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“Que nada nos limite. Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.” – Simone de Beauvoir

Frequentemente o tema mãe que trabalha fora x mãe que não trabalha fora aparece aqui no blog. Seja nos textos, nos comentários ou nas mensagens que recebo. Pois no auge dos meus quase 11 anos na maternidade, uma coisa eu já entendi: a mãe precisa estar bem para a família estar bem. Essa talvez seja nossa maior responsabilidade.

Minha história, vocês já sabem, foi até agora a de precisar aprender a ficar bem ficando em casa. Com muita sorte e também muito azar (já que vários planos foram fracassados), foi assim. E esse é o meu processo de libertação. Quem me acompanha já deve ter entendido. Mas para outras mães, o processo é outro. E olé para elas também. Só desejo que a gente sempre escolha o amor, não o medo. Acredito que esse é o caminho que vai nos levar a algum lugar bem bonito. E se a gente quer mesmo um mundo mais livre, que a gente comece nos libertando dos rótulos.

No final de semana, li este texto da Sasha Emmons no Parenting.com achei muito lindo e fiquei com uma vontade imensa de dividir com todas as mães brasileiras – que muitas vezes são mães e pais e ainda se sentem culpadas. O que segue é minha tradução.

Cara Chloe,

Há pouco tempo atrás, você me perguntou se eu amo mais o trabalho do que você e seu irmão.

Essa pergunta partiu meu coração, e como você tem quase 8 anos, eu tenho certeza que essa era a intenção. Não se preocupe. Eu não vou usar isso contra você. Filhas são destinadas a conhecer e agitar os pontos vulneráveis de suas mães – faz parte da intimidade especial que compartilhamos. Eu fiz a mesma coisa com minha mãe, quando ela voltou a trabalhar meio período quando eu era ainda mais velha do que você, depois dela ter passado anos em casa criando eu, meu irmão e minha irmã. Eu vou me certificar de trazer a nossa conversa uma outra vez quando você for uma adulta e estiver enfrentando os mesmos tipos de comentários de sua própria filha, como minha mãe fez comigo. (P.S. Mamãe, me desculpe – novamente!)

Você realmente nunca conheceu a época em que eu fiquei em casa. Eu voltei a trabalhar quando você tinha três meses de idade – diferente dos oito meses que fiquei em casa quando seu irmão nasceu – sempre foi assim para você. Embora tenha sido surreal sair pela porta e deixá-la para trás no dia que a minha licença de maternidade terminou, e eu não podia acreditar que eu estava fazendo isso até que estava, também foi um alívio para relaxar em alguma normalidade após a reviravolta maravilhosa que você trouxe para minha vida.

Algumas pessoas trabalham para ganhar a vida, e algumas pessoas têm a sorte de ser pagas para fazer o que elas amam. Tenho sorte de fazer parte do último grupo. Eu sabia o que eu queria fazer no dia em que meu professor de 8ª série leu minha história para a turma e me disse que eu era uma escritora. Eu ainda fico com as bochechas vermelhas quando consigo lutar com as palavras para delinear a forma de meus pensamentos. Eu acho que reconheço a mesma expressão de felicidade no seu rosto quando você está pintando, mas talvez haja uma paixão ainda maior em você esperando para ser descoberta.

E se eu dissesse que era sua arte … ou eu? Claro, você me escolheria (espero) se tivesse que fazê-lo, mas isso não seria uma escolha injusta? Agora você diz que não quer filhos, graças ao irmão mais irritante de todo o mundo. Talvez você mude de idéia. E se você fizer isso, espero que seu amor por criar não seja sacrificado pelas pessoas que você ama, se você ganhar dinheiro com ele ou não. Espero que você escolha um parceiro que queira isso para você também.

Mas voltando à sua pergunta original. Há muitas razões pelas quais as mães trabalham – e podem não ser os que você pensa que são. Estes são meus.

Eu trabalho porque amo o que faço.

Eu trabalho porque a coceira para criar me faz feliz, e essa felicidade sangra para todas as outras áreas, incluindo a mãe paciente, envolvida e criativa que eu sou.

Eu trabalho porque esta casa agradável e as aulas de ginástica e as sapatilhas que você precisa ter são todos tornados possíveis por termos duas rendas.

