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“É triste não ser ouvido e não ser visto, mas ainda mais trágico é não ver e não ouvir.” – Mark Nepo, poeta e filósofo

Faz já algumas semanas que eu li no jornal de domingo uma matéria sobre maternidade. Era uma espécie de reivindicação das mães para ganhar o troféu de sofredoras e trabalhadoras escravas – já que a grande reclamação era ninguém reconhecer o que faziam.

Longe de mim ficar contra mães, sejam elas as mães que forem. Mas tudo tem limite.

Primeiro: “ninguém reconhece que nosso trabalho é duro”. Tudo bem, eu sei que é chato para caramba você estar há dias ou meses sem dormir e alguém te perguntar: “você não está trabalhando?” Ou você estar há dias sem dormir e estressada porque seu filho está doente e alguém te perguntar: “nossa, porque você está tão cansada se não trabalha fora?”

Eu sei, eu sei. Mas me responde uma coisa, quem é que ganha reconhecimento? Professor ganha? Quando eu dava aula (o trabalho mais exaustivo que já fiz na vida) lembro de várias pessoas perguntarem: “mas além de dar aula, você trabalha?”

Deixa eu contar outra coisa, meu irmão é médico. Uma vocação linda. Outro dia ele trabalhou no plantão de 12 horas e quando estava voltando para a casa (sem voz de tanto cansaço) viu um acidente na estrada e parou para socorrer o motorista de caminhão. A ambulância chegou horas depois, e ele ficou ali. Ganhou dinheiro? Ganhou reconhecimento? Gente vamos acostumar logo que nesse mundão aqui, os valores são materiais. Então se você está educando um filho, ou se está construindo casas para desabrigados, ou se está trabalhando como voluntária – vai continuar sendo mal atendido nas lojas quando entrar mal vestido. Não espera reconhecimento. Faz porque é seu coração que está pedindo e essa é sua grande vitória: ter o coração cheio de amor. Não existe prêmio melhor do que esse.

Mas voltando a cegueira que abate em muitas mães, no artigo estava o seguinte parágrafo (eu fotografei) “As famílias que aparecem na mídia para vender margarina trabalham com a imagem da família e mães ideias. Mas a família real não é assim o tempo todo. Existem conflitos, separações e todos os outros sentimentos, porque são seres humanos. Se o meu real está muito longe disso, gera um conflito com consequências diferentes para as diferentes pessoas.” Uma mãe relata seu depoimento dizendo que chegou à maternidade com as referências de “mãe ideal” passadas por filmes e propagandas, e se deparou com uma situação completamente diferente: “Eles mentiram para mim, pelo menos em parte. Eu não sabia que iria dormir tão pouco, eu não sabia que um bebê tinha tantas necessidades..”

Posso então falar o real? Sem firula? Está ruim agora porque você sente falta da sua vida de antes, né? Vai ficar muito pior. Porque esse cansaço só aumenta. E a compreensão da sociedade não chega nunca. Eu fui demitida na gravidez com o meu chefe falando que eu não estava no pique. É verdade, eu parei de trabalhar 14 horas por dia por indicação médica. Acontece que até hoje, 11 anos depois, com meus filhos com 7 e 10 anos, se quero trabalhar ainda passo pela mesma coisa. Se consigo negociar trabalhar por menos horas, no começo está tudo certo. Até porque eu rendo muito mais do que quem não tem filhos e consegue ficar se distraindo sem se preocupar com o tempo. Mas não importa o quanto você rende. Se não está “vestindo a camisa” se está dizendo – preciso ir embora buscar meu filho na escola – aquela mesma pessoa que adorou a negociação do “eu trabalho por menos, mas preciso sair mais cedo” esquece a segunda parte do combinado.

Na real? Desde virei mãe assumi meu papel de mãe e isso me deu muito pouca chance de ter outros papéis. Porque os meus filhos só tem eu de mãe. Eu sendo só uma, não consigo estar em um reunião no mesmo horário que preciso estar com eles em casa. Existe a opção terceirizar as crianças e vira e mexe eu tenho muita inveja de quem escolhe esse caminho. Sendo bem honesta. Mas eu não consigo. Toda vez que comecei a trabalhar e a coisa começou a apertar (sempre aconteceu) eu escolhi voltar para casa. Sinceramente não quero reconhecimento de ninguém por isso. São meus filhos, é do meu amor que estou cuidando. É a opção que eu fiz. Escolhi tentar fazer isso bem feito. Escolhi que o arrependimento de não ter continuado a carreira seria menor no futuro do que o arrependimento de não ter sido a mãe que eles precisavam.

Mas isso sou eu. Escolha seu caminho. O que eu gostaria de ter do mundo perfeito da margarina é viver numa sociedade onde as mães possam trabalhar meio período. Onde isso seja um sistema possível. Mas enquanto isso não acontece, a gente precisa entender que vai ter que fazer uma escolha. E que tanto a escolha de sair de casa quanto a de ficar, vai exigir coragem, vai exigir que a gente assuma a vida.

