lindamente assim…..
    Sou sua fã também!
    Moro em Massachussets e ao ler que seu filho foi acolhido com um abraço na nova escola, choreiiiiiii
    Minha filha “era” tão beijoqueira e abraçadeira, mas ….. aqui não pode abraçar e beijar o amiguinho, porque vou pegar germes mamãe…..
    Nasci em Indaiatuba(interior de SP), já morei em Campinas, na Suíça, em Ohio, em Michigan….. Me identifiquei quando vc falou que mal decorou os números de telefone, Placas de carro, etc …. já estamos mudando again…..
    Um dia ainda volto tb!
    Gratidão pelas suas palavras, pelos seus textos!
    Você é lindaaaaa
    Daniela

  4. Chris, adoro seus textos! Também abro o email feliz para ler. Mas, você pode não acreditar, eu não tinha noção do que era a maternidade, não!! Minha família é muito pequena e nunca morei perto de avô, tios ou primos… Eu queria loucamente engravidar! Mas não tinha noção alguma. Achava que bastava amar, e colocar roupinhas lindas… Bom, os choques foram enormes!! Enorme porque a realidade da maternidade é de trabalho braçal 24/7 e de mil inseguranças e incertezas. Mas, outro choque, foi o de ver que essa realidade não é dita: ela é sublimada e escondida. E, quando eu descrevia o dia a dia, a dor pós-cesárea (teve amiga minha que disse que cesárea não doía nada, nada…), o cansaço eterno (tive amiga que disse que era fácil, não precisava de babá, não…), fui reprimida por algumas (mas recebi agradecimentos de outras…). Essa é a principal diferença que eu vejo para o segundo filho: a ausência da incerteza. Você sabe que será muito difícil, mas que vai passar. E, no segundo, eu me preparei psicologicamente para uma guerra, rs! E, como estava preparada, foi fácil e muito mais gostoso!!

    • Que legal sua história, Renata. Eu acho que algumas pessoas não contam tudo porque também como é estar preparado, se você ainda não sentiu na pele, né? Tem bebê que tem cólica, tem bebê que chora muito e tem bebê que é um santo. O importante é a gente ir aprendendo, se encontrando e achando o nosso próprio caminho. Que bom que tudo melhorou! Comigo também aconteceu isso. Beijo!

  5. Mesmo querendo e desejando muito a maternidade, Ninguém gosta de acordar morrendo de sono na madrugada, ninguém gosta de cheirar azedo na roupa por alguns meses, ninguém gosta de muitas coisas incômodas q acontecem no início da maternidade. Muitas amigas me questionavam o pq de eu não ter contado algumas dessas coisas…e a resposta era simples…pq eu já nem lembrava mais. Tdo passa, não é facil mesmo, mas precisamos buscar equilibrio ou ajuda se este momento esta sendo muito dificil… principalmente para não falarmos algumas coisas que possamos nos arrepender mais tarde.

  6. Adorei o texto, Cris!!! Acho que é bem isso mesmo: maternidade não é um mar de rosas, mas é uma experiência com seus altos e baixos. Há dias em que queremos sumir; outros dias são incríveis e nos pegamos com saudades do momento em que vivemos.

    Escreva sempre!
    Beijos!

  7. Cris! Eu adoro seus textos e ao contrário dos comentários acima eu esperei um momento calmo para ler, para desfrutar e refletir cada linha que voce escreve. Aprendo muito com os seus textos. Obrigada e boa sorte na vida nova! Deise – Paris

  8. Simplesmente lindo o seu texto! Sou uma
    mulher com 63 anos, que sempre soube sorrir e chorar. Sobrevivi e digo mais, cada uma de nós, encontra a sua fórmula para ser feliz!!

  9. A Rita Lisauskas no estadão também escreveu um bom post questionando por que o assunto maternidade rende tanta briga.

    Realmente é preciso algo diferente do extremos, a mãe sagrada, objeto de adoração e dócil x a iconoclastia niilista “contra tudo que está aí”. É preciso algo fora desse eixo de flaxflu e isso significa algo diferente de um mero meio termo.

    Gostei muito de sua constatação de que o mundo é simplesmente mais complexo que isso e que ter filhos não é momento, mas processo.