Eu trabalho porque quero que você e seu irmão se orgulhem de mim.

Eu trabalho porque fiz isso antes de você nascer, e eu ainda quero estar lá depois que você for para a faculdade.

Eu trabalho porque – apesar de ser a pessoa que quase sempre é a única que atravessa a porta às 18h, aquela que raramente viaja a trabalho, aquela que está acompanhando o fato de que a permissão para a viagem de campo precisa ser entregue amanhã – você nunca perguntaria ao seu pai por que ele trabalha. O amor dele é um fato que as longas horas de trabalho não fazem diminuir.

Eu trabalho porque até na sua tenra idade você absorveu a mensagem sutil de que o trabalho das mulheres é menos importante e valioso – e que as mães que realmente amam seus filhos não o fazem.

Eu trabalho para que no momento em que você tiver sua própria filha, eu cruzo meus dedos, isso não será assim.

Então, para responder a sua pergunta: Eu amo o trabalho, mas é claro que eu te amo e amo seu irmão muito, muito mais. Se eu tivesse que escolher, eu escolheria vocês.

Mas estou tão feliz que não preciso. E eu espero que você nunca precise também.

Com amor,
Mamãe

(Photos by Amelia Fullarton.)

9 pensamentos em “Querida filha, é por isso que eu trabalho.

  1. Ai, Cris, mais uma vez, escrevo aqui com lágrimas nos olhos. Mais uma vez, me identifico demais com o que vc escreve ou, como nesse caso, nos apresenta, vindo de outra pessoa.
    Mas, se antes eu ficava angustiada pelo turbilhão de sentimentos, agora me sinto aliviada, em saber que sou apenas mais uma nessas eternas dúvidas, e feliz, por estar aprendendo (o gerúndio é proposital, pois o exercício é diário e, pelo visto, eterno) a lidar com esse inexplicável papel de mãe.
    Aliás, gostaria de indicar um livro que acabei de ler (ontem à noite, olha a sintonia!) e que me fez pensar muito em mim como mãe e nos muitos sentimentos que vieram com o pacote. O livro chama-se A Filha Perdida, de Elena Ferrante (que na verdade é o codinome de uma escritora italiana que ninguém sabe quem é). Só por isso, eu já tinha gostado dela, mas o livro mostra, de maneira delicada e às vezes dura, as dores e amores de ser mãe.
    Para quem tiver interesse, vale a leitura!

    Bjs
    Silvia
    PS: e o encontro com o pessoal de SP, não vai rolar não?

    • Oi Silvia! Que gostoso ler seu comentário. Vou procurar esse livro. O encontro vai rolar sim. Dia 26/11 na Livraria da Vila na Fradique Coutinho as 9:30. Espero te ver lá! Já vou divulgar na página do Facebook do blog. Bjs!

  2. Ai, que pena! Justamente nesse dia acontece o café da manhã de encerramento na escola do meu filho. Não acredito! É, ao invés de conversar sobre o meu papel de mãe, me contentarei em colocá-lo em prática mesmo! Espero que seja ótimo. Se puder, depois faça um texto sobre ele, só para dar um alento a quem não foi!
    bjs

  3. Linda reflexão! Eu trabalho porque acho que o trabalho traz dignidade para a mulher! Eu jamais conseguiria depender totalmente do meu marido. Gosto da minha independência e tenho sorte de ter acesso a uma escola (creche) na qual eu confio e fico tranquila quando deixo meu filho lá. Eu trabalho só 6 horas e acho que o tempo que passo com meu filho é muito bem aproveitado. Acho que as mães devem parar de sentir culpa! Nós trabalhamos pra eles, pra que eles possam ter um futuro melhor, pra que possam estudar e ter um plano de saúde. Não vejo benefício em eu ficar o dia todo com meu filho em casa e não poder dar essas coisas pra ele.

  4. Obrigada pela tradução ! Da uma olhada nessa frase aqui: “e segura pelos oito meses que fiquei em casa quando seu irmão nasceu”. Acho que no original era “and save for the 8 months…”, o que quer dizer “à exceção dos 8 meses…”. Abraços

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