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De vez em quando alguém me escreve perguntando como foi voltar a morar no Brasil com as crianças. Como foi a adaptação, escola, português, essas coisas. Fico sem saber o que responder porque acho que cada situação é tão única, tão específica, que não sei como minha experiência pode ajudar nesse caso.

No entanto, pela repetição da pergunta, decidi escrever este post para responder quem tem essa dúvida e assim fazer um texto só, mas com a história completa. (não ficou completo, mas como ficou bem grande, decidi parar.)

Minha volta para o Brasil foi muito tranquila. Agora que já passou. (hahahaha) Eu não queria sair de Miami porque adaptar as crianças na escola lá, foi um trabalho duro de 8 meses. O J. chorava sem parar. Eles não falavam inglês. E isso pode ser muito difícil para algumas crianças. Para ele, foi. Quando, (depois de 3 anos) depois de mudar (em Miami) de escola 3 vezes, eles finalmente estavam bem adaptados, com amigos, eu com um trabalho meio período e várias freelas, meu marido recebeu uma proposta muito boa para voltar. Olha, eu escolhi que não quero ser vítima. E sugiro que todo mundo faça o mesmo. Eu não gosto de mudar. Só mudo (já foram 4 vezes) por causa do meu marido, mas só faço isso porque no fundo sei que vai valer a pena. Então, acreditando nisso, para quê me vitimizar, né?

O que quero dizer com isso – e não é papo de “O Segredo” – você precisa primeiro tomar a decisão de que essa mudança vai dar certo. E isso não é um trabalho mental, é braçal mesmo. Se lá tem limão, faça limonada todo dia e não fique só se queixando porque não tem laranja. Essa é a ideia. Fernando Pessoa tem um poema lindo que fala sobre o viajante que na verdade está viajando na própria cidade, a viagem é o novo olhar para a mesma paisagem. Acho que na mudança essa mesma lógica se aplica. É preciso se jogar nas contingências e olhar para o novo com alguma paixão. (somos todos viajantes)

Viemos para São Paulo planejando voltar para a escola Waldorf. Inclusive eu tinha passado os 3 anos em Miami lamentando aqui no blog por ter saído dela. Na minha cabeça era a condição para voltar valer a pena. Já contei aqui no blog que essa ideia não deu certo. Não só isso, como essa ideia nos tomou muito tempo de investimento e acabamos chegando no dia 18 de Janeiro com a notícia de que a escola não tinha aceitado nosso filho. E as aulas na maioria das escolas começariam dia 26. Então dá para imaginar o sufoco que foi.

Se você queria saber de uma dificuldade, a minha na mudança foi essa. E a lição que eu tiro disso é que não existe essa garantia de resolver tudo antes de chegar. Toda vez, isso acontece. Não quero dizer para não mexer nenhum pauzinho antes, mas não adianta ter a pretenção de chegar com a casa já arrumada.

No fim, conseguimos vagas em uma escola bilíngue, do lado da nossa casa e receberam as crianças com uma alegria incrível.

No primeiro dia de aula, a professora do J. chegou perto dele e disse: “J., estamos muito felizes que você está aqui. Posso te dar um abraço?”

Nessa hora eu vi que tinha dado tudo certo. (quem já morou fora entende)

A partir daí, voltamos para o médico que sempre foi nosso parceiro. (diferente das consultas em pé de Miami) Voltamos a estar perto da família e sentir a alegria de estar na nossa cultura. Voltamos para o nosso apartamento que estava alugado.

Na minha singela opinião, (já morei 9 anos fora do Brasil, 5 anos destes com crianças) a vida no Brasil (para quem tem filho) é mais fácil. Claro que tem gente que muda junto com outras pessoas da família, enfim, as variáveis são infinitas. Mas para mim, estar na própria cultura, na própria língua, contando com médicos excelentes, escolas ótimas (aqui não tenho nenhuma das tantas queixas que tinha em Miami), podendo pagar alguém para ajudar em casa – porque se você é como eu que tem um marido que trabalha muito, se não tem ajuda extra, precisa estar em casa muitas horas por dia, não tem jeito. E isso limita a vida. O que ninguém pensa antes de mudar de país e achar que “lá” vai ser o máximo. Na realidade, sem conseguir pagar por uma ajuda, “lá” você vai é ficar muito presa em casa.

No único mês que eu fiz um freela alocado e que tivemos alguém em casa todos os dias (sem cozinhar, só para limpar, buscar as crianças na escola e ficar com elas) o custo dessa pessoa foi 2.500 dólares. Enfim, para muitas mulheres que conheço a realidade de mudar para fora do Brasil na verdade é a mudança entre ser uma mulher que trabalha fora para virar uma dona de casa em tempo integral. Como diz o poeta “não importa a paisagem, o que eu vejo é o beco”. Não importa se é Londres ou Paris, o que você vai ver é a quantidade de trabalho que se tem em uma casa com duas crianças. Mesmo dividindo as tarefas com todo mundo. Porque se você vai acompanhar o marido que está indo trabalhar, é certo que ele não vai poder sair do trabalho às 15h para buscar as crianças na escola e ficar com elas o resto do dia, né? Até 12 anos as crianças não podem ficar sozinhas. E por isso, acho mais fácil morar no Brasil.

