Home

Como disse o comediante Loius CK, antes de ter filho quando eu via uma criança gritando, batendo a perna no chão, eu pensava: o que essa mãe/pai estão fazendo com essa pobre criança? Depois de ter filho, quando vejo uma criança nessa situação de grito e choro exagerado penso: o que essa criança tá fazendo com essa pobre mãe/pai? É uma piada. Só para quebrar um pouco esse mantra ridículo que vivemos onde criança tem que estar feliz o tempo todo. Eu sei porque, é que os adultos querem se sentir amados o tempo todo. Então no espetáculo de imagens perfeitas que estamos todos viciados, aquela imagem de uma criança gritando é terrível. Porque naquele momento de grito, choro, raiva, você – senhor e ou senhora da perfeição – não estão sendo amados. Ops. É melhor dar mais um doce, é melhor entrar de novo naquela loja horrível de brinquedo cheia de estímulos, cores e apelo ao consumo, aliás, é melhor comprar mais um brinquedo, é melhor deixar dormir na sua cama (mesmo você sabendo que não vai conseguir dormir), é melhor entregar aquele objeto que quebra e que não é de criança para essa criatura, é melhor deixá-la comer chocolate mesmo estando na hora do almoço, é melhor continuar carregando no colo mesmo com as costas doendo, é melhor não desligar a televisão mesmo estando na hora de dormir porque sua majestade – o bebê – não pode ficar esse minuto me amando tão pouco. Que canseira.

Mas voltando à criança gritando no chão, o que acontece hoje em dia é a criança começa a gritar e o adulto quando não pode resolver o pedido da majestade, grita mais alto ainda. Como se o grito da criança fosse uma quebra do contrato: “tá todo mundo se amando muito aqui.”

Criança grita, sente raiva porque é difícil mesmo ser frustado. É difícil mesmo dividir. É difícil mesmo querer e não poder. Agora você, o adulto em questão, acha mesmo que uma frase, uma cara feia, um grito vão resolver? Mais do que isso, para quê resolver?

Por que uma criança não pode sentir raiva? Claro que a cultura e as regras sociais vão moldar todas as crianças a como se comportar e como não se comportar. Não vai ter como segurar isso. Ou seja, daqui a pouco elas vão aprender a engolir o choro, a sentir raiva e não poder atacar ninguém nem nada. Então talvez seja melhor VOCÊ adulto ir se acostumando que seu filho não vai ter tudo e que chorar e sentir raiva, sentir frustração também fazem parte da vida dele. Melhor se acostumar com isso desde já do que virar um daqueles pais que vão até a faculdade do filho reclamar das notas, exigir que o filho passe. Coisa bastante comum hoje em dia. Mais comum do que ver bebê dando chilique.

Olha que lindo o que esse pai – o ator Justin Baldoni – postou recentemente nas suas redes sociais: (o que segue é minha tradução)

19399012_1311345852305941_6683737677573029033_n.jpg

“Eu tentei ficar fora das mídias sociais ontem para me conectar com minha família sem distração, então eu estou postando isso hoje. Emily (esposa) tirou essa foto no Whole Foods (supermercado). Agora é uma das minhas fotos favoritas com meu pai.

Dois homens, de pé juntos em silêncio, ligados para sempre por um amor incondicional para ambos, e essa alma nova, crua e pura, a quem ambos iríamos até os fins da terra. Eu só posso imaginar quantas vezes eu fiz isso quando tinha essa idade. Meu pai me ensinou muito sobre o que significa ser um homem, mas esta publicação é sobre uma única coisa. Estar confortável no desconfortável. Algo que eu cresci observando ele fazer comigo repetidas vezes. Não há pais perfeitos, mas uma coisa que meu pai me ensinou foi não ser pai com base no que alguém pensa. Meu pai sempre me deixou sentir o que eu precisava sentir, mesmo que fosse público e embaraçoso. Eu não me lembro dele nunca dizer “Você está me envergonhando!” ou “Não chore!”. E só recentemente eu percebi o quão primordial era para meu próprio desenvolvimento emocional. Nossos filhos estão aprendendo e processando tanta informação e eles não sabem o que fazer com todos esses novos sentimentos que surgem. Eu procuro me lembrar de deixar claro para minha filha que tudo bem sentir. Não é embaraçoso para mim quando ela se joga em birras na mercearia ou grita em um avião. Eu sou seu pai … não de quem está assistindo.

Não precisamos sentir vergonha pelos nossos filhos. Não reflete em você. Na verdade … provavelmente devemos ser um pouco mais gentis e pacientes com nós mesmos. Se nós tivéssemos uma conexão maior com tudo o que estamos sentindo e nos permitíssemos fazer birras e chorar quando sentimos a necessidade, talvez pudéssemos também nos deixar sentir mais alegria e felicidade. E isso é algo com o qual esse mundo definitivamente poderia se beneficiar.”

Lindo, né?

Para quem ficou com vontade de refletir mais sobre o assunto, há 2 anos atrás eu escrevi outro texto sobre esse tema no blog. É só clicar aqui. Segue um trechinho que na verdade é uma tradução de um poema da Dr. Shefali:

“Desejo a você uma criança…

que lhe desafie

E então você pode aprender a perder o controle

Uma criança que não sabe ouvir

Então você vai aprender a sintonizar

Uma criança que adora deixar para depois

e então você vai aprender a beleza de não fazer nada

Uma criança que vive se esquecendo das coisas

e então você vai aprender a se livrar de tanta coisa que te aprisiona

Uma criança que é excessivamente sensível

e então você vai aprender a ser mais centrado

Uma criança que é desatenta

então você vai aprender a ser mais focado

Uma criança que se atreve a rebelar

então você vai aprender a sair fora da caixa

Uma criança que sente medo

então você vai aprender a confiar no universo

Desejo que você seja abençoado com uma criança

que te ensine

que nunca é sobre ela

mas sempre sobre você”

Por Cris Leão

6 pensamentos em “Por que uma birra incomoda muita gente?

  1. Gostei muito da sua colocação. No entanto, há em comodo quanto ao que nós adultos sentimos!! Muitas vezes, não sabemos como lidar!!

  2. Meu filho de 4 anos sente muita raiva. Qualquer contrariedade e ele grita, me chuta e explode. E eu sinto medo, medo de ele se tornar um adulto explosivo, de não aprender lidar com essa raiva. Fico confusa quando ouço que é bom sentir raiva pois eu quanto adulta queria sentir menos raiva. Fico me perguntando se já nascemos com tanta raiva assim? Sempre fico desejando uma criança mais doce, não pela facilidade no momento presente, mas sim pensando no futuro, pois o meu maior desejo é que meus filhos tenham uma vida mais fácil que a minha, mais plena, com mais significado. Sou uma analfabeta emocional, queria conseguir prepara-los melhor.

    • Oi Michelle, aprendi na pedagogia Waldorf que o grande desafio é a auto educação. Acho que você mesma já se respondeu. Mas acrescentei ao post um link com um texto aqui do blog onde falo mais sobre o tema. Dá uma olhada!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s