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Ontem saí de casa com uma sacola de brinquedos para doar. Ontem a sacola estava mais pesada do que nunca. Não porque os brinquedos fossem de fato pesados, mas porque ali estava a Olívia. Essa boneca de pano da foto. Ela tem nome porque é isso que você faz quando demora muitas horas e muitos dias para fazer uma boneca com as próprias mãos. Eu fiz a Olívia há muitos anos atrás quando meu filho mais velho estava no jardim Waldorf. O recheio dela é lã cardada. A lã do carneiro que eu mesma cardei. É trabalhoso. Depois disso o trabalho de enfiar a lã em cada membro e, de preferência, fazer as partes ficarem iguais. Uma perna igual a outra, um braço igual ao outro. Outra camada de pele para proteger. Costurar a cabeça e deixá-la firme é outro desafio de horas e muita costura. O cabelo foi colocado fio por fio. Um trabalho demorado mas um pouco mais fácil. No fim, alguma tensão para pintar os olhos e boca já que não dava para errar nisso.

Fiquei muito contente quando terminei a boneca. E na mesma proporção decepcionada quando o João recebeu e nunca deu a menor bola. Quando a Maria Teresa nasce, eu penso, agora sim, a Olívia vai ter alguém que gosta dela. Nada de novo. Os anos foram passando e a Olívia ia da prateleira para a caixa de brinquedos, da caixa de brinquedos para o baú, do baú para a prateleira (quem sabe sendo vista) e nada. A coitada desenvolveu até um problema de pele de tanto ficar guardada. Na última limpa de brinquedos que fiz, saíram várias sacolas para doação e dessa vez decidi levar a Olívia.

Ontem no caminho, com ela na sacola, parei para dar uma última olhada. Cheguei a pensar, não vou doá-la. Fico com ela para mim. Guardo ela para sempre, qual o problema? Mas quando tirei ela da sacola e fiz essa foto percebi que ela era uma metáfora da maternidade.

Na maternidade você sonha e, sem perceber, tem expectativas muito altas sobre aquele outro ser humano. Como eu tive a de eles darem valor para algo que eu fiz, que deu trabalho e ao mesmo tempo foi uma vivência linda que só EU sei.

Sonhamos que eles vão ser sensíveis, ou super focados, ou músicos, ou estudiosos, ou estudiosos mas nem tanto, ou empreendedores desde cedo, ou super bem comportados, ou um amor de pessoa, ou que vão viver explodindo de felicidade. Mas a vida (real) não é assim. Aliás, ela foge do nosso controle. Nessa hora, um errinho comum é procurarmos culpados. A escola, a avó, o tio, o personagem do filme, o bairro que moramos, a cidade que moramos, o prédio que não tem aquele negócio e a lista é longa. Já reparou que a maioria das pessoas que conversamos hoje em dia – na tentativa de consertar tudo – está querendo mudar? (De trabalho, de casa, de estado civil) Só é mais difícil perceberem que a mudança que precisa acontecer é dentro. Inclusive a resiliência de perceber que, pasmem, nossos filhos não são nossos, eles têm vida própria e nem tudo vai sair como nosso plano. Amém.

E assim Olívia foi embora. A ideia de perfeição – para nós e para nossos filhos – também precisa ir. Alguma criança vai brincar com a Olívia. Podemos também nós criar uma nova energia, um novo movimento quando algo sai fora do plano desejado. É muito melhor do que ficar juntando ácaro no armário ou amargura no coração.

Cris Leão

 

6 pensamentos em “Nem tudo sai como esperado. E aí?

  1. Oi Cris, eu gostei muito da Olivia, adorei a mancha no seu rosto. O vestidinho dela é dez. Alguma criança vai se apaixonar e se apegar a ela como voce imaginou. Nossos filhos se apegam a coisas, mas nem sempre a aquilo que nos planejamos e essa é a graça, os filhos vem atraves dagente pro mundo mas nunca são nem serao nossos

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