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“A mãe interpreta o que o bebê precisa.” Freud

Recentemente participei de um seminário sobre vínculo familiar com a Julieta Jerusalinsky. Recomendo muito que assistam os vídeos de debates e palestras com ela que estão disponíveis na internet. Ela tem um trabalho lindo. Estou lendo seu livro e depois de outras aulas e seminários sobre o tema, achei que devia falar alguma coisa aqui. Com a delicadeza de quem sabe que está tratando de um assunto delicado, espero que tenha conseguido passar alguma coisa do que aprendi aqui.

Um bebê precisa de mãe. A mãe pode ser a babá, pode ser o pai, pode ser a tia, a avó, mas sem a função mãe, o bebê não se constitui.

Mãe é aquela que fica com a boca cheia de água na hora de dar comida para o bebê. Essa mãe na verdade provoca a fome do bebê. Ou seja, ele se reconhece. Ele não sabe que está com fome mas ao ver a reação desse outro, se identifica.

Mãe é aquela que quando o bebê cai, dá um gritinho como que de reflexo. O bebê entende que aconteceu alguma coisa por causa da reação dessa mãe.

Mãe é aquela que conversa com o bebê de frente para o espelho e aos poucos ele vai entendendo que mãe e ele são duas pessoas diferentes. O que vai ser muito importante para o desenvolvimento saudável dessa criança.

Mãe é aquela que brinca com o bebê, mas contando que essa relação não é dual (que não é um outro adulto ali), ela o invoca para a brincadeira. Pelo movimento da mãe, ele vai entendendo a brincadeira, começa a participar e assim vai se vendo agente dos acontecimentos a sua volta.

Mãe é aquela que cria uma nova língua para comunicar com seu bebê. Ela cria ritmos, melodias carregados de sensibilidade, tensão e emoção. Essas entonações são um modo de comunicação altamente significante. O bebê responde e assim se inaugura a base de experiências afetivas compartilhadas.

Mãe é aquela que olha para o bebê e começa aos poucos entender seus pequenos traços de linguagem. Ou seja, vai entendendo o que quer dizer frio, calor, fome, sono. A mãe assim insere a letra na vida do bebê. E linguagem pode parecer uma bobagem assim logo de cara. Mas se pensar um pouco vai ver que linguagem é o que nos diferencia de todos os outros mamíferos. Talvez por isso, todos os outros consigam ter uma vida que segue em frente mesmo com uma chocadeira. Mesmo se ao invés de uma mãe, tiverem um braço ou uma máquina que joga comida e alimenta. Nós seres humanos precisamos mais do que isso para nos constituir.

Por isso, se sua função hoje é essa, pode acreditar, você está formando um ser humano. Um ser que não nasceu pronto. Não existe trabalho mais importante do que esse. Pode perguntar para qualquer psicólogo, psicanalista ou psiquiatra. Pode também procurar se informar sobre bebês que foram abandonados muito cedo. Estou lendo dois livros de psicanálise: “A Criação da Criança” e “O Bebê e O Outro” e como diz o próprio inventor da Psicanálise, “Temos bons motivos para acreditar que não há período em que a capacidade de receber e produzir impressões seja maior do que precisamente durante os anos da infância” – Freud

Queridas mamães que acompanham esse blog, eu sei que nem sempre estamos de fato aptas para exercer essa função. O bebê pode ter nascido em um momento de luto para a mãe, ou de doença, ou de mudança irreparável. Como dar amor quando se sente uma concha vazia? Eu sei que essa é a situação de muitas. E se for a sua, procure ajuda. Não engula essa. É importante colocar para fora essa angústia. A mãe presente (fisicamente) mas que não está ali pode gerar danos psíquicos muito sérios ao bebê. Eu sei que vivemos em uma cultura onde levamos o bebê ao pediatra e, na maioria das vezes, apenas as funções orgânicas são levadas em conta. Como se engordar e aumentar o tamanho fosse a única meta de desenvolvimento humano. Não é. Sabemos que não. É importante olhar para as emoções com o mesmo cuidado.

Conheço profissionais incríveis que podem e têm ajudado muitas pessoas. Vá atrás dessa pessoa para você também. Se era só um empurrãozinho que faltava, considere esse texto meu empurrão dado. (eu sou muito agradecida pelo dia que eu recebi um.)

Cris Leão

Foto: Daniele Guarneri

5 pensamentos em “Mãe e bebê: quando o laço está frouxo.

  1. Olá Cris! Legal seu texto! Não sei bem se me sinto uma concha vazia, mas com certeza é muita mudança! Não sei se sou apenas uma mãe presente fiisicamente… se preciso de ajuda, mas quero ter essa linguagem com minha baby… gostaria de ler sobre esses assuntos; poderia me dar alguma dica? Obrigada!!

    • Oi Giovanna, tem bastante literatura sobre o assunto. Mas o que indico mesmo é a ajuda de um profissional. Coloquei o link da tese de doutorado da Julieta no texto. O conteúdo é o livro “A Criação da Criança”, mas talvez não faça sentido para quem não tem uma bagagem de psicanálise. Enfim, o que te sugiro é uma conversa com um profissional. Alguém que possa te dar acolhimento e direção. Um abraço e boa sorte!

  2. Achei extremamente válida a reflexão,mas no dia a dia eu percebo que a coisa é bem diferente e que a maioria das mães que eu conheço,inclusive eu,estão agindo de uma forma muitas vezes mais programada e por vezes mecânica. Eu estou me policiando para não ser apenas a babá da minha filha e sim ser mais presente de fato. Mas é uma tarefa muito difícil na minha opinião, as vezes parece uma utopia. Eu acredito em uma mãe real que não está sempre disponível e tem dias que não está a fim de brincar,de interagir… Enfim… Mas nem por isto ela deixa de amar,de se preocupar,de viver em função do filho e muitas vezes eu me sinto cobrada em ser esta mãe ideal,sempre disponível,sempre “amorosa”,sempre estimulando. Eu acredito no equilíbrio sempre porque senão a gente acaba enlouquecendo. Beijo!

    • É por isso que a psicanálise chama de “função materna”. A mãe pode até não conseguir ser presente, mas alguém precisa ser. E isso não tem nada a ver com a função mecânica de dar o que precisa ser dado, fazer o que alguém falou que precisa ser feito. A função materna é estar presente. Investir no bebê o seu afeto. Pode ser até o afeto de tristeza, de medo, de raiva, mas o ser humano precisa chegar no mundo e receber alguma coisa que não é uma agenda programada com hora de refeição e hora de dormir. É mais ou menos isso que eu quero dizer. E claro que sim, é uma tarefa muito difícil. Mas também pode ser a coisa mais especial da vida. Lembrando também que é uma fase que passa. Espero ter clareado um pouco mais. Um abraço!

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