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Ouvi uma mulher falar: filho não dá trabalho, é só terceirizar.

Semana passada, estava participando de um seminário. Surgiram três histórias de crianças que precisam se auto medicar, auto regular, auto educar. Ou seja, são responsáveis por si mesmas. Um dos casos relatava uma criança que depois de fazer uma birra no carro – dizendo que queria sair – o pai de fato para o carro, abre a porta, ela desce e o pai vai embora. Voltando para buscá-la – em uma região perigosa – uma hora depois. *

Uma das psicanalistas disse: “É o que eu digo, as crianças do abrigo estão melhores do que muitas crianças da classe média. ” Outra comentou: “Mas as crianças da classe média só não estão no abrigo porque estão em escola com horário integral, ou tem algum funcionário da casa responsável por elas o dia todo.”

Não vou entrar em detalhes dos casos que foram apresentados, só quero dizer que estamos errando a mão em uma proporção bem grande.

Não dá para achar que é normal tantas crianças viverem com ausência de uma figura materna ou/e paterna. Ou seja, elas não têm o básico.

É claro que não existe vida perfeita. É claro que os pais não podem e nem devem parar tudo na vida para ficar lambendo a cria até que eles façam 30 anos de idade. Mas as crianças precisam ter um adulto (pelo menos) em que possam confiar. Um adulto que esteja ali, presente de verdade e faça deles a prioridade.

Não dá para querer que virem adultos emancipados aos 10 anos de idade. Aliás, enquanto as crianças são apressadas para serem independentes, os adultos ficam cada vez mais infantilizados. Não é?

Conheço pessoas que trabalham em um importante e grande escola de São Paulo. Elas estão apavoradas com a demanda que estão recebendo das crianças e das famílias. Uma delas, na área de educação há vários anos, me disse que antes a família tinha uma parceria grande com a escola. Agora a família só cobra. E cobra muito. Cobra que a escola resolvam tudo: saúde, emocional, psicológico, motor, alimentação etc. Perto do meu prédio tem uma escolinha para crianças de 2 a 5 anos. Um dia a professora me contou que uma mãe que deixa o filho de 8 às 18h (fazem todas as refeições na escola) reclamou porque eles não dão banho: “Chego em casa e ainda tenho que dar banho nele!”

Um ponto importante sobre a palavra terceirização: esse termo só faz sentido onde existe o primeiro e o segundo. Se quem educa, quem coloca limite, quem alimenta, quem compartilha, quem conversa sobre sonhos, sobre medos, sobre a rotina, sobre as provas, sobre os colegas é apenas 1 pessoa, ela não pode ser chamada de terceira. Assim como as crianças que vivem em abrigo, o que essas crianças mais sentem falta é de ter pai e mãe.

O papel do pai e da mãe não é brincar, comprar presentes, fazer feliz, dar experiências incríveis. Essa é a parte divertida onde o adulto aproveita para voltar a ser criança. Educar é outra coisa. Como diz Rubem Alves: “Educar é mostrar a vida a quem ainda não a viu.”

Por isso é cobrar demais que uma criança entenda a importância de um medicamento. Ou até que se lembre (sozinha) dos horários de tomar. Também é cobrar demais que as crianças saibam como devem tratar os outros. Saibam o que fazer com os sentimentos que mais incomodam. Saibam que tipo de comida devem ou não comer. Brincar é realmente a única parte que eles podem fazer sozinhos.

Mas esse não é um texto de conselho, ou puxão de orelha. A ideia é ser lembrete sobre o que é realmente importante. Igual a gente está esquecendo de beber água suficiente. Igual está todo mundo com falta de Vitamina D porque paramos de tomar sol. Igual andar descalço faz muito bem e você nunca anda. Talvez estamos esquecendo de coisas por demais importantes. (aliás, são todos elementos naturais: água, fogo, terra só nos sobrou o ar e vai ver é por isso estamos vivendo tão perdidos – tão aéreos.)

Podemos trocar a palavra culpa por responsabilidade.

Criar e educar um ser humano não aparece na mídia na mesma proporção que aparece um corpo sarado. Não dá cartão de crédito Platinum, não te coloca em sessão VIP, não te leva no palco para receber um troféu. Então estou aqui para tentar lembrar que esse trabalho é o mais importante. Cada um vai conseguir fazer da maneira que for possível. E cada criança também vai assimilar uma parte diferente dessa interação. É um trabalho sem garantias e sem segurança. Mas é o mais importante. Mais do que proteger os filhos para que eles sobrevivam (o que já é bastante trabalho, vamos combinar), é preciso ajudá-los a serem pessoas legais. Com valores e com a segurança que só tem quem um dia se sentiu amado.

O acaso pode levar uma criança bem educada a se tornar uma peste. Não estamos livres do poder do acaso, mas também não podemos colocar todas as nossas fichas nele. E num devaneio otimista, achar que tudo vai dar muito certo, sem precisar trabalhar para isso.

“Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo. O essencial faz a vida valer a pena.” Rubem Alves

Por Cris Leão

* Este exemplo é o relato da personagem “Mickey” no seriado “Love”. Ou seja, não se trata aqui de vida real, mas um exemplo que ilustra o caso de negligência parental. 

