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Desde que o mundo é mundo e o ser humano sabe conversar, acontece uma competição. Comum ouvirmos crianças (tão puras, né?) comparar o tamanho da casa, as qualidades dos pais e, com as separações, até o número de pais. Acho que é uma forma da gente se distrair do fato de que na vida, de verdade, não temos nada. Basta lembrar que a vida é aquele ciclinho básico de nascer sozinho, morrer sozinho e alguns anos depois, ninguém nem lembra de você.

Ter ou não ter filhos também entra na jogada da competição. E como ter filhos é um ótimo tapa buracos da busca existencial, quem tem filhos está “ganhando” porque não precisa tanto justificar a carreira que não foi, o corpinho que caiu, a promessa de transformar o mundo que não cumpriu. Qualquer que seja o assunto, filhos são uma ótima desculpa para a desistência sem sequer uma tentativa.

Entendam, não estou desmerecendo o trabalho, dedicação e gastos de se criar um ser humano, escrevi nesse blog mais de 200 textos sobre isso. Este texto aqui é para falar de outra coisa. Para falar com quem tem 40 anos ou mais, não teve filhos e acha que está errado. Não está. Filho não preenche buraco. Aliás, em muitos casos, eles criam buracos onde não havia nenhum. Filho dá trabalho demais: físico e emocional.

Eu sei que os amigos com filhos vivem dizendo que vivem uma história de amor nunca vivida antes. Isso deve perturbar muito quem não tem filhos, por isso sinto na obrigação de contar: eles estão falando só uma parte da verdade.

Existem milhares de maneiras de viver a vida. Eu acredito que a melhor delas é fazer da vida que se tem uma vida feliz. Não feliz como nas propagandas de Margarina ou nos filmes ruins americanos, mas feliz gostando de si mesmo e se apropriando de tudo que você criou no seu caminho.

Se eu tive filhos e se vivo uma história de amor com eles, isso não é sem precisar abrir mão de outras coisas. Muitas, inclusive:

  • Acordar na hora que quero – faz 11 anos que não sei o que é isso. A não ser nas 4 vezes que já viajei sem as crianças nesse tempo. Aí é tanta coisa que quero aproveitar, mas no fundo o que faço mesmo é dormir e tentar ficar sozinha em silêncio – essas são as 2 coisas que mais sinto falta.
  • Ser amiga dos amigos – em 11 anos de maternidade, deixei de ir em incontáveis festas de aniversários, cinema, happy hours…
  • Ter férias nas férias. Férias escolares são grandes e com as mudanças que já fiz de países, mais os quase 4 anos que dei aulas, consigo ter muitas férias escolares com meus filhos. (todos os anos, na verdade) Mas não pense que é relaxado. Passe 30 dias inteiros com duas crianças para ver. Observação: Para o caso de alguém falar “nossa, não preciso abrir mão de nada disso” – para quem cria filhos com ajuda da família, a história é muito diferente.

Enfim, não tenho paciência nenhuma para ficar reclamando, acho que ser infeliz dá um trabalho danado. O texto não é para falar: amiga, está sem filhos?! Continue assim que tá lindo! E nem quero desencorajar ninguém a ter filhos depois dos 40. Tenho certeza que meus filhos teriam ganhado muito se tivessem nascido só agora e encontrado essa “nova-velha” versão de mim, com muito menos inseguranças. Mas também não vale (e aqui dou uma dica de amiga) ficar para sempre criança achando que “tudo vai dar certo”. Podendo ter filhos mas esperando o momento perfeito. Como que esperando uma orquestra tocar uma música solene e a cidade inteira comemorar porque “está na hora de você ter filho”. Não. Todo mundo que tem passa um cagaço danado porque de forma alguma se sente preparado para isso. E se fala que está preparado… vixi, esses casos são mais graves. ; )

O que incomoda é essa postura social que ainda temos (2017, minha gente!!) que trata a mulher (e nunca o homem) como algo incompleto se não tem filhos. Quem sabe da completude ou da incompletude do próprio umbigo, é o dono. Mais do que isso, do meu ângulo de visão, completude é super valorizada. É o nosso sentimento de falta que nos faz andar. Só não adianta andar sem contar as flores do caminho e sem ver o caminho.

Um parênteses para contar que assisti o filme Moana e adorei! Uma princesa forte e cheia de habilidades físicas. Mas que decide, ao invés de assumir o poder do reino, ir atrás de uma coisa que seu coração está pedindo. Essa coisa é a história dos seus ancestrais. Cada um entende como quiser, para mim foi uma metáfora da maternidade na nossa época. Os pais e a sociedade nos preparam para ser profissionais, para trabalhar. Não para ser mãe. Então escolher ser mãe é ir com coragem ao encontro do que o coração está pedindo.

Mamães que lêem o blog, ao invés de julgar as amigas sem filhos ou atropelá-las com sua lista constante de casos, desabafos, alegrias e tristezas, que tal ouvir, que tal conversar sem clichês, mas como seres humanos. Com a humildade de saber que todos nós aqui temos uma grande coisa em comum: não sabemos nada da vida, estamos aprendendo.

Conhecemos mulheres demais deprimidas depois dos 50 anos. (não conhecemos?) Mulheres que tiveram filhos, que se doaram completamente e não conseguiram lidar com o vazio de ter precisado abrir mão de si mesmas.