    Me lembrou a idéia da avaliação processual da Waldorf. 😉

  10. Adoro seus textos, mas não concordo quando sempre relacionam uma reclamação materna com depressão pós parto. Meus primeiros meses como mãe foram imensamente difíceis mas eu não estava deprimida eu estava exausta!!! Sem dormir, sem conseguir cozinhar, frustrada pois a amamentação não foi um sucesso, cheia de dores da cirurgia, etc… Me pergunto como alguém quer que estejamos felizes nessa situação! Hoje as coisa estão bem melhores então só posso dizer para as pobres mães: calma, vai passar. Você vai domir de novo um dia, vc vai conseguir tomar um banho, e até vai conseguir voltar a ir em restaurantes (isso vai demorar pouco). E vai pensar todos os dias que não existe amor maior nesse mundo…

    • Ótima colocação. Eu concordo com você. Não foi a intenção falar que reclamação materna é depressão pós parto. Mas concordo que pode ter sugerido isso. Só quis entrar no contexto da depressão porque acho que é preciso também falar sobre isso. Não apenas a depressão pós parto, mas a depressão precisa ser um tema com menos tabus.

      • Como esse tópico tem tabus! Outro que acho complicado e o do aborto, mesmo espontâneo. E um luto negado. Fico pensando se isso e reflexo da baixa auto estima do brasileiro. Como se assumir que as coisas as vezes dão errado fosse um motivo de vergonha e algo a ser negado.

  11. Chris é uma delícia e um alento ler seus textos, eu simplesmente amo e agradeço por ter descoberto tão ricas publicações. Posso dizer que ser mãe é algo que me faz crescer a cada minuto que passo com minha pequena Beatriz de 4 anos. Ela entrou na minha vida por um descuído, chorei chorei chorei e chorei mais um pouco quando soube da gravidez, não era hora de ter filhos e ainda mais nas circunstâncias que foram. Mas encarei a chegada dela como uma benção, uma dádiva, e mesmo com todas as dificuldades vale a pena cada segundo e ao lado dela eu choro, eu dou risada, eu brinco, eu curto, porque ela é meu bem mais precioso, maior amor do mundo. Claro que tenho privações, que comi muita comida fria ou nem comi, e ainda como muitas vezes, passei incontáveis noites sem dormir, deixei e deixo de fazer coisas que realmente gostaria de fazer, abandonei minha carreira, enfim mas em nenhum momento eu culpo a maternidade, todas foram minhas escolhas e não culpo ninguém por isso. A pequena me faz sorrir, e é isso que importa!! Seja em casa, na escola, na rede social… em qualquer lugar.
    Obrigada de coração e boa sorte nesta cidade querida!
    Elisandra

  12. Oi! Só queria dizer que você muito me inspira. Adoro ler seu blog e tiro lições valiosas. Ainda não sou mãe e acredito que esse blog vai além da maternidade, muito além…

    “Mas no dia a dia a gente devia se unir mais.
    Parar de julgar o sorriso ou a tristeza do vizinho.
    Parar de racionalizar tanto, de querer chegar a conclusões rápidas o tempo todo. E simplesmente andar junto.”

    Gratidão.

  13. Cris seus textos são sempre lidos e esperados, parabéns. Olha sou mamãe de uma lindaaaa princesa de dois anos e posso discordar um pouco de você. Ta hoje a informação chega pra todos em uma velocidade absurda, mas não concordo com você.mapesar de ser bem informada, ser mãe não tem como explicar, não tem como exemplificar, pá envolve sentimentos. Pode ser que pra algumas mulheres as coisas surgiram mais facilmente ao ter um bebe, mas para mim por exemplo não foi. Amo absurdamente minha bb, não trocaria dez anos por um segundo sem ela, mas quando a tive, a velocidade que as pessoas ao meu redor cobravam, tipo, você é a mãe, tem que saber, pá vc não está conseguindo dar de mamar? Etcvcccc… Minha filha acordava de três em três horas para mamar, e eu levava uma hora para fase lá dormir, por causas das cólicas e etc…eu não tive absolutamente ninguemmmmm para me ajudar. E eu tinha sim, uma visão romântica da maternidade, e tenho duas faculdades, tenho acesso a todo tipo de média, etc…. Acho que não é uma crítica às mães que são felizes, o que aquela moça fez, mas sim ao evento maternidade 100% feliz, ela quis dizer que precisamos alertar sim as mulheres, pá muitas, acredite não fazem ideia da doação, abdicação. É só você trabalhar com mulheres mais humildes, e você vai ver, claroooo não todas, mas vc vai ver, não sabia que era assim. Deixam os filhos com a mães, com o pai, com quem quer que seja e vão viver a vida…já vi muitoooosss casos. Falta de estrutura, falta de planejamento, falta de entendimento de que ser pai e mãe não é só fazer o filho. É sim, ser mãe é absolutamente contrário aos comerciais de margarina, ser mãe é sorrir quando tudo o que você quer fazer é chorar, ser mãe é estar na luta com um baixa sorriso no rosto….um beijo a nós mãe, guerreiras, lutadoras que temos principalmente o AMOR por essas criaturinhas que transformam a vida num padecer no paraíso, como diriam nossas avós….bejijos e continue escrevendo….

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