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Faz tempo que não escrevo aqui. Entrei num curso de formação em Psicanálise, estou acabando o primeiro semestre e queria dividir muita coisa, mas eu não tô boa.

Comecei a trabalhar, consegui um emprego que me permite fazer o que gosto e trabalhar de 9:30 às 16h queria falar sobre essa fase nova e todos os desafios e descobertas, mas eu não tô boa.

Fiz uma prova para entrar no Mestrado em Psicologia na Puc, os estudos e preparativos para essa prova me tomaram todo o meu tempo. Mas agora que a prova passou, queria escrever um texto aqui cheio de alegria e esperança, mas eu não tô boa.

Essa semana fomos todos tomados pela história triste da menina que foi atacada por 30 lobos selvagens. Uma amiga querida postou no Facebook que “De vez em quanto, Deus tira a poesia da vida”. (Se referindo ao lindo poema de Adélia Prado.) Mulheres protestaram na rua e nas redes sociais. Uma imagem que não sai da minha cabeça é uma moça toda suja de tinta vermelha vestindo uma camiseta onde estava escrito: Estamos todas sangrando.

Sim. Essa menina que foi atacada viveu na pele o medo de todas as mulheres. Porque fomos criadas nessa sociedade tão permissiva com os homens, ao mesmo tempo tão objetificadora do corpo da mulher, que nosso maior medo é o de ser atacada. Ela foi. Atacada e agredida de muitas formas. Continua sendo agredida pela sociedade, que por mais bárbaro que pareça, culpa a menina por andar na companhia de lobos.

Que sociedade é essa onde um criminoso sai da delegacia sorrindo para as câmeras e a vítima de estupro sai toda coberta, com vergonha, com medo? (Vi ontem no Fantástico)

Eu não tô boa. E isso me faz sentir que o que está faltando é bondade.

Então, vamos tentar entender como podemos resgatar a bondade. Como podemos nos desintoxicar desse horror?

“Não existe a realidade, a única coisa que existe é aquilo que você percebe.” Um professor disse essa frase um dia desses no curso de psicanálise. Vamos partir desse ponto então.

Realidade = aquilo que você percebe.

Talvez você se surpreenda ao ouvir isso, mas algumas pessoas neste mundo são realmente horríveis. Ou pelo menos, se comportam terrivelmente. Com a vida possibilitando agora uma identidade on-line e uma identidade vida real, as chances dessas pessoas mostrarem seu lado monstruoso, dobrou.

É sempre devastador testemunhar ignorância e violência. Como disse Dalai Lama no evento de uma guerra sangrenta no Tibet: “essas pessoas estão me dando medo, porque estão tirando minha compaixão.” Agora se tiram a compaixão do Dalai Lama, o que dirá da nossa? E o que sobra da gente sem compaixão? Vamos querer resolver violência com violência. Mas não é a violência que está nos fazendo mal?

Uma vez li: Afaste-se do veículo em chamas. Faz sentido não faz? Ao menos, claro, que tenha alguém lá dentro que você precisa salvar.

Somos mães, pais, professores, adultos, nós podemos salvar a próxima geração. Nós podemos mudar muito a forma como as meninas são tratadas. Nós podemos acabar com essa história de que “os meninos são assim mesmo, não tem jeito”. Mas para isso a gente precisa primeiro costurar nosso coração rasgado.

É preciso disciplina para não cair em buracos negros de agressão on-line e selvageria – esses tombos são voluntários. É preciso ficar longe da escuridão. É um serviço público evitar tais lugares sombrios, porque só escurece o nosso próprio espírito e então você não pode servir ninguém.

Na yoga aprendemos que nossos sentidos não têm vontade própria – só podem obedecer aos nossos comandos. Onde quer que você direcionar seus sentidos, eles terão de ir. Para onde quer que você direcione seus olhos, eles não terão escolha mas ver. No que quer que você sintonize seus ouvidos, eles não terão escolha a não ser ouvir. E muito do que está lá fora, na mídia e na internet é absolutamente abusivo para os nossos sentidos. Mas eles podem ser protegidos contra esse abuso, se a gente tiver disciplina e bom senso de se virar para o outro lado.

Acredite em mim. Li no livro de memórias de infância do Saramago – onde ele conta relatos muito tristes de experiências que viveu: “quem vasculhar minha infância não vai encontrar uma pista se quer da pessoa que me tornei”. (provavelmente ele escreveu com palavras mais bonitas, mas a ideia é essa) Estou no curso de psicanálise, vendo a importância da infância na formação da psique e fico pensando nesse livro e me perguntando como ele fez para conseguir superar tudo de horrível que viveu. Agora entendi. É que no meio de histórias tristes com o pai, com a mãe, com o irmão que morreu com 4 anos de idade, ele se vira para o outro lado. Ele aprende a ler sozinho, ele se refugia na sensibilidade (pura e linda) de seus avós. Tem até uma passagem que ela cita sua avó – já bem velhinha e quase morrendo – dizendo: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer.”

Por isso eu te digo, não torture seus pobres sentidos. Em vez disso, tornar-se um mestre bom e amoroso para deles. Use seus sentidos para atividades mais elevadas. Dê aos seus olhos as coisas bonitas para ver e ler. Dê aos seus ouvidos coisas edificantes para ouvir. Dê a seu gosto maravilhosas aventuras para explorar. Use sua voz para atividades mais interessantes do que discutir na internet com estranhos que simplesmente não têm sido capazes de encontrar um uso mais criativo de suas energias vitais sagradas do que extravasar sua própria raiva acumulada no megafone escuro e sem fundo que é a seção de comentários.

