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“Está faltando aquela, a mais importante, a mãe.” Disse minha filha quando estava arrumando o presépio. Eu não tinha me dado conta que no presépio a mãe era a mais importante.

Outro dia estava na livraria, abri um filho e dei de cara com a seguinte frase: “Mãe, aquela que faz indivíduos formarem uma família.” Fechei o livro na hora porque não estava no clima de saber o que a mãe faz ou deixa de fazer.

É final do ano e ando bem cansada. Cansada de ser mulher.

Li o livro maravilhoso da Julieta Jerusalinsky – “A Criação da Criança” e em uma parte ela fala que as alterações de humor das mulheres não são apenas culpa dos hormônios, mas é por ser difícil se sustentar no feminino por muito tempo. É preciso ter outras formas de gozo além daqueles que o feminino provoca. Ao mesmo tempo que é difícil abrir mão do gozo feminino o tempo todo.

É por isso, minhas caras que estão lendo esse texto, que nunca estamos 100% satisfeitas. Deve ser por isso que uma mulher me escreveu dizendo que nem tem