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Quando você para de trabalhar, sai do seu plano, do seu trilho.

Não ajuda nada, o fato de viver em um mundo (ocidental, acho eu) que julga tudo e todos em menos de 3 segundos. – O que você faz? – Estou em casa cuidando das crianças. O fulano já pensa, que folgada. O fulano não sabe que ficar sem dormir, que se sujar de cocô, xixi, vômito, não descansar nem no final de semana – tudo isso é bem diferente de ser folgada.

Aliás, você até lembra das quantas vezes foi folgada enquanto estava trabalhando. Bom tempos aqueles que eu trabalhava e descansava. Sem contar os almoços. Os fins de semana sem trabalho. As férias remuneradas. Agora, que férias? Que remuneradas?

Quando parei de trabalhar para ficar com as crianças, eu perdi a carruagem.

Eu perdi a carruagem que me levaria pelo caminho da trilha marcada. Agora se eu começo o mestrado (de psicologia) e falo que sou publicitária, já me julgam inteira. Porque o normal é seguir a trilha. Ninguém entende, nem tem paciência de entender, a quantidade de coisas que uma pessoa pode fazer além da profissão que tem. Sou publicitária, na verdade redatora, fiz vários cursos de escrita, adoro escrever, estudei antroposofia durante 4 anos, fiz uma formação de docente em um museu de arte em Miami, já morei em Lisboa e Nova York também, faço trabalho voluntário em um abrigo de crianças e adolescentes em risco. Sou mãe de dois. Você acha que alguém tem paciência para tudo isso? Claro que não. Sou publicitária e isso me rende todo o clichê e só.

Eu perdi a carruagem então em vários momentos, o caminho foi fazer um curso. Mudei para São Paulo ano passado no final de Janeiro e em Abril comecei a Formação em Psicanálise. Eu falo isso com alguém e se essa pessoa for uma das que já leu meio texto do Freud, tem um monte de opinião para dar. Se for críticas então, a lista é maior. Então você lembra que podia estar só trabalhando. Ganhando seu dinheiro, indo na academia, mas não, está estudando, está buscando uma nova profissão e agora precisa se explicar um pouco.

Eu perdi a carruagem e fui em uma entrevista de trabalho no final do ano passado em uma agência que gostaria mesmo de trabalhar. Mas o tempo voa e a pessoa que ficaria acima de mim, pasmem, foi minha aluna.

Eu perdi a carruagem e é bem difícil (até hoje) não estar mais indo para onde eu estava indo. Porque eu queria, de verdade, ir para lá.

Eu perdi a carruagem mas comecei a dar aulas em 2009 e descobri uma emoção que não conhecia. Precisei me reinventar como tradutora, fiz muitos trabalhos, ganhei dinheiro e consegui ficar perto dos meus filhos como queria.

Eu perdi a carruagem e precisei entender que a vida não é uma corrida. Muito menos uma corrida de carruagem. A vida é feita de pés no chão, de quedas, de barrancos, de tropeços.

Eu perdi a carruagem e não é fácil. Tem horas que morro de inveja de quem teve um plano com 19 anos de idade e ainda está nele. Essa pessoa seria eu se não tivesse tido filhos. Com certeza. Dá uma sensação de descanso só de pensar que tem gente que nunca precisou mudar de plano.

Quando você perde a carruagem, precisa se reinventar. E dá um trabalho danado. Seu ego reclama. Fala que você está fazendo tudo errado. Porque é claro que você começa a fazer coisas que não sabe. Eu quando decidi ser uma mãe Waldorf e encarnar o personagem dona de casa feliz que cozinha, acompanha os filhos, educa, limita o uso de eletrônicos a zero e faz trabalhos manuais com as crianças, precisei ficar muito humilde. Porque o bolo queimava, a comida não prestava, a agulha furava (ou quebrava). Hoje que essa fase passou, olho para trás com tanta alegria de ter vivido isso. Que privilégio! Então penso em todos os momentos que eu me sentia mal por estar dando meu melhor e conseguindo um resultado bem mais ou menos e penso que se fosse viver de novo, faria tudo igual. Só não me cobraria tanto.

