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Domingo, a gente almoçando num restaurante onde a sobremesa era à vontade, meu filho (10 anos) fala: mãe vem comigo, você é o meu limite. Enquanto ele falava essa frase, fazia duas linhas retas com as mãos. Marcando o limite.

Nessa hora eu lembrei uma das coisas que tinha aprendido no curso de Psicanálise “Mãe é o continente, é a nossa terra natal” (Winnicott). Continente é aquilo que contém e dá limites.

Outro dia eu terminando de preparar o jantar, mas sentindo um calor danado e na verdade sem nenhuma vontade de comer (esse horário de verão…) falo para a minha filha: “Vai tomar banho agora, ou toma depois do jantar. Você que sabe.” Para quem não sabe, esse é um errinho clássico que fazemos. Dar opções para as crianças. Sinceramente, eu quase nunca dou, mas nesse dia aconteceu. Do nada, ela que estava super calma, sentou no chão e começou a chorar resmungando “Eu não sei”.

É por isso que criar filhos é fácil e é difícil ao mesmo tempo. É fácil porque você só precisa colocar limites o tempo todo. E é difícil por isso mesmo.

Uma das ajudas mais valiosas que já recebi nessa jornada da maternidade, foi numa palestra com um pediatra (no jardim Waldorf) quando ele falou: “vocês não devem perguntar para as crianças: quer tomar banho? Devem apenas levá-las para tomar banho dizendo que está na hora.” Gente pode ser uma bobagem isso, mas no dia a dia faz uma diferença danada.

Eu peguei minha filha nos braços, ela ainda chorando e repetindo “eu não sei” e falei, “está certo filha. Você só vai agora tomar banho e pronto.”

E pronto.

O limite dá segurança, mas mais do que isso, marca o que é seu e o que é do outro.

Hoje pela manhã, uma mãe relatou que está fazendo o trabalho (de grupo) do filho – que já tem 11 anos. Isso também é falta de limite. Isso também é falta de continente. Já não existe mais o que é seu e o que é do outro. Não deve fazer nada bem para a criança crescer nesse ambiente. Isso é ser privado da possibilidade de crescer.

Claro que quando o bebê é um recém nascido, mãe e filho se misturam. Isso é super saudável. E vai fazer até com que aquele momento seja vivido de forma menos sofrida, mais fluida. Mas o limite precisa chegar. O limite que dá segurança, dá estrutura, dá rotina, dá repetição para as crianças.

Meu trabalho de conclusão desse semestre em Psicanálise foi sobre o papel dos pais na constituição do sujeito. Para quem quiser um pouquinho das ideias de um grande especialista no assunto, segue um trecho do meu trabalho que diz exatamente sobre isso:

Winnicott (1896-1971), utiliza a expressão holding. O pediatra e psicanalista acredita que o sujeito só pode vir a ser com o apoio de uma mãe suficientemente boa em sua formação emocional. “Por empatia, a mãe sabe que deve levar tempo para elevar o bebê”.

Apesar da ênfase na provisão maternal e da mãe suficientemente boa, Winnicott não deixou de tratar da questão do pai e da enorme importância e valor que sua presença, ações e falhas exercem durante toda a vida da criança, desde o momento da concepção, passando pelas fases iniciais – quando o pai, em conjunto com a mãe, forma o ambiente total no qual o bebê habita – e acompanhando todas as fases posteriores (concernimento, vida familiar, etc) do amadurecimento humano.

Winnicott (1983) atribui significativa importância ao ambiente na estruturação do sujeito e defende a necessidade de um ambiente estável e saudável, assim como uma boa identificação, para que o indivíduo possa alcançar a vida adulta de forma satisfatória. Para ele dois aspectos relacionados à estabilidade de um ambiente são fundamentais para que um indivíduo possa se sentir pertencente a ele: a estabilidade gerada pela continuidade da permanência do sujeito no ambiente e a estabilidade do ambiente enquanto lugar continente. Para ele, um “ambiente suficientemente bom” pode ser definido em termos da segurança e continência com que consegue se apresentar frente às crises e testes pelo qual passará e pela capacidade de permitir que estes aconteçam e, mesmo assim, continuar estável. Nas palavras do autor: “O holding é a primeira função que o ambiente exerce. O próprio ato de segurar o corpo do bebê resultará em circunstâncias satisfatórias em termos psíquicos”.

Então fica a dica: estabeler regras, rotinas , limite e não dar opções para crianças parece uma tirania mas na verdade deixa a família toda muito mais feliz. (e mais funcional também) Demorei anos para entender isso! Espero que lendo esse texto algumas pessoas consigam aprender mais rápido.

Queridos que acompanham o blog, estou marcando um encontro. Algumas pessoas sugeriram e acho que seria muito bacana a gente trocar ideias pessoalmente. No Facebook do blog tem todas as informações. Por enquanto só 2 pessoas confirmaram presença. Como final de ano é corrido para todo mundo (eu sei) se o número de pessoas confirmadas não chegar a 10, deixamos para outra data.

Cris Leão

Outros textos no blog sobre esse tema limites:

Como colocar limites na criança.

Seu filho não sabe o que é melhor para ele.

Criança não tem querer. Tem?

15 pensamentos em “Criança precisa de limite.