Também conhecemos mulheres bem sucedidas profissionalmente e que lamentam não terem tido tempo para estar com seus filhos enquanto pequenos.

Conhecemos histórias suficientes para entender que a vida é feita de perdas e ganhos. Para a mulher mais ainda. Não porque somos menos, mas porque somos e podemos mais. Está na hora de unir essa força toda. Fazer o que nossas ancestrais sabiam fazer muito bem: conversar, se fortalecer.

“As mulheres são como águas: crescem quando se encontram.”

Minha pesquisa de mestrado é sobre arte e educação. Estudando o assunto, descobri que foi São Francisco que criou a imagem do presépio. Uma imagem completamente diferente das imagens arcaicas cristãs, que mostram o triunfo da mãe com o filho. Mas um lugar onde mãe, pai e filho são humanos em todos os significados do termo. Inclusive na falta.

Cris Leão

13 pensamentos em “Sem filhos, está tudo certo.

  1. Cris, teus textos sempre tão profundos e leves! Refresco para a alma… Não pare nunca de escrevê-los! No turbilhão de cuidar de três filhos pequenos fazia tempo que não te encontrava. Meu dia está melhor! Obrigada!!!

  2. CRIS, AMO LER SEUS TEXTOS, MUITO OBRIGADA POR VC COMPARTILHAR SUAS OPINIÕES E SEUS SENTIMENTOS. ISSO TUDO É MUITO VERDADEIRO E ACRESCENTO: SOFRO MUITO POR TER TIDO SOMENTE UMA FILHA. PARECE QUE AS PESSOAS ME COBRAM E SINTO A OBRIGAÇÃO DE CONTAR O MOTIVO0 DA MINHA DECISÃO. BEIJÃO

  3. Concordo com vc. Cada um sabe de si. Eu me encontrei sendo mãe, mas continuo na profissão, sendo professora posso ter um tempo c as criancas e um tempo para o meu ofício. Entendo que não tenho férias kkkk… e me identifiquei na parte do sono…. enfim, amo ler o que vc escreve pq parece que é um recadinho para mim. Obrigada!😃

  4. Sensacional seu pensamento,,,concordo em grau ,numero e gênero.
    Sou mãe de dois (11 e 13),,,e acho que se tivesse deixado pra ser mãe hj,,,,aos 34,,,Acho que nem seria….Hj sou empresaria,trabalho que nem louca e claro a culpa chega,o vazio…
    Mas com certeza curti cada momento ,,mas muitos deles regado com tristezas,iinsuficiencia,culpa …enfim ..
    Bjo pra vc…Vc é demais!!!

  5. Obrigada por mais essas palavras, nunca aceitei a ideia de decidir não ter filhos, venho, aos poucos, reeducando-me nisto e em muitas outras coisas. Suas palavras ajudam nesse crescimento. Eu tenho fuma filha, aceito, mas ainda não compreendo a escolha. Acho que no fundo é meu próprio eu negando para não assumir que gostaria de estar do outro lado ….

  6. Eu acho que uma das grandes vantagens da modernidade foi justamente o ser humano poder escolher a forma de viver, sem estar atrelado ao modelo dominante das tradições vigentes.

    Livrar as pessoas da pressão social de ter filhos é ótimo. Nem todo mundo nasceu para ser mãe ou pai e isso não é um demérito. Eu optei por ter mas prefiro ver gente que optou por não ter filhos do que ver gente que não tem condições mentais/espirituais de criar um cacto com filhos no colo.

    Posso não ser a pessoa certa para julgar, mas elas existem.

  7. Cris, acho o tema super pertinente. Se puder ainda acrescentar, nessa mesma lógica, diria que foi exatamente o contrário do discurso padrão (do tipo não faço/fiz pq tenho filhos). De repente eu me percebi querendo fazer e realizar munga potência justamente por ser mãe. Como você disse, cada caso é um caso.
    Um beijo.
    Seguimos com a força das águas.
    Michelle Rossi

  8. Olá Cris.

    Gosto muito de seus posts e sempre recomendo seu Blog para minhas amigas e digo para ler os comentários, pois tem muitos depoimentos interessantes e opiniões diferentes.
    Infelizmente tem muitas pessoas que ainda julgam as decisões alheias e muitas pessoas ainda deixam se machucar pelas opiniões dos outros, infelizmente a gente só aprende com o passar dos anos, por este motivo já tento educar meus filhos sobre o poder de decidir sobre o que fazer e as consequências de suas decisões, precisamos saber o que queremos, para assim não ter tanta importância a opinião do outro.
    Agora Cris, eu que pensava sobre como criar filhos é dificil, agora com minha filha com quase 12 anos, vejo que as preocupações só estão começando! Etá idade difícil viu!!! Cada dia uma história.

    Um abraço.

    Decley

  9. Gostei muito do seu texto! Acho que ele serve tanto para quem não teve filhos, quanto para quem optou ter um filho só (meu caso). Incrível como tenho que explicar quase sempre minha decisão! Sou uma filha única muito bem resolvida, gosto mesmo de ser filha única sim, e sempre quis ter só um filho (no meu caso, uma filha, que hoje tem 9 anos). Sei bem o que é criar filho longe da ajuda dos familiares – só eu, meu marido e ela – e somos felizes assim, com nossos altos e baixos, como todo mundo, ora!

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