Minha amiga, musa, arte terapeuta, artista fala sempre: pega o que a vida te dá e faz a melhor comida que você conseguir com isso.

Quando eu perdi a carruagem, eu coloquei os pés no chão.

O ego me diz o tempo todo: “Nossa, impressionante a quantidade de coisa boa que você abriu mão. Era bom ter uma carreira agora que as crianças estão maiores, né? Pois é, mas você não tem.”

Dói muito ter o pé no chão. Tem pedra, tem espinho, tem sujeira. Mas sabe o que me parece? Parece mais real. Parece que tem mais a ver com uma experiência de vida plena. Aquela carruagem correndo podia trombar em algum lugar também. Não vamos ser tão otimistas com as escolhas que não fizemos. Elas podiam sim, dar muito errado.

Por isso, vou pegar no chão o que a vida está me dando. E fazer com isso o melhor que puder fazer.

Se você esperava um texto cheio de motivos para não parar de trabalhar. Há! Não achou.

Essa foi a escolha e esse é o preço. Agora, não dá para ser tão pessimista a ponto de achar que nada, nadinha mesmo, vai dar certo de agora para frente, né? (nessa hora você entra e fala, sim, vai dar tudo certo)

O que quero dividir com esse texto é:

Não espere aplausos, também não espere que o mundo vá esperar seu (s) filho (s) crescer (em). O mundo está girando bem rápido enquanto isso. Como diz Saramago: “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo.”

Vamos precisar pagar um preço por essa escolha. Vamos perder – e ganhar – muito.

E para o caso de ninguém mais te falar isso: quero que saiba que você não está sozinha.

Pessoas queridas que acompanham esse blog e me fazem companhia, vocês fazem uma diferença muito grande.

Cris Leão

Leia também:

O que eu ganhei parando de trabalhar para ficar com meus filhos.

 

39 pensamentos em “O que eu perdi quando parei de trabalhar para ficar com meus filhos.

  1. Gostei muito do seu texto e me identifiquei demais.

    Obrigada por compartilhar seus pensamentos e sentimentos.

    Grande carinho. Adriana

    >

  2. Há algum tempo acompanho teu blog. Não sei como chequei até aqui, mas com certeza foi procurando me encontrar. E nesse meio tempo um texto me marcou muito. Desista. É esse texto. Tenho impresso, o papel dobrado e já gasto, no meu caderno. Já enviei para várias pessoas. O texto de hoje tb carregarei. Estou em um momento crucial e essas palavras me ajudam muuuito a refletir, a serenar o coração. Tenho tudo de maravilhoso, 3 filhotes lindos, uma empresa lucrativa e que me é prazeirosa, mas a vida me leva a sair do trilho. E eu não queria. O planejado era seguir no trilho. A vida me deu um trilho, mas tb me deu algo maior, minha família, que tem me clamado. A decisão é minha, mas obrigada por me ajudar nessa caminhada. Escreva sempre!

    • Que comentário mais delicioso, Stella! Obrigada. Eu escrevo esses textos também para mim, sabia? Muitos deles fazem parte do meu processo, não da minha clareza. É muito complicado ser mãe e também ter a necessidade de trabalhar, né? Porque de fato são duas coisas que ocupam muito tempo. A matemática não fecha. Esse texto Desista é um dos que eu mais gosto também. Eu também leio ele sempre. Um grande abraço!

      • Realmente, escrever é um processo de autoconhecimento! Abraço forte ; )

  3. Mas você escreve pra encher a vida de esperanças, entendimento e poesia. Meu coração fica grande com cada palavra sua! Obrigada!