Vamos fazer a nossa parte para que esses lobos selvagens recebam justiça. Mas ao mesmo tempo, não vamos deixar eles levarem nossa compaixão e alegria de estar aqui nesse mundo tão lindo.

Nós estamos aqui por apenas um instante. A vida é preciosa e passa num piscar de olhos. Com certeza, temos outras coisas para fazer, certo?

Por último, quero agradecer a todos vocês que, de alguma forma, me fizeram vir aqui hoje, com dor de barriga, gripe, cansada e escrever esse texto. Eu agora estou melhor.

Espero que ainda estejam por aqui. ; )

Cris Leão

Foto: Nicole Franzen

29 pensamentos em “Ninguém disse que era fácil.

  1. Muito bom ler hoje seu texto! Que bom que está melhor!!!
    Com todos os acontecimentos do Brasil, e até mesmo em coisas corriqueiras do dia a dia na rua, no condomínio, por exemplo, tem hora que dá vontade de não se conectar mais, não assistir nada de televisao( meu marido ainda insiste em assistir telejornal), enfim virar para o outro lado o tempo todo…

  2. Cris, q maravilhoso q vc escreveu…muito bom poder ler seus textos…beijos e q Deus te abençoe e te faça feliz.

  3. Mais um excelente texto, Cris. Palavras de esperança em momentos assim são muito bem vindas. Sempre que vejo atrocidades como essa na TV me questiono como educarei minha filha nos próximos anos. Será que terei que incutir o medo pela sua própria sobrevivência? Terei que impedi-la de usar uma roupa curta enquanto meninos andam tranquilamente sem camisa por aí?
    Difícil demais perceber que minhas convicções podem ser abandonadas pelo medo.

    • Eu penso nisso também, Michel. Mas a gente tem que lembrar que nossos medos às vezes nunca acontecem, não é justo fazer com que eles liderem nossa vida. Foram 33 agressores, mas 500 pessoas denunciaram o caso na polícia, se importaram, tentaram ajudar, fizeram vir à tona essa barbárie que de outra forma ficaria encoberta (como ficam muitas). Em toda situação de violência, tem sempre gente tentando ajudar, tem sempre gente na contramão lutando pelo que é certo. Prefiro que minha filha, quando crescer, esteja nesse time. E para isso ela não pode ser convencida desde cedo de que o mundo é mau. Como já disse uma vez no blog, não precisamos criar filhos para um mundo cruel, precisam criar filhos que façam desse mundo, um lugar menos cruel. Vamos lembrar disso quando o desânimo tomar conta. : )

  4. Texto maravilhoso, Cris! Eu me senti acolhida! Parabéns pela sensibilidade com as palavras, num momento em que a realidade nos deixa estarrecidos! Um abraço fraterno! =)

    Alameda Portugal, nº 93, Sala 18, Jardim Europa

    Bragança Paulista, SP | CEP 12.919-055

    11-2277-4844 | 11-99703-4423 | 11-97227-8870

    http://www.cpadvogadas.com.br

    Date: Tue, 31 May 2016 01:59:21 +0000 To: pauladuranluqui@hotmail.com

  5. Olá Cris!
    Parabéns pelos bonitos textos. Esse “dom” de escrever o teu saber vai te ajudar muito na formação psicanalítica. E desculpe a intromissão, mas tenho curiosidade em saber que formação em psicanálise vc está fazendo? Ab. Márcia

    • Oi Márcia, obrigada! Eu comecei a fazer a psicanálise para ver se ela me ajudava a escrever, mas se for o contrário também está ótimo.; )
      Estou fazendo (por indicação de fonte confiável) no CEP – http://centropsicanalise.com.br/, eles são super sérios, super organizados e as aulas até agora foram simplesmente incríveis. Eles têm um formato muito bom de curso. Não é a toa que todas as turmas que abriram, estão lotadas! Um abraço!

  6. Oi Cris, sua pessoa e tao bela que mesmo doente postou algo tao certo. Estamos num Brasil de impunidades, vou sempre a missa aos domingos e o q faco e pedir a Deus que minha familia nao seja alvo dessas crueldades. Precisamos de leis mais severas. Parece que estamos vivendo a historia de Noe. Nao demora aparecer uma arca. Bjs fica com Deus.

  7. Obrigada! Eu estava precisando muito ler isso, estava começando a ter medo de sair, medo de tudo 😦 obrigada mesmo!

  8. Sim!! Ainda estamos aqui. Confiro o site todos os dias esperando vc voltar a escrever… Espero que “fique boa” logo e volte!!!!

  9. Olá Cris!

    Excelente texto, obrigada!
    Acredito que você conseguiu colocar nas suas palavras o sentimento de muitas pessoas que sentem a mesma tristeza diante das atrocidades
    que estamos vivendo.
    Acredito também que podemos ensinar nossos filhos, netos, e amigos através do nosso exemplo e conduta para que um dia sejam atuantes e vivam num mundo melhor!
    Fique bem!

  10. Bom dia, luz para sua vida!!

    Gosto muito de seus textos, gosto de ficar refletindo suas palavras.

    Obrigada!

    Vamos nos virar para outro lado.

    Thais

    ________________________________

  11. Cris, não tem como sentir gratidão por tudo que escreve aqui. Eu compartilho tuas coisas como a maior preciosidade e gostaria de todos pudessem ler e sentir o mesmo. Você já fez e continua fazendo muita mudança boa dentro de mim e consequentemente fora, já que sou mãe de duas e professora. Agradeço ter o blog como refúgio para estes momentos em que parece difícil viver aqui. Um beijo enorme e muita força e luz, sempre!

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