Estou aqui falando do meu ponto de vista, claro que se eu tivesse conseguido um emprego bacana, para ganhar mais de 2.500 dólares por mês lá e poder estar em casa às 18h (como era minha vida em SP), todo esse texto poderia ter sido diferente. É por isso que é tão difícil dar palpites. Tudo depende da sua situação. Eu fui sabendo que era provável que eu ficasse em casa com as crianças e assumisse muito do trabalho de casa. Topei assim mesmo porque era exatamente isso que eu queria naquele momento. Mas não queria isso para a vida toda. Foram 3 anos. Hoje eles já têm 8 e 11 anos. Não precisam da mãe em casa disponível o tempo todo. Por isso, eu prefiro agora estar aqui no meu país, onde tenho mais possibilidade de estudar e voltar a ter uma carreira.

Claro que emprego no Brasil não está nada fácil agora, mas estou fazendo o curso de formação em Psicanálise (e amando), estou fazendo freelas e já fiz várias entrevistas para trabalho (dedos cruzados!). Em Miami, depois de um ano e meio de chegada eu já estava era bem convencida de que trabalhar fora não seria possível – pela falta de vagas e pelo custo que isso teria. Inclusive existe um artigo que fala sobre isso. (aqui) São muitas as mulheres que param de trabalhar nos Estados Unidos depois de ter filhos porque simplesmente a conta não fecha. (pagar escola + babá é muito mais caro do que a maioria pode pagar)

Além disso, claro que estando no seu país, suas chances de ter um bom ou ótimo emprego são muito maiores. No meu caso, por ser redatora e ter experiência de quase 4 anos dando aula em uma grande universidade de São Paulo – que lá fora, ninguém nem conhece. Em outros casos, porque o diploma daqui não tem validade lá fora. Ah, e para quem acha que a crise econômica é só no Brasil, assiste ao filme “I, Daniel Blake”.

Enfim, sei que existe todo tipo de história. E sei que não existe lugar perfeito. Minha história é essa.

Então se chegou seu momento de voltar, confia em mim, apesar de todos os pesares e de todos os TEMERores, vai dar tudo certo. Na medida em que o “tudo certo” é possível.

Uma coisa interessante que tenho aprendido:

O espaço entre aquilo que você não pode fazer

e aquilo que você pode é onde está a satisfação.

Em qualquer lugar vai haver a insatisfação (o seu limite, a sua castração) mas a gente pode demorar mais tempo olhando e celebrando aquilo que é bom.

Espero ter ajudado. Já mudamos de Miami há 18 meses e nesse tempo foi possível para as crianças e para nós fazer muito mais amigos, estar cercados de muito mais pessoas do que foi o tempo lá. Essa é a parte boa do Brasil. Claro que dá um susto danado chegar e ver que seus velhos amigos já aprenderam a viver (muito bem) sem você. Acontece que novos aparecem e os velhos, apesar de um pouco esquecidos talvez, ainda são amigos.

Papo prático: se tiver morado fora mais de dois anos e seus filhos estão dominando mais a segunda língua do que o português, procure uma escola bilíngue. No meu caso, foi isso que fez a mudança ser muito fácil do ponto de vista da adaptação das crianças. Mas se essa opção não for possível, procure uma escola que seja fácil de chegar. O trânsito em São Paulo é bem mais pesado do que em muitos outros lugares e acho que a criança ser exposta de cara a esse prejuízo, pode causar aquela reclamação chata que não queremos ouvir (pelo menos não todo dia): “porque nós mudamos para cá?!!!”. Fora isso, eu aposto que, seja lá qual for a escola, eles vão fazer amigos bem rápido aqui e isso faz toda a diferença. Acredite.

Tem outras dicas? Tem outros pontos de vista sobre essa mudança? Escreve aí.

Por Cris Leão

Foto do cachorro: Só porque é fofo e para dizer que ele (e a gata) também se adaptaram bem. ; )

 

 

6 pensamentos em “Voltar a morar no Brasil com crianças.

  1. Também voltamos para o Brasil. Meu filho tem 9 anos e era muito infeliz na escola nos EUA. Acho que o fator principal era a frieza das professoras. Entendo completamente quando você narra que a professora no Brasil perguntou se podia abraçar seu filho :-). Esse aspecto (do calor humano) faz muita diferença para a criança. Meu filho não quer nem ouvir falar em voltar para os EUA…

  2. Cris,

    Adoro seu blog e adoro seus textos!!! Sempre acompanho! Vc falou que você está estudando psicanálise, queria saber onde é, é faculdade? Porque eu sou coach e queria estudar mais essa área da psicanálise, mas não sei se encararia uma faculdade de 5 anos em psicologia. Me dá algumas dicas da sua formação! Muito obrigada!

    Beijos Ana Paula

  3. Cris! Tão reconfortante seu depoimento, que não é apenas sobre mudança, mas sobre escolhas. Escolher estar junto, escolher crescer apesar das desilusões, escolher aprender com as experiências. Nunca morei fora, comecei a te seguir em razão da pedagogia Waldorf (minha filha também precisou sair da escola), mas descobri muito mais. Obrigada pelo presente das suas palavras.
    Dedos cruzados aqui por você!

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