  4. Cris.. perder o trilho e se encontrar por inteira…tive uma gravidez inesperada e uma separação que aconteceu há 2 semanas numa cidade sem apoio quase algum…acredito na Lei do Karma e acredito no resgate que temos com tudo e com todos que nos cerca… hoje, com tudo que leio,percebo e me identifico tudo é atraído por nós mesmos em alguma circunstância ou momento…não seremos as ultimas a perder o trilho mas poderemos ser as únicas a nos encontrar por inteiro porque nada do que passamos com nossos filhos,seja ruim ou não, ou em vão – é e sempre será Único e Eterno.!Namastê

  5. Vanessa, belas e fortes palavras as tuas tb! “Não seremos as ultimas a perder o trilho mas poderemos ser as únicas a nos encontrar por inteiro”. A forma como olhamos a vida faz toda a diferença! Obrigada

  6. Eis aí minha história! Que emocionante!!! Passei por essa fase. Deixei minha”vida” de lado e fui viver para meus filhos e meu marido. Não me arrependo de jeito nenhum. Faria denovo e também não me cobraria demais.Meu filho mais velho está com 9 anos. E a poucos dias responde numa tarefa, que perguntava sobre um texto que falava de uma mãe que largava os filhos em casa com a babá para ” continuar seu plano de carreira”, meu filho disse que não concordava com isso. Perguntei por que, ele respondeu “porque mãe tem que cuidar dos filhos igual você ” . Fiquei tão emocionada. Fiquei tão feliz! Poxa minha luta não foi em vão. E nunca será!!! Obrigada por compartilhar seus profundos textos, me vejo sempre neles.

  7. Bom saber que muitas tentaram se achar depois que os filhos vieram, achei que só eu havia passado por esse conflito.

  8. Cris, você entende e vive o que nós somos!!! Esse texto deixa o coração mais feliz e dar a certeza de que foi preciso sair do trilho….Muito obrigada!!! Paula, dona de casa e mãe de 1 + gêmeos 😉 😘😘😘

  9. Vc me representa! Esse caminhar de pés nos chãos é lindo e estou completamente inserida onde eu deveria estar! Muito bom esse sentimento do turbilhão

  10. Eu acho mesmo é que você deveria subir em uma carruagem que te transformasse em escritora. Eu iria adorar um livro seu! ☺️☺️ Bjs

  11. Você é quem faz uma diferença enorme na nossa vida!!! Eu também iria amar um livro seu…pode ser até de receita de bolo queimado….

  12. Muito concreto o seu texto e muito sincero o seu sentimento. Deixei de trabalhar há 3 anos para cuidar da minha filha. Mesmo estando nos planos , está sendo uma grande aventura! Muitas coisas para aprender sobre minha filha, sobre mim , sobre o ser humano. Fui ” rotulada” como folgada e que não gosta de trabalhar. Mesmo, agora, procurando emprego, esse rótulo persiste. Parece que agora virou uma característica minha, para sempre! Uma pena, pois o que penso de mim e exatamente o contrário. Fui forte e otimista ao deixar o trabalho para educar minha filha. Fui e continuo sendo uma guerreira amorosa e paciente, na tarefa nada fácil de dedicação total à família. Nunca aprendi tanto sobre tudo! Sobre a fragilidade da vida, sobre motivação para viver. Aprendi que podem me rotular do que quiserem; e posso até ficar chateada por um tempo…mas o que interessa é o que está dentro de mim e e muito maior e verdadeiro . O que cura e o que me faz ser feliz e ver que tudo valeu a pena. Repetiria infinitamente o mesmo inesperado plano porque tenho orgulho de mim e principalmente da criação que pude dar para minha amada filha – que é tudo para mim! Agora, um pouco mais consciente desse turbilhão de emoções, espero conseguir continuar o caminho com mais alegria e sabedoria. Só tenho a agradecer tudo que Deus me proporcionou ! E tentar não esquecer sobre o perdão , pois todos erram. E importante : perdoar a si mesmo é como deixar para trás uma bagagem pesada, cheia de coisas, mas que você não precisa levar adiante. Esse peso só dificulta a caminhada para frente . Siga em frente, de peito aberto, cabeça pra cima e maos dadas com seus filhos !