Em um dos primeiros dias de aula de psicanálise, a professora disse que o problema de todo mundo é não querer crescer. Queremos ter uma mãe e um pai por perto cuidando da gente o tempo todo. Essa figuras assumem várias formas: o emprego seguro, a situação controlada, a absoluta confiança, a bajulação. Outra aula, outra psicanalista disse que passamos a vida querendo voltar para o paraíso de ter sido um bebê (onde tudo chega até nós) e com isso perdemos a chance de aproveitar o que de fato existe ao nosso redor.

Talvez o papel dessa geração de mulheres seja este. Porque não existe nenhum caminho seguro para nós. Não existe esse “pai e mãe” para nós. Os casamentos podem acabar, emprego seguro é raro. Se você é uma mãe que trabalha fora ninguém bate palmas para você, mas se fica em casa, também não. Ou seja, é dentro de você que vai ter que acontecer a escolha. Então vamos toma-las com as próprias mãos. Sem esperar alcançar o paraíso/cenário margarina, mas sendo as adultas que enfrentam aquilo que não é perfeito e sabem cuidar de si mesmas a ponto de não passar a vida como um bebê chorão.

Li semana passada o depoimento emocionante de uma mãe que depois de anos fazendo tratamento para engravidar, conseguiu ficar grávida de trigêmeos mas dois bebês morreram depois do parto. Ela fala que não entende as mulheres que reclamam da gravidez mesmo passando 9 meses longe de uma cama de hospital. E que também não entende as mães que reclamam de cansaço e tristeza, mesmo saindo com os filhos vivos do hospital. E é essa cegueira que eu queria falar. É preciso estar sempre muito atento na vida, porque o privilégio cega.

Não quero diminuir o sofrimento de ninguém. Como diz a psicanalista Françoise Dolto: Nascimento é morte e morte é nascimento. Nasce um bebê, nasce um mãe e algumas coisas precisam morrer com isso. Mas não é tudo. Sua vida não acabou nem nada. Para de drama, gente. Olha um pouco para o mundo. E se você puder visualizar que existem milhares de pessoas que gostariam de estar no seu lugar agora, é porque você não precisa reclamar. Sua vida, sem a liberdade de antes de ter filhos, sem as festinhas de antes, o cineminha de antes, parece uma propaganda de margarina para muita gente na vida real.

Na prática o que quero dizer é:

  • Está querendo demais ser reconhecida pelo que faz? Se pergunte porque isso é tão importante assim. E se o reconhecimento não pode ser a saúde do seu filho, o sorriso, o abraço, os quilinhos que ele ganha a cada mês. Talvez o que está faltando é um pouco de auto estima, a estima pelo que se tem. É fácil se sentir estimada pelo que falam da gente, mas é importante sentir que dentro de você existe algum valor. Valorize suas escolhas, por exemplo. Tente lembrar dos ganhos. E celebre! Celebre todos os momentos gostosos que você puder ter no dia. Se essa fase é cheia de momentos difíceis onde ninguém reconhece o tamanho da dificuldade, aproveita que ninguém tá olhando mesmo e se cuide. Faça aquilo que gosta, aquilo que está com vontade. Nem que seja durante 2 minutos livres que têm no dia. Logo menos esses 2 minutos viram 20 e cuidar de você, vira hábito.
  • Está achando que o mundo caiu e sua vida nunca mais vai ser como era antes? Bom, no meu caso foi isso mesmo. Para mim o que resolveu foi entender que isso aqui não é um parque de diversões. Não existe nenhuma escolha, nenhum caminho que não gere nenhum tipo de sofrimento. Uma vez fui numa palestra com monges budistas do Tibet e o tema era o estado da paz. Sabe qual o fim da palestra? Eles falando que essa tal de paz completa não existe, que todo mundo tem angústia. Então relaxa. A família da propaganda está só atuando.
  • Pode reclamar. Nada contra. Só toma cuidado porque como tudo na vida, se você faz demais vira um hábito. E você para de perceber que está só reclamando. Para também de perceber a quantidade de coisas boas que estão acontecendo.
  • Seu filho cresce e não tem nada mais crucial que você possa fazer por ele na vida toda do que sentir que esse momento foi algo importante para você. Pode ter abalado sua estrutura, mas você vai sim, colocar energia, afeto, amor para fazer com que esse momento seja especial.
  • Depressão é quando existe uma diferença muito grande entre o ideal e o atual. Um sentimento normal pela nossa vida a fora. O que a gente não pode fazer é ficar se depreciando. Por isso procure alguma coisa nessa situação – tão diferente do sonhado – que possa ser apreciado.

 

Vamos lá mamães, se a natureza nos colocou essa tarefa, é porque sabe que damos conta. Pense pelo lado bom, o trabalho de mãe é pesado, mas que outro trabalho você pode fazer de pijamas?

E fica tranquila que a recompensa chega mais tarde, mas chega. Falei sobre a minha aqui.

Cris Leão

Foto: Emily Blincoe

ps: se você leu esse texto até o fim, escreve uma coisinha aí para eu saber que não estou falando sozinha. ; )

92 pensamentos em “A vida é muito curta para reclamar tanto.

