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Vivemos em um momento onde questionamos tudo. O papel do homem, o papel da mulher, o papel do trabalho, o papel da escola, o papel. Ficamos presos a angústia, por não encontrar respostas. Pelo menos, não respostas com selo de garantia.

Segundo Alfredo Jerusalinsky, vivemos uma fase de neurose de destino. (Ou angústia de destino.) É sobre este assunto que escrevi meu trabalho do curso de psicanálise desse semestre. O que segue é um resumo/adaptação: (Espero que faça sentido.)

Na época contemporânea assiste-se a uma decadência dos grandes referenciais que cimentavam o mundo social. Se antigamente as escolhas eram norteadas por códigos sólidos ofertados pela tradição, pela autoridade ou pela religião, hoje se observa um desmoronamento dessas trilhas que conferiam coesão à sociedade. O homem se vê então sem uma grade de leitura que lhe permita decifrar os acontecimentos de seu mundo. Bauman (2001) chama de “modernidade líquida” esse tempo em que qualquer convicção assumida pelo sujeito torna-se transitória, frágil, prestes a se volatilizar e dar lugar a outra.

Do ponto de vista da Psicanálise, esse momento marca a queda da Função Paterna.

Uma nota importante: o termo “Função paterna” se refere a função. Exercida por esse terceiro elemento que não é Mãe e filho. Ou seja, pode ser o avô, o tio, a vizinha, o trabalho da mãe, mas precisa existir. Em outras palavras, essa função é o não, o limite, aquilo que dá uma borda e, ao mesmo tempo, uma certa frustração – tão necessária para lidar com a vida.

Esta Função Paterna tem papel estruturador na vida e no pensamento das crianças pequenas “na medida em que toma a forma de regras e normas que introduzem a negativa para a mãe e filho” (Jerusalinsky, 2010). (A mãe por estar imersa nos cuidados e na conexão com o bebê, precisa de um terceiro elemento para fazer essa separação – necessária.)

Queda da Função Paterna Dentro de Casa

A mulher lutando por um lugar de igualdade em uma sociedade machista, costuma fazer ao companheiro uma exigência de parceria que muitas vezes não contempla a diferença. Ela quer que ele faça tudo o que ela faz. Enquanto comemoram a divisão (algumas vezes por igual) de tarefas, não percebem que a função paterna – da maneira que conhecíamos na cultura com sua função de castração – saiu de cena. Pais e mães (ou mães e vizinhas, mães e suas mães, não importa) alimentam, trocam fraldas, brincam, acariciam. E para se constituírem felizes nessa invenção, acreditam que a missão é promover a felicidade do filho. Assim função materna e paterna parecem se encontrar no lugar da função “fazer a criança feliz”. Basta reparar nas casas para observar que os brinquedos espalhados por todos os lados parecem marcar quem é o dono daquele território. O livro “Déspotas Mirins” mostra que o século XX fez da criança o tirano da família instituindo um novo regime social que a autora chama de “pedocracia”.

Sobre a ótica do filho em relação a ação do pai, é interessante considerar uma pesquisa feita por Lessa e colaboradores (2005) quanto à percepção do adolescente a respeito do pai no exercício da Função Paterna como um ancoradouro de valores morais e éticos.  Os autores chegaram a conclusão de que  “há evidências de que a Função Paterna está sendo exercida apenas em parte pelos pais (homens), pelo menos no que se refere à estruturação de normas e valores sociais para o adolescente”. A pesquisa aponta ainda três principais fatores como causadores desta parcialidade: Primeiro, o fato de os pais não terem tempo suficiente para os filhos. Segundo, a manutenção de um contato superficial ou mediano com eles. Terceiro, os indícios de uma forte atuação da mãe neste processo de estruturação de valores morais e éticos.  Os resultados mostram que nossos adolescentes têm percebido o distanciamento do homem/pai no exercício da função paterna. Há que se considerar também um certo esvaziamento do conteúdo a ser transmitido ao apontar a força com que a mãe tem se apresentado no processo de estruturação.  Tais indicativos parecem apenas ampliar o coro no contexto das mudanças sociais que referi acima.

Queda da Função Paterna no Estado

Na sociedade, o que temos é a queda da função paterna pelo estado. Este agora se preocupa exclusivamente com questões financeiras deixando a lei, o correto e o bem estar da população totalmente à deriva. Curioso é perceber que esta parece também ter se tornado a única função dos pais dentro da família – quando não optam por ficar completamente fora dela. Segundo o Conselho Nacional de Justiça, com base no Censo Escolar de 2011, no Brasil 5,5 milhões de crianças não têm o nome do pai registrado em documento.