  13. Que possamos ter sempre aqui pra ler, compreender, refletir e respirar fundo! Não estou mais no trilho, tem um bom tempo já.. espero ter paciência para o tempo.. Obrigada, Cris.

  14. Mais um texto maravilhoso! O meu único plano desde adolescente era ser livre, por ser viciada na autonomia das minhas escolhas, e desnecessidade de justificativas. Hoje, sou mãe de um filho de 3 anos. Não deixei de trabalhar fora, mas experimento o cansaço diário da rotina, e muitas vezes me pego reflexiva, na busca pelo equilíbrio da auto cobrança pela educação perfeita. E o árduo trabalho de manter meu pequeno longe da tecnologia. Ler seus textos é renovar energias. Obrigada!

  15. Nossa, é tão confortante sabet q não estou sozinha.
    Sinto que minha carruagem ainda está desgovernada mas, ler textos como este, de mulheres que compartilham conosco a realidade me ajuda um tanto!!!!
    Obrigada Cris Leão, por nos mostrar através de sua experiência uma leitura clara e sincera do que estamos vivendo e olha, te falo que abre novas óticas para quem está meio perdido como eu.😘

  16. Sensacional esse texto!..exatamente o que estou vivendo!e claro me punindo pela meia escolha que fiz!
    Digo meio escolha pois fui demitida do caminho ou melhor da carruagem que havia escolhido guiar!
    Sou engenheira civil (todos do meu meio acham top eu ser engenheira!!) mas após ser mãe era uma eng infeliz como mãe, por não estar curtindo nada nada do meu filho!!
    Dai crise (costumo dizer que Deus) decidiu por mim o que eu não tinha coragem de fazer..fui demitida!
    E me vi a escolher um novo trilho, onde nesta nova carruagem eu possa ter tempo para meu filho!Optei pelo ramo da educação, estou fazendo segunda facu, masssssssss pensando será que vai dar certo??e claro com uma sensação de frustação por não ser mais a eng!
    O que os outros dizerm?até mesmo os meus futuros colegas de trabalho onde estagio?..dizem que sou louca por escolher ser professora e não engenheira!Uns tem até ousadia de dizer que vou me arrepender!..tento não dar ouvidos, mas o ego…ouve e fica la remuendo!
    Mas sigo no novo triho, cheio de obstaculos e escuro…mas com a fé de que vai dar certo apesar do medo e insegurança!
    Obrigada pelo texto!sensacional!vc é top!!

  17. Cris, eu também perdi a carroagem rs, mas foi por um motivo bem diferente do seu.Eu casei com um psicopata e se foram 10 anos nessa história de sofrimento, que teve fim, pois Deus existe sim ! E meu planos de ter filhos aos vinte e poucos , foi realizado com 39 anos no meu segundo casamento,hj penso muitas coisas sobre isso, mas penso principalmente que existem pessoas nessa vida que simplesmente perdem a carroagem, e é só isso, a vida sempre encontra jeitos de ser vida e ser vivida, num tempo ou noutro.Hoje minha filha tem 3 anos e eu faço 43, sou grata à Deus por tudo, te entendo perfeitamente,Texto incrível, de uma sensibilidade incrível, parabéns flor ! Aqui nesse espaço criado por vc, sempre encontro novos e firmes significados para a vida, bjuu

  18. Também estou tentando me reencontrar. Tenho dois filhos lindos e fiz a opção de cuidar da minha família há 6 anos. Não consigo me ver trabalhando fora, mas também não tenho idéias e nem coragem para iniciar algo por conta própria. Estou num grande dilema e não consigo tomar uma atitude.

    • É complicado mesmo, Simone. Se eu puder dar uma dica, dê o primeiro passo. Seja lá o que for. Mas dê o primeiro passo. Ficar só pensando não resolve nada, congela e é muito cansativo. Boa sorte!

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