  1. A primeira vez que fui privada de sono foi quando meu filho nasceu. Quando me diziam que eu ia ter que acordar de madrugada para cuidar do bebê eu pensava: “não tem problema, eu levanto”. Quando meu bebê me acordava por duas vezes na madrugada eu me sentia mais morta do que viva. Descobri que se você não dormir pelo menos quatro horas seguidas você não é gente. A primeira vez que eu passei por uma cirurgia foi quando meu filho nasceu. Foi aí que eu descobri quão lenta e dolorosa é a recuperação. Uma colega de trabalho teve filho um pouco antes de mim e em certa situação ela disse: “Aqui é que eu descanso!” Eu pensei: “Nossa que exagerada! Como é possível alguém descansar no trabalho?” Hoje eu também descanso no trabalho. O que eu quero dizer é que a culpa não é dos comerciais de margarina. A questão é que NADA te prepara para ser mãe. Só quando você estiver no olho do furacão é que você vai saber. Assim como você só vai saber o significado das palavras birra e teimosia quando seu filho tiver 2 anos. Mesmo se houvesse uma faculdade para ser mãe, ainda não seria suficiente. Hoje meu filho está com quase 3 anos e sinto as coisas melhorando. Estou grávida de novo e agora eu sei exatamente por tudo que vou passar e sei também que vai passar. E entre todas as ilusões desfeitas ficou uma certeza, algo que eu já sabia antes de ter filho: as recompensas são muito maiores que as dificuldades.

  2. Eu adoro os seus textos e sinto sempre, sem excepção até hoje, que me dizem alguma coisa, que aprendo ou partilho algo. Há mesmo textos seus que partilho com as minhas amigas e que damos por nós a “discutir” o que é maravilhoso e enriquecedor. O meu marido também lê alguns ❤ Eu trabalho em casa e deixei, voluntariamente, a minha carreira há 3 anos quando a minha filha mais velha fez 1 ano, queria vê-la crescer e sinto que apesar de tudo (que por vezes é muiiiiito) valeu tanto a pena e que sou tão mais feliz. Se é o melhor não sei mas sei que sinto que é o que me faz feliz, a mim e a elas. (já tenho duas piolhas lindas) 😉 beijinho Cris aqui de Portugal

  3. Parabéns belas ótimas reflexões sempre! De acompanho a tempos e fico na espera de novos textos.
    Um grande beijo e sabedoria sempre!
    Carina Dardengo

  4. Adorei o texto!
    Me fez parar pra refletir acerca dos nossos papéis e como podemos extrair o melhor de cada um deles. Você extrai maravilhosamente bem as coisas boas do papel de mãe. Acho que o reconhecimento é próprio, só nosso. Me fez sentir e refletir. Obrigada.

  5. Parabéns pelo blog. Já me senti assim algumas vezes, desejando ser reconhecida mas sei que o importante é vc saber, no fundo do seu coração que está dando o máximo de si para aquele milagrinho que VOCÊ desejou colocar no mundo.

  6. Amei o texto. A parte “Escolhi que o arrependimento de não ter continuado a carreira seria menor no futuro do que o arrependimento de não ter sido a mãe que eles precisavam” traduziu perfeitamente o q tento explicar pra mim mesma a tanto tempo. Obrigada

  7. Cris Amei! E olha, que quando o texto é grande, penso muito se vou ler, e esse deu gosto de ler todo. Um beijo, e continue escrevendo, grande ou pequeno certamente irei ler! O que fazemos com amor e boa intenção, só precisa ser reconhecido por nós mesmos, portadores da própria vivência.

  8. Querida, como seus textos caem bem pra mim. Outro dia em terapia, gastei muita saliva falando que aguardava até hoje o reconhecimento dos meus pais pelas minhas atividades como profissional e mãe… e ela me disse: “O reconhecimento vem de dentro, vem de você. Fique você feliz pelo o que faz. Não espere mais reconhecimento de pai, mãe, chefe…” – vem bem de encontro com o que você disse. Isso faz parte do amadurecimento. Mais um texto brilhante seu! Beijos

  9. Texto super propicio para o momento atual.
    O importante é a pessoa estar feliz e se sentir completa, a decisão é de cada uma.
    Adorei o texto!
    bjs

  10. Sou mãe de uma linda menina, e muitas vezes percebi que sempre poderia dar mais atenção, ela hoje passa uma fase incrível de carência, quer estar à toda hora conosco e muitas vezes não é possível, realmente preciso parar e pensar para que caminho estou levando minha filha. Obrigada pela reflexão!

  11. Os seus textos me tocam profundamente. Me identifico com cada palavra. Obrigada por dedicar seu precioso tempo de mãe para escrever. Sempre me ajuda a refletir.

  12. simplesmente apaixonada por seus textos…Esse texto em especial me deu aquela sensação de “acordar para a vida”…

  13. Cris, seus textos são uma inspiração e muitas vezes um alento para mim. Foi o caso deste post. Todas as vezes que leio algo no blog fico melhor. Obrigada por compartilhar seu conhecimento e experiências!!

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