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Meu trabalho de conclusão do primeiro semestre de formação em psicanálise recebeu uma estrelinha e um “excelente reflexão”. Vou dividir aqui a parte que diz respeito ao legado de Winnicott – pediatra e psicanalista britânico, um dos mais respeitados nomes da Psicanálise. E na sequência do texto, passo as dicas brilhantes que ele traz sobre criação dos filhos.

Sobre o amor materno

As considerações de Winnicott (2002) adicionam uma importante dimensão ao estudo do amor materno ao fazerem referência a maternagem suficientemente boa. Neste contexto, o conceito de preocupação materna primária diz respeito a um estado natural de sensibilização que as mulheres desenvolvem durante os últimos meses de gravidez, como forma de preparação para o exercício da função materna, retornando gradualmente ao estado normal nas semanas ou meses que se seguem ao nascimento. Essa condição psicológica especial que se assemelha a uma patologia é, no entanto, indicativo de saúde e, é ela que possibilita a mãe adaptar-se de forma sensível as 4 necessidades do bebê. Nesta fase conforme ensina o psicanalista inglês em grande parte, a mãe é o bebê e o bebê é a mãe porque um dia, ela também já foi um bebê, e traz com ela as lembranças de tê-lo sido; tem, igualmente, recordações de que alguém cuidou dela, e estas lembranças tanto podem ajudá-la quanto atrapalhá-la em sua própria experiência como mãe.

Ele propôs que a felicidade da raça humana depende em última instância não tanto de assuntos externos de política, mas da maneira com que os pais criam seus filhos.

Nascido em 1896, Winnicott foi o primeiro psicanalista de criança britânico que também era pediatra. Apesar dele não ter tido nenhum filho, teve um papel crucial na educação pública a respeito da criação de filhos, escrevendo 15 livros. Dentre eles a coletânea “Tudo Começa em Casa”. (Home is Where We Start From)

Ele queria ajudar as pessoas a serem, em sua famosa concepção, pais suficientemente bons. Não pais brilhantes ou perfeitos. Mas o que seria preciso, segundo ele, para ser pais “suficientemente bons”?

1 – Lembre-se que seu filho é extremamente vulnerável.

Winnicott começa por impressionar a sua audiência do quão frágeis psicologicamente são os bebês. Eles não compreendem a si mesmos, eles não sabem onde estão, eles estão lutando para permanecerem vivos. Eles não possuem nenhuma maneira de entender quando virá o próximo alimento, eles não podem se comunicar consigo mesmo ou com os outros. O trabalho de Winnicott nunca perde isso de vista, e portanto, ele repetidamente insiste de que são aqueles a volta do bebê que devem se adaptar afim de fazer tudo para interpretar as necessidades do bebê e não impor demandas das quais ele ainda não está pronto.

2- Deixe a criança ter raiva.

Winnicott sabia quanta raiva, ódio poderia ter um bebê saudável. Referindo-se ao que poderia acontecer se os pais esquecerem uma alimentação. Ele adverte: “se você falhar com ele, a sensação para ele é como se as feras selvagens fossem devorá-lo”. No entanto, apesar de que o bebê possa algumas vezes querer matar e destruir, é vital que os pais permitam que a raiva seja gasta, sem que eles de forma alguma se sintam ameaçados ou moralistas em relação ao comportamento “mau”. Como ele diz: “Se um bebê chora num estado de raiva e ainda assim as pessoas a sua volta permanecerem calmas e ilesas, essa experiência irá reforçar sua capacidade de ver que aquilo que ele sente como verdadeiro não necessariamente é real”.

3- Certifique-se que sua criança não é demasiadamente obediente.

Pais ficam encantados quando um bebê ou criança seguem suas regras. Tais crianças são chamadas de boas. Winnicott tinha um pé atrás com crianças “boas”. Ele acreditava que elas eram filhos de pais incapazes de tolerar muito os maus comportamentos e demandavam obediência muito cedo e muito rigorosamente. Isso iria levar, na concepção de Winnicott, a emergência de um falso self – uma persona que iria ser exteriormente complacente, exteriormente boa, mas que estaria suprimindo seus instintos vitais. No esquema de Winnicott, adultos que não conseguem ser criativos, que estão de alguma forma meio mortos por dentro, são quase sempre filhos de pais que não foram capazes de tolerar rebeldia, pais que tornaram seus filhos “bons” muito antes do tempo certo, consequentemente matando suas capacidades de serem apropriadamente bons, apropriadamente generosos e gentis.

4- Deixe seu filho ser.

Toda falha do ambiente força a criança a se adaptar prematuramente. Por exemplo, se os pais forem muito caóticos, a criança rapidamente tenta hiperelaborar a situação. Suas capacidades racionais são hiperestimuladas. Ele pode mais tarde na vida se tornar uma pessoa racional em excesso, desiquilibrada. Um pai que esteja deprimido pode involuntariamente forçar a criança a ser alegre, não dando tempo a ela de processar seus próprios sentimentos melancólicos. Winnicott via perigo numa criança que, em suas palavras, deve “prezar pelo humor da mãe”. Winnicott tinha uma repulsa especial pelas pessoas que estão sempre balançando um bebê para cima e para baixo em seus joelhos tentando extrair uma risadinha. Essa é apenas a maneira deles de se proteger de suas próprias tristezas, ao demandar risos de um bebê que pode ter coisas bem diferentes em sua mente. A atitude primordial da saúde parental para Winnicott é simplesmente ser capaz de dessintonizar de si mesmo por um tempo afim de empatizar com as maneiras e necessidades de um pequeno, misterioso e lindo ser frágil do qual sua “outridade” única deve ser reconhecida e respeitada em sua amplitude máxima.

