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Parece que o check-in no aeroporto não completa se a pessoa não compartilhar nas redes sociais. Parece que o aniversário de casamento não é comemorado se todos os amigos do Facebook não ficarem sabendo dessa data querida. Corte de cabelo e maquiagem então, nem se fale. Para quê pagar aquele fortuna se todas as pessoas que você já conheceu na vida não virem, não é mesmo?

Todo exagero é desequilíbrio. Acho que equilíbrio é um objetivo bem nobre e difícil de ser atingido na vida, mas parece ser sempre o caminho mais saudável.

Uma amiga (muito engraçada) um dia desses veio me falar que estava cansada de ser dona de casa e ia arrumar uma dessas profissões cool que existem por aí. Que ela pudesse aparecer no Instagram e todo mundo ia olhar e pensar: nossa, como ela é cool! É uma piada (dela) mas o humor quase sempre traz a verdade que estava descansando na sombra.

Fiquei pensando se de verdade ficar em uma cultura com esses excessos de imagem, com esse vício em olhar e ser visto não está provocando em muitos um desejo de fazer – seja lá o que for – desde que seja Instagramável. (ou outra rede social qualquer)

Já publiquei aqui um texto da Clarice Lispector que diz “Se eu fosse eu” e acho que seria legal se a gente parasse um pouquinho para pensar “se eu não fosse publicar, o que eu faria?” na festa, na hora de decidir qual rumo profissional tomar, na hora de escolher a viagem, etc. Talvez a gente conseguisse assim ter alguma clareza sobre o que existe de mais verdadeiro sobre nós mesmos, sobre nossas relações e sobre os caminhos que queremos para nossas vidas. Até porque, as grandes coisas que já aconteceram na humanidade até hoje, foram feitas dentro das garagens, ou em cadernos com lápis e papel, ou em pequenas salas, ou usando apenas duas mãos e uma inquietação, ou foram palavras ditas olhando nos olhos, ou faladas no ouvido. E pensando nesses cenários, me vêm uma ideia de maior humildade, resiliência  e contemplação sobre aquilo que está sendo feito. Parecem ingredientes melhores do que a ansiedade do like imediato. Aliás, vamos lembrar que existem muitos poucos likes que conseguem pagar o almoço. E até hoje, não existiu almoço de graça.

O raciocínio serve também as festinhas de aniversário que parecem produções dignas de uma competição (não anunciada) para ver qual mãe é a mais super. Se não tiver muita gente olhando, precisa de tanto? Ou dá para deixar o aniversariante se divertir um pouquinho e curtir os amigos com liberdade e de forma espontânea? São só perguntas.

A gente sabe que ninguém tem uma vida tão boa como parece no Instagram.

A verdade é que as outras pessoas gostarem de você é um bônus, você gostar de você é que é o grande prêmio.

Por Cris Leão

ps: A frase “A felicidade só é real se for compartilhada” sempre existiu (que eu me lembre). E expressa uma verdade. Não tem graça nenhuma ganhar um troféu se na platéia não tem ninguém que você conhece, ninguém querido para te dar um abraço. Até aí está tudo bem. As redes sociais acabaram levando isso a uma outra escala. Porque a vida de ninguém é feita de troféu o tempo todo. Então, trabalhar, estudar, planejar, cuidar da casa, olhar os filhos, por exemplo, parecem ser uma profunda perda de tempo. Porque não é “Instagramável”. A menos que vc faça dessas coisas algo “incrível”. E que canseira, né?

7 pensamentos em “A felicidade só é real se for compartilhada – nas redes sociais.

  1. Cris, essa onda de exposição seria só mais um modismo de nosso tempo ou seria uma nova maneira de se relacionar com o mundo que veio para ficar? Eu mesma já me expus bem.mais do que faço hoje, mas me pergunto por que me expus, o que me fez mudar… Concordo com contigo, mas ainda procurou respostas.

  2. Oi Helô, quis fazer esse texto mais leve e menos informativo. Com intuito de fazer cada um pensar um pouquinho mesmo. Ficar com as perguntas, sem respostas. Mas pelo que já estudei, o Narcisismo sempre existiu. E até certo ponto é importante. O outro é nosso espelho. Isso é normal. Acontece que agora como temos acesso ilimitado a essa exposição, ela parece tomar conta da vida de forma desproporcional. Como na bruxa da Branca de Neve, sabe? Vira uma obsessão. E assim querer agradar o outro passa a vir antes do próprio desejo. Aliás, passa a ser o desejo maior. Porque isso que o equilíbrio é tão importante. A série Black Mirror mostra isso de forma bem forte. Recomendo.

  3. Cris, vc organizou em palavras o que sinto quando vejo esta exposição desmedida das pessoas … parece que o mundo inteiro quer se mostrar ao outro … não há mais intimidade … ser intimista é ofensivo , se vc não posta o que come , veste , onde anda , o que faz , vc não é cool , vc tem que se vender na rede social para ser aceito. Os limites são tênues ou passamos mesmo do ponto ?

  4. Simples assim….As vezes a sensação que eu tenho é que as pessoas hj em dia só se preocupam qual será o melhor lugar e o melhor angulo….para tirar fotos e aparecer, claro!!! Ta! e o resto? Ah! esse também tiramos fotos e depois postamos!!!

  5. Cris, conheci seu blog há pouco e venho lendo seus textos na medida do possível.
    Que incrível! É gratificante encontrar pessoas que ainda param e reflitam sobre o que vem se passando no mundo. Muito reflexivo seu texto!!!
    Parabéns pela iniciativa!

  6. Tenho gêmeos, depois de 2 anos de muito tratamento, então sinto que as pessoas esperam que eu os trate como troféus, e me cobram fotos e eventos que eu não faço e portanto não posto. A tal “Coroação do Imperador” em que se transformaram os aniversários de 1 ano foi tão antecipadamente cobrada (“ai, não vou poder ir no batizado, mas não vou perder o aniversário de 1 ano por nada!”) que gerou uma incompreensão generalizada quando as pessoas descobriram que não ia ter. As pessoas começaram a me cobrar quando seria a festinha “para se organizarem para não perder” e eu respondia “ah, não vou fazer nada, um bolinho em casa só para eles terem uma foto mesmo”, e eu sentia que as pessoas não acreditavam. Bom, chegou o tempo do 2º aniversário, e desta vez a cobrança foi maior “ah, já que não teve a festinha de 1 ano, agora vai ter uma super, né”? Bom, não fiz de novo, e de novo as pessoas ficam incrédulas. Fico tranquila pois sou super bem-resolvida com isso: Eles não entendem nada, eu tenho preguiça, e estou apertada de dinheiro. Quando começarem a entender, ou seja, quando fizer diferença para eles (bom, acho que não escapo do próximo ano), daí sim, vou fazer, mas nada de “Coroação do Imperador”. Mas daí já penso “não posso fazer nada muito chinfrim também, afinal alguém vai acabar postando alguma foto… Não é um absurdo isso? sou bem resolvido com a cobrança, não me sinto obrigada a fazer. Mas fico encanada de não fazer nada muito chinfrim, pq já penso na exposição. Não ligo para o julgamento sobre a decisão de não fazer, mas penso para o julgamento sobre a imagem da festinha. Que só deve acontecer daqui a 10 meses! Absurdo…

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