  1. Eu gostei especialmente da parte sobre negar espaço para o filho crescer. Confesso que caio nessa questão de dar opções. Poderia elaborar um pouco mais sobre o problema das opções demais para a criança?

    No mais, seu texto me lembrou um artigo muito legal que li esses dias sobre como os filhos podem aprender sobre coragem em nossa era da superproteção e que recai muito na questão de criar limites e também expandi-los quando chegar a hora.

    O artigo está em https://www.psychologytoday.com/blog/freedom-learn/201112/how-children-learn-bravery-in-age-overprotection

    • Oi Renato! O texto foi abrangente em algumas questões porque vários pontos já foram abordados no blog de outras formas. Vou acrescentar os links no final do texto. Mas se até para nós adultos é difícil e cansativo ter opções demais, imagina para uma criança que é bem mais sensível e por natureza, mais dispersa. Não ter opção dá segurança e calma. É a sensação de estar contido, em um continente. Elas já são exigidas demais no intelecto. Não precisar pensar e decidir em casa, é um alívio para elas. Obrigada pelo link!

  2. Oi Cris,
    Como sempre você arrasa nos seus textos, eu não sabia que tinha blog no face! 🙂 Já vou seguir e confirmar!
    Beijos

  3. Exatamente!! Concordo e pratico o mesmo: vai tomar banho e pronto. Essa coisa de dar muitas alternativas deixa as crianças sem chão. Minha filha cresce feliz, a certeza que não sou uma tirana. Que texto ótimo, Cris!

  4. oi Cris, eu sempre acreditei que crianças precisam de limites e regras, até para se sentirem seguras e cuidadas. Por isso, aqui em casa eles cresceram sabendo disso. Mas confesso que tenho passado por uma fase dura com meu mais novo, de 7 anos, que questiona e reclama de praticamente TUDO. Tem horas que é difícil e cansativo ficar argumentando…

    • Oi Silvia, mas a questão é exatamente essa. Não ficar argumentando de volta. Por isso que não é “está na hora de tomar banho” só, é pegar a criança falando “está na hora de tomar banho” e já ir levando. Então de certa forma, é muito mais trabalho para quem está educando. Porque além da presença, é preciso a coerência. Não dá para falar “está na hora de dormir” e ficar assistindo O Exterminador do Futuro com a televisão em volume alto. A casa inteira precisa estar dizendo que está na hora de dormir. É cansativo mas o gratificante é que quando eles ficam maiores, eles mesmos querem fazer o combinado. Sem você falar nada. Porque eles sabem que coisas como dormir na hora certa, alimentar bem, estudar para a prova, são chatos no momento mas depois geram um enorme bem estar. Acho que esse é o grande papel da educação dos pais. Mas eu sei que é difícil. Não pense que para mim é fácil. Vamos tentando e aprendendo. Mas a dica desse pediatra foi essa: pega a criança no braço, vai levando para o banheiro enquanto fala “está na hora de tomar banho” não é uma conversa, não é um tópico para ser discutido e argumentado. Boa sorte para nós!

  5. Criar filhos dá trabalho! Um dos maiores é exatamente estabelecer limites, definir certo e errado, respeitar o espaço alheio. Não é à toa que esbarramos em crianças deseducadas, grosseiras, folgadas e manhosas por aí… São reflexo de pais que gostam de confundir sua própria falta de empenho com “liberdade” para seus filhos…os inconvenientes! Normalmente são os mesmos que só falam em direitos, enquanto esquecem seus deveres.

  6. Olá Cris!
    Gostaria que soubesse que seus textos, que acompanho há tempos, me são tão reconfortantes, acolhedores, empoderadores, tão amor!
    Quantas vezes me vi intrigada com algo que me afligia e ao ler algo que escreveste, me encontrei e me vi envolta de tantas outras mães vivendo a mesma situação.
    Muito grata!
    Fico pensando se você consegue ter a real noção do quão seus textos ‘salvam’ cabecinhas aflitas, coraçõeszinhos apertados…
    Muito grata!
    Muita luz pra ti!
    Ah, vi a pouco sobre o encontro e seu comentário no post…. adoraria conhecê-la pessoalmente, mas tô no interior e a ida pra SP é difícil.
    Beijos ❤

  7. Cris, adoro seus textos. Este em especial vou levar para meu marido ler, pois ele quer sempre dar alternativas nos momentos rotineiros ao comer, tomar banho, jantar, mas sou super a favor do limite; até porque a criança pode reclamar, mas como os conhecemos sabemos o que é melhor para eles – pelo menos agora, antes que eles cresçam. Obrigada

  8. Concordo em gênero, número e grau!
    Principalmente no que diz respeito à oferecer opções às crianças.
    Parabéns pelo seu trabalho!

  9. Oi Cris…

    Ainda não sou mãe, mas me interesso muito pelos assuntos ligados a maternagem.
    Estou fazendo um trabalho para faculdade sobre o uso do Instagram como forma de apoio para as mamães e acabei chegando aqui.
    Isso foi há quase uma hora… Não consigo sair do seu site… rsrs
    Seus textos são simplesmente incríveis!!!

    Bom, se o encontro de final do ano for no Rio, pode contar comigo!
    =)

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