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Fui assistir ao Grupo Corpo e não voltei até agora. Já viu um espetáculo de dança deles? Os corpos se movem com agressividade, com ternura, com rapidez, com leveza. A impressão é que eles usam todas as possibilidades de movimento. Parece que a vida inteira, a nossa vida inteira, está ali. E será que não está?

Um detalhe que sempre me encanta do Grupo Corpo – cada bailarino é diferente. Em tamanho, cor, peso, até em ritmo. Eles não dançam iguais. Como faz bem lembrar que a vida é exatamente assim e que nosso poder está aí – em ser diferente, único. Eles sabem explicar sem usar palavras, nem desenhos.

Uma mãe escreveu no Facebook desse blog “Mas está difícil. Se ama pouco está errado, se ama muito está errado porque não pode mimar.” Eu já tinha assistido o Grupo Corpo. Então posso responder.

Dá. Recebe. Pula. Cai. Enrola. Alonga.

Amar é querer ficar perto. Amar é ficar longe (mesmo com vontade de ficar perto) mas porque você sabe que ficar longe é o certo naquela hora.

Amar é querer ficar grudado no sofá por horas assistindo filme e comendo pipoca. Amar é colocar a criança para dormir cedo porque você sabe que ela precisa.

Amar é querer dar a alegria de um doce. Amar é saber que salada é importante e por isso dar salada mesmo se o outro está sempre pedindo doce.

Amar é acreditar que aquele ser é a coisa mais especial do mundo. Amar é saber que aquele ser precisa conviver, precisa respeitar, precisa aprender com o outro.

Amar e mimar são coisas bastante diferentes. Criança precisa ser amada não mimada. (mas os avós têm carta branca)

A diferença entre amar e mimar é a intensidade. Como tudo na vida. Se você checa se trancou mesmo a porta, é normal. Se você checa 5 vezes se trancou mesmo a porta, é estranho. Se você checa 15 vezes, você não está bem.

Não podemos ser duros demais. Nem frouxos demais. Se você for um equilibrista, parabéns. Consegue muito bem ficar entre esses dois lados. Se como eu, não tiver tido aulas de circo, talvez seja mais fácil aprender a dançar.

Nossa mente quer o tempo todo dividir tudo em bloquinhos. O certo. O errado. O feio. O lindo. “Afinal, me fala o que é para fazer? Onde está a lista?” A dança (a vida) não acontece assim. E podemos nunca ter aprendido a dançar antes, mas a gente sabe que a melhor maneira é começar. (música sempre ajuda)

Talvez na tentativa de acertar, a gente se endureça. Talvez na armadilha do “estou fazendo tudo errado” a gente perca o ritmo.

O bonito da dança é o conjunto de movimentos. Como uma sequência de fotografias. Uma sequência de posições estáticas. A mãe que eu sou, a que você é, não é uma só, é uma sequência. A construção da criação dos filhos é essa sequência.

Percebe como fica tudo mais bonito assim? Paramos de congelar os momentos/dias/fases/atitudes/sentimentos como “perfeito”, “horrível”, “certo”, “errado” e finalmente podemos estar mais leves e mais atentos para estar presentes. Assim nos ocupando do movimento que a própria vida traz.

A partir do momento que um bebê nasce, nós temos a oportunidade de nos tornar mães. E assim como bailarinas, nós vamos nos tornando. O movimento não acaba nunca. Só quando a cortina desce.

Pode parecer mais um trabalho. Pode parecer ter que controlar o tempo entre dar e não dar, controlar a quantidade de sim e de não. Mas na verdade é o oposto de controle, é presença. O controle traz uma racionalidade que muitas vezes têm a ver com o que pensamos antes daquele ato.  A dança que proponho é estar no ato.

O controle quer decidir “eu vou ser presidente da empresa, nada vai me parar” ou “eu vou ser a melhor mãe do mundo e isso vai dar tão certo que todos vão morrer de inveja”. As clínicas terapêuticas estão cheias de pessoas com complicações psíquicas porque de tanto mirar em um só lugar na vida, se perderam. “Perdi meu emprego, mas a única coisa que tenho na vida é meu trabalho”, “Meus filhos cresceram, não precisam mais de mim e eu não sei mais quem eu sou”, “Meu casamento acabou e eu não tenho mais nada”.

Não vamos fugir das frustações da vida. Mas podemos entender que o mesmo ego que fica louco buscando o sucesso em uma área da vida, o ego que busca um rótulo para chamar de seu, está na verdade armando uma grande armadilha. É preciso dançar para sair dela.

Está sem trabalhar e cuidando do seu bebê? Que ótimo, quem sabe você não pode cultivar uma amizade especial para essa fase da vida?

Aliás, muito se fala sobre a importância da vida em família, muito se valoriza o sucesso profissional, as amizades vão ficando de lado. Pois foi uma amiga que me deu de presente esse espetáculo do Grupo Corpo. Acredito que nas danças e nos grandes saltos da vida, as inspirações vem das amizades. Não podemos vacilar e ficar sem elas.

“Mas como conciliar tudo? É impossível.” Ninguém disse que era fácil. Mas se você assistiu o espetáculo, vai entender que o trabalho colocado na dança deixa a vida muito mais bonita.

Por Cris Leão

 

8 pensamentos em “Para educar e viver com mais leveza.

  1. Bom dia! Que bom acordar e já ler algo inspirador! Ainda estou dançando meio desajeitada, mas aprendendo a cada dia. Achar esse meio termo é difícil, mas é o melhor caminho. Beijos

  2. Muito bom, Cris! Esse blog precisa de um canal no youtube, uma página do Instagram, mulher de Deus!!
    Muito bom!!!! Estou cá eu na saga da formação em Psicanálise também, mãe em tempo integral, não por opção, mas pq o mercado não me aceitou de volta por um valor “sobrevivivel” (rsrss) em que eu possa ter uma pessoa pra me ajudar em casa.
    Mas vamos indo, estudando e aprendendo na prática a maternidade integral, que nem sempre é plena, mas é real!
    Beijos para você, linda!!

  3. Como gosto das suas reflexões! Nem lembro como descobri você, mas já tem tempo. E apesar do tempo já ser considerável, o que realmente me deixa feliz, é a qualidade dessas reflexões, e quanto elas me acrescentam, me respondem, me confirmam, me colocam em dúvida, me trazem momentos valiosos.
    Quanto a essa reflexão de hoje, me deixou feliz por perceber que danço bastante na vida , buscando o ritmo e a harmonia de meus movimentos(escolhas) , antes de pensar sobre esses meus movimentos, me parecia na maioria das vezes uma insegura, que às vezes dura, às vezes frouxa, às vezes exigente e às vezes permissiva demais. Sim, fui e sou tudo isso, porque a dança (vida) é movimento contínuo em ritmos diferentes. Obrigada!

  4. Cris,
    Suas reflexões tornam nossas dúvidas e até mesmo as inseguranças mais aceitáveis para entrarmos no ritmo da dança.
    A busca desse equilíbrio é que faz a vida vale a pena…..
    Obrigada
    beijos
    Mariana

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