5- Compreenda a gravidade da função.

Muitos dos pais que Winnicott via estavam desgastados por seus trabalhos como pais. Winnicott tentou lhes dar suporte ao lembrá-los da extrema importância do que eles estavam fazendo. Eles eram, em suas próprias maneiras, tão significantes para o país quanto um ministro e o senado. Winnicott chamava a parentalidade ” a única base real para uma sociedade saudável, e a única fábrica para a tendência democrática no sistema social de um país.”Em sua descrição do que os pais deveriam fazer pelos seus filhos, Winnicott estava na verdade se referindo a um termo que ele raramente mencionava diretamente: Amor. Nós geralmente imaginamos o amor como sendo algo sobre uma “conexão” mágica intuitiva com alguém. No entanto, nos escritos de Winnicott, nós obtemos uma imagem diferente.

Amor é sobre a rendição de um ego, é o colocar de lado as próprias necessidade e suposições pelo bem de uma escuta próxima e atenciosa de outra pessoa, dos quais respeitamos os seus mistérios, junto com o compromisso de não se ofender, não retaliar, quando algo “mau” surge, tal como geralmente acontece quando estamos próximos de alguém, particularmente uma criança.

Desde a morte de Winnicott, nós coletivamente nos tornamos um pouco melhores na parentalidade. Mas apenas um pouco. Nós podemos passar mais tempo com nossos filhos, nós sabemos teoricamente que eles são muito importantes, mas nós estamos possivelmente errando na parte em que Winnicott se focou: Adaptação. Nós ainda rotineiramente falhamos em suprimir nossas próprias necessidades quando estamos com uma criança. Nós ainda estamos aprendendo como amar nossos filhos, e isso Winnicott argumentaria, é o motivo pelo qual o mundo ainda está cheio de caminhantes feridos. Pessoas de “sucesso” exterior e respeitabilidade que ainda assim não são “reais” por dentro e que infligem suas dores e raiva nos outros. Nós ainda temos um caminho a percorrer até que sejamos totalmente “suficientemente bons”. Essa é uma tarefa, que em sua própria forma, é tão importante quanto qualquer outra.

 

Foto: Uma aula de yoga que eu dei na escola das crianças em Miami logo que chegamos lá. No começo de 2013. Só para lembrar que o tempo passa. Que seus bebês vão crescer rapidinho, como os meus. E maior que a saudade vai ser a satisfação boa de ter estado presente sempre que pode estar.

Por Cris Leão

Comecei a escrever nesse blog em 2013 quando mudei com minha família para Miami e senti necessidade de dividir o aprendizado rico sobre Antroposofia e Pedagogia Waldorf que tive a sorte que receber. De volta a São Paulo desde Fevereiro deste ano, comecei a estudar Psicanálise e pretendo dividir aqui o que acreditar ser de interesse daqueles que estão nessa jornada rica que é educar e formar seres humanos. 

 

 

 

14 pensamentos em “5 dicas para criar filhos segundo um dos maiores nomes da Psicanálise

  1. Meus parabéns, acredito que para melhorar o desenvolvimento das próximas gerações precisamos desse equilíbrio que você está mostrando entre a sensibilidade e a disciplina do estudo. Afinal, revisar a literatura também é parte.

    Pessoalmente, acho que precisamos urgentemente <a href="de mais estudo e experimento (a famosa P&D) em educação ou algo como a Idiocracia vai bater nas nossas portas.

  2. Cris, sua linda, como eu amo ler as coisas que você escreve.

    Tenho uma linda Carolina de 1 ano e 9 meses e desde que ela nasceu passei a pesquisar bastante sobre educação e, ao pesquisar sobre a Pedagogia Waldorf, encontrei você =)

    Adorei o texto. Lembrou bastante algo que ouvi em uma palestra do Ivan Capelatto, você já deve ter visto, de qualquer forma o link é https://www.youtube.com/watch?v=pLHZW3GB3n0

    Obrigada por compartilhar seu aprendizado!

    Beijo grande

  3. Parabéns Cris! E que realmente saibamos amar, nos fazer presentes e formar seres humanos para uma sociedade e um mundo melhor. Abraços.

  4. Obrigada Cris. Muito bom ter lido isto aqui. Gostei demais do jeito que resumiu Winnicott. Esse seu curso está fazendo bem pra gente também.

  5. Você poderia compartilhar títulos de obras que poderiam servir a uma ‘introdução a Winnicott’?

    • Oi Nadja, não sei te responder (por enquanto). Eu sugiro uma pesquisa nos cursos e debates do CEP – Centro de Estudos Psicanalíticos. Tem sempre coisas muitos interessantes. Acho que o assunto psicanálise, pelo menos para iniciantes, não dá para andar sozinho.

  6. Pingback: SOBRE O AMOR MATERNO | Enciclopédia Materna

  7. Olá, Cris, bom dia! Como você comecou os estudos em psicanálise? Está fazendo graduação ou pode-se ingressar direto em uma pós? Poderia contar um pouquinho dessa mudança de profissão …sou advogada por formação e amante da psicologia e agora recém mãe e em crise com a profissão ..achei seu blog e estou amando. Bjos

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