Nesse contexto, segundo Alfredo Jerusalinsky vivemos uma fase de Neurose de Destino. Basta pensar na fase da vida de maior intensidade – a adolescência – para verificar que ser adolescente nesse mundo atual com a falta da função paterna (em casa e no Estado) é muito mais angustiante. Sem regras e estrutura em casa, sem regras e estruturas funcionais na sociedade, é fácil cair na sensação de que o futuro é assustador. Segundo Jerusalinsky, o pior da angústia de destino é sentir que o pessimismo é o único pensamento possível. O sujeito não consegue antecipar o que lhe espera na vida então surge a compulsão de acreditar que a maior tragédia é o que vai acontecer. Precisamos de um sentido fixo = função paterna.

Assim, o lugar vazio do Pai não é sem consequências: nos casos mais extremos, ele pode gerar tanto o apelo desesperado quanto a desistência resignada.

Toda cultura é permeada de expressões, ditados, frases feitas, músicas que parecem expressar o que sentimos e não havíamos nomeado. “Aonde quer que eu vá, descubro que um poeta esteve lá antes de mim.” – Freud

Fazendo esse trabalho, foi impossível não fazer uma relação entre a angústia de destino e a música cantada por uma menina de 12 anos (Grace Vanderwaal) e que provocou uma enorme começão gerando 58 milhões de visualizações no YouTube. Ela foi vencedora do America´s Got Talent de 2016.

A letra da música é essa: (minha tradução)

Eu não sei o meu nome

Eu não jogo de acordo com as regras

Então você diz que eu estou só tentando

Apenas tentando

Você me perguntou porque eu cortei meu cabelo

E mudei completamente

… 

Eu estou perdida tentando me encontrar

Em um oceano de pessoas

Por favor não me pergunte nada

Eu não tenho nenhuma resposta válida

Oh, eu só vou dizer

 …

Que eu não sei o meu nome

Eu não jogo de acordo com as regras

Então você diz que eu estou tentando

Apenas tentando

 …

Eu agora sei meu nome!

Eu não jogo de acordo com as regras

Então você diz que eu não estou tentando

Mas eu estou tentanto

Encontrar o meu caminho.

Estamos, é claro, inseridos em uma determinada cultura e momento histórico. Cada momento com sua realidade. O nosso parece ser este. Isso parece explicar porque países como Estados Unidos e Inglaterra optam pela extrema direita. Isso parece também explicar o porque de tantos fanatismos (não só na política). Porque nossa psique está cansada de tantas perguntas e tanta angústia. O psicanalista Christopher Bollas diz que a paranóia simplifica a vida. Ou seja, acreditar que “aqueles são maus, estes são bons” (por exemplo) te livra da complexidade. Uma pena que ao mesmo tempo vai ao encontro do ódio. E ele gera o prazer da simplicidade.

Se é complicado pensar em alterar toda a situação cultural, por outro lado parece mais possível, mas não menos importante, alterar a realidade dentro de nossas próprias casas.

Vamos tentar?

Por Cris Leão

 

 

Ps: Para quem se interessar sobre o assunto, segue a lista de textos que estudei.

Referências:

ARAÚJO, S. M. B. Função Paterna e o exercício da Justiça – Winnicott e a Lei.  2005. Artigo.

BAUMAN, Z. (2001) Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar.

BLEICHMAR, H (1984). Introdução ao Estudo das Perversões. Ed. Artes Médicas

JERUSALINSKY, A.N. Riscos calculados: Indicadores Clínicos de Risco de Desenvolvimento infantil.  Revista  Mente & Cerebro – Especial: Doenças do Cérebro nº 2, São Paulo. Ed. Duetto, 2010.

LESSA, B., QUEIROZ, M.C. & ARAÚJO, S.M.B. Função paterna e estruturação de valores na adolescência. Disponível em: <http://www.publicacoesacademicas.uniceub.br>

ROCHA, S. P. V. (2010) Da morte de Deus à inexistência do Outro: reflexões sobre o niilismo contemporâneo. Ethica (Rio de Janeiro), v.17, n.2, p.190-199.

WINNICOTT, D.W. O ambiente e os processos de Maturação – estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Tradução Irineo Constantino Schuch Ortiz. Porto Alegre. Ed Artmed, 1983.

8 pensamentos em “Sobre a angústia e a falta que faz um pai.

  1. Eu acho que esse problema com a função paterna se liga muito às mudanças da própria percepção de masculinidade. Certas características que eram consideradas qualidades se tornaram problemas à medida que a sociedade vai mudando. Anos atrás li um ótimo artigo discutindo sobre essa mudança http://www.artofmanliness.com/2014/04/23/why-are-we-so-conflicted-about-manhood-in-the-modern-age/

    Talvez estejamos observando um refluxo ou, espero, um refinamento das relações de gênero. Indo além da luta por igualdade, para algo que considere as diferenças sem cair na armadilha da hierarquia.

  2. Pingback: A Série o Iceberg: 13 Reasons Why retratando 4 problemas estruturais da Educação atual | Reminiscências

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