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Semanas atrás eu fui em um evento do mercado publicitário em São Paulo. Meu marido foi dar uma palestra sobre morar fora. No fim da palestra, uma moça da platéia chega perto de mim e fala: “Eu tenho uma pergunta para você: Você sofreu muito preconceito por ser mulher trabalhando como redatora fora do Brasil?” Deu vontade responder: “Tá com tempo? Essa resposta vai levar algumas horas.” Mas na verdade eu só respondi: “Sim. Mas quer saber? Eu tive um chefe baixinho, um pouco fora do padrão homem branco bem nascido. Fui contar para ele que a diretora de contas disse que não queria ir ao cliente com uma menina (no caso eu). Ele me respondeu: Olha Cris, eu só comecei a ganhar respeito quando meu trabalho foi respeitado.” Então conclui: “As mulheres são minorias como também existem outras minorias. Não podemos nos apavorar com isso. É só trabalhar.” Ela saiu com um sorriso de satisfeita e levemente inspirada.

Só que eu não contei toda a verdade. Aqui vai a versão completa: Sim minha cara desconhecida, existe muito preconceito contra as mulheres. É talvez mais do que isso, uma vontade de aniquilação. É só olhar o número de mulheres que são assasinadas por ano.

Eu precisei me provar muito mais do que qualquer menino quando comecei a trabalhar em Belo Horizonte. Quando a vaga era entre eu e alguém que gostava de futebol tanto quanto os chefes, para quem você acha que a vaga ia? Perdi muitas vezes querendo ganhar. E dói bastante saber que não, não é sobre sua capacidade profissional.

Quando mudei para São Paulo, tentei emprego em muitas agências. Estava voltando de Lisboa e eu sabia que meu portfólio era muito bom. Com o tempo consegui um emprego onde além de eu trabalhar muito, era uma espécie de mãe, assistente, cuidadora do chefe. Esses papéis me cansavam e eu acabei indo para outra agência. Equipe quase toda masculina. Fui selecionada e a pessoa disse: “escuta, escolhi você porque seu trabalho é melhor do que as 18 pessoas que entrevistei. Mas vou ser bem sincero, se um brother aparecer, a vaga é dele.” Com esse tapa na cara e muita vontade de ficar, trabalhei como nunca. Chegava às 9h da manhã, saia às 2h da manhã. Mas tudo ia mais ou menos bem. Eu tentava me camuflar ali entre os meninos, para não ser conhecida, sabe? Acho que muitas mulheres sabem. Até que eu descobri que estava grávida. Nessa hora ficou evidente que “ops”, eu era mulher. Fui demitida porque “Você faz dupla com nosso diretor de arte mais sênior da agência e parece que não está no pique. Mas conta aí como é isso de ficar grávida, as roupas ficam apertadas?”

O privilégio cega. Não acredito que ninguém é mal o suficiente a ponto de planejar fazer mal a uma pessoa só porque sim. Acredito que esse cara não viu o que ele estava fazendo. Eu morava há menos de um ano em São Paulo e estava com 4 meses de gravidez, o que eu podia fazer? Será que, por humanidade, o prejuízo da agência não seria menor do que o meu se ele me fizesse uma proposta qualquer? Mas ainda mais importante: por que eu estava “servindo” e quando fico grávida deixo de servir?

É muito errado o que aconteceu comigo e acontece todo dia com muitas mulheres.* De um dia para o outro, eu deixei de ter a profissão que eu amava, para ficar em casa, sozinha e vivendo apenas com o dinheiro do meu marido – o que representou uma queda no nosso orçamento de 50%. Ao mesmo tempo eu precisava me dar conta do que estava acontecendo com meu corpo na minha primeira gravidez.

No passado, as mulheres foram tratadas como mercadorias, eram vendidas, ofertadas. Acredito que isso marcou profundamente nossa psique. Porque passado muitos anos, ainda conseguimos lidar com a humilhação muito melhor do que qualquer homem conseguiria. Eu considero a resiliência um sinal de força sim. Eu prefiro fazer o que é preciso ser feito do que sentar no chão e chorar no papel de vítima. Mas a gente precisa reconhecer quando é de fato a vítima. Porque se não caímos em outra armadilha – achar que a responsabilidade é sempre nossa. Até que isso vira uma luta interna. Uma luta porque você acha que precisa encontrar a saída para o buraco negro que foi o outro que te colocou.