15 pensamentos em “O que você terceiriza?

  1. Também não podemos ser radicais com pais que deixam seus filhos no período integral da escola. Eu por exemplo não tenho com quem deixar a minha filha antes das 16h, então, ela fica no integral. É bem ruim para mim e para ela, mas por enquanto terá de ser assim. Vamos que vamos!!!
    Beijos

    • Os meus também ficam, Gabriela. Desde o ano passado. (de 7:30 às 15:30) Mas gostei bastante da reflexão porque a preguiça é o maior e mais potente pecado capital. (na minha opinião) Então é importante lembrar que se os filhos ficam conosco poucas horas por dia, nessas horas precisamos ser os educadores. Não colegas, não amigos, não animadores, não ausentes (mesmo estando perto). Somos nós os responsáveis por mostrar para eles na vida. A responsabilidade da escola é outra. Beijos!

  2. Sou professora e sinto que a escola poderia fazer uma maior integração com os pais. Não chamá-los somente pra mostrar as notas, mas também pra ver o desenvolvimento individual de seus filhos. Conheço muitos responsáveis que não têm tempo para ir em reuniões de pais ou parecem não querer ir porque o assunto não lhes interessa. Porque é sempre a mesma coisa. Talvez seja preciso educar os responsáveis ou a (o) responsável a serem melhores, a “terceirizar” o menos possível. Não existe um modelo de aluno perfeito, logo também existiram vários tipos de responsáveis. A aprendizagem é contínua. Muitos cuidam dos filhos de seus filhos e já são idosos, outros tiveram filhos enquanto eram adolescentes e ainda estão amadurecendo. Acho que todos estamos. Então é preciso pensar como tudo está sempre em movimento e a escola pode ajudar na educação dos próprios responsáveis, ao invés de só receber cobranças ou críticas, e às vezes nem isso. A responsabilidade pela criança é do responsável em primeiro lugar, mas se ele precisar de ajuda, a quem recorrerá? É preciso ter alguém que lhe dê a mão.

  3. Excelente texto que merece ser compartilhado e deve ser lido por muitos! Parece louco constatar que alguns pais precisam ler (e receber puxões de orelha) para se conscientizar sobre a importância fundamental na vida dos filhos e das crianças.
    Entendo que muitos pais precisam trabalhar – assim como eu e meu marido precisamos e temos com a escola uma parceira incrível – a mesma que sempre foi há tempos e assim deve permanecer.
    Todo o tempo que estamos com nossos filhos, devemos ESTAR com os nossos filhos sendo seus PAIS!
    Há um tempinho atrás vi uma propaganda na internet de um bercinho que balançava sozinho o bebê, substituindo a mãe/pai que deveria estar ali velando o seu soninho e eu fiquei muito triste, porque os filhos e as crianças comumente nos proporcionam momentos tão deliciosos, como esse por exemplo, e alguns simplesmente não desfrutam…

  4. Obrigada pelo texto, vou repassar.
    Excelente reflexão! As pessoas têm filhos, mas não querem ter trabalho.
    Sim , filho dá trabalho. Mas é o trabalho mais prazeroso que existe e com um retorno inestimável!

  5. Cris, que texto MARAVILHOSO!!!! Não poderia concordar mais.

    Quantas vezes ouvi “pais e mães” perguntarem para os filhos de 4, 5, 6 anos o que querem almoçar, jantar….oi?! Essa responsabilidade é dos adultos, não dos nossos pequeninos.

    Belíssimas linhas.

    Beijo grandão,

    Amanda

  6. Aplausos de PÉ para o seu texto Cris! É triiiste demais para uma mãe que CUIDA dos seus filhos, encontrar nos parques apenas as babás das crianças que ali estão… infelizmente eu sempre fui amiga apenas das babás (sem desmerecê-las), pois nunca conheci os pais das respectivas crianças…

  7. Gostei muito da matéria na realidade quem não quer ter trabalho não deveria ter filhos, porem perde muito pois são bênçãos em nossas vidas para a nossa evolução como seres humanos. Achamos que ensinamos, mas aprendemos! Nossos filhos são reflexo de nós, se não gosta de algo que ele não faz olhe para o seu interior e verá. Se optamos por tê-los, pois a escolha foi nossa, temos o dever de educá-los, respeitá-los e amá-los muito!!! Vejo hoje crianças tristes, carentes e doentes por falta de atenção. Sempre trabalhei precisei da escola e baba e hoje meus filhos estao com 10 e 7 anos. Conversamos e brincamos muito e fazemos muita coisa juntos, como cozinhar, tarefa da casa temos que ter qualidade quando estamos com eles.

  8. Fiquei muito feliz com seu texto, educar dá trabalho sim, e quem não esta disposto a ter trabalho não deveria ter filhos não é mesmo? Sempre precisei colocar minha filha na escola em período integral, mas isso não me impediu de estar perto, acompanhar, dar banho, alimentá-la, vejo que isso é responsabilidade e amor. E quanto aprendi e aprendo ao lado dela, sou um ser humano muito melhor. Mil beijos

  9. Você e essa sua precisão cirúrgica! Outro texto grandioso: adultos infantilizados criando crianças tratadas como adultos. Na mosca.

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