Quando eu lembrei dessa demissão, eu quis abrir meus emails – já que em 2005 eu comunicava bastante com os amigos por email. Para a minha surpresa, eu não reclamava do acontecido com ninguém. Mas eu buscava com ansiedade uma saída – qualquer que fosse – para ontem. Isso me deu muita tristeza. Lembrei de tantas mulheres que conheço e que passaram por situações absurdas de abuso também – elas rapidamente se colocam no papel de responsável.

Não. Eu não tenho culpa de ter sido demitida. Quem errou foi quem me demitiu. Erraram também os colegas homens que estavam do lado e se calaram. Reconhecer quando se é vítima não é se fixar a uma posição de coitadinha e paralisada. É apenas reconhecer que aquela feiura toda, aquela monstruosidade, não é sua. É do outro. Quem tiver passando por algo assim agora, se quiser uma dica, viva a tristeza de ter sido atravessada pela maldade. É melhor viver esse estado, falar sobre isso, sentir tudo o que ele te traz do que fazer o que eu fiz. Essa famosa e péssima maneira de pensar: “sacode a poeira.” Não. Algumas vezes é melhor pegar a poeira com as mãos, chorar e molhar essa poeira de lágrimas para depois então construir algo novo com o barro que surgir.

Sei que a maioria dos textos que escrevo aqui são para trazer uma mensagem positiva, para tentar ajudar, para tentar clarear. Este pode não ter tido esse papel, mas decidi publicar porque acredito que a cultura do “tá tudo bem” é o que aumenta o uso de medicamentos psiquiátricos a cada ano. Precisamos entender que a vida não é sempre “tudo bem” e quer saber? Tudo bem que seja assim. ; )

Só é importante reconhecer os dois lados (o bom e o mau, o que dá certo e o que dá errado) porque o que a gente engole, esconde, esquece são as engrenagens do motor da angústia. É melhor reconhecer o seu calo, cuidar dele do que ignorá-lo e passar a viver andando torto sem nem perceber porquê.

Olha que coisa linda que encontrei nos emails de 2005. Alguns dias depois de ter sido demitida. Quem me mandou foi meu marido.

VIETNAMITA – Wislawa Szymborska
 Mulher, como te chamas? – Não sei.
 Quando nasceste, tua origem? – Não sei.
 Por que cavaste um buraco na terra? – Não sei.
 Há quanto tempo estás aqui escondida? – Não sei.
 Por que mordeste o meu anelar? – Não sei.
 Sabes, não te faremos mal nenhum. – Não sei.
 De que lado estás? – Não sei.
 É tempo de guerra, tens de escolher. – Não sei.
 Existe ainda a tua aldeia? – Não sei.
 E estas crianças, são tuas? – Sim.

E como disse a escritora feminista, Chimamanda Ngozi Adichie : Nunca aceite “porque você é mulher” como razão para fazer ou deixar de fazer qualquer coisa.

Por Cris Leão

 

* Infelizmente, 50% das mulheres são demitidas em até 2 anos após a licença maternidade.

 

2 pensamentos em “A cura para o machismo, quando vem?

  1. Cris, reuniao de time gerencial de empresa de tecnologia ontem. 3 Diretores, varias mulheres que sao parte do time gerencial regional. Comentario: “agora vamos discutir algumas coisas e vocês podem ir fazer compras, se quiserem”

    Oi? Como? Mesmo que a intenção não tenha talvez sido a mais machista possível, sim, soou muito machista, muito preconceituosa, muito desagradável. O fato desta cultura latina ser tão desagradável me irrita profundamente, me desmotiva e me deixa sem grandes esperanças na raça humana. A cultura latina ainda está a anos luz de algum lugar mais respeitoso e igualitário.

    E também há muitas mulheres que se colocam nessa posição de charme, de sedução, de ganhar confinaça pela aparência, também é cultural. Eu percebo as interações, os movimentos, os olhares. É engraçado mas também desconfortável. E não me refiro apenas à América Latina, vi esses comportamentos nos Estados Unidos também. Enfim, ainda temos um longo caminho pela frente! Uma pena! Não se trata de queimar sutiãs. Se trata de ser quem somos, cada um como é, sem atrair olhares enviesados ou diferentes. Se trata de valorizar o interno e não o externo.

    E infelizmente acho que não veremos uma mudança nesses comportamentos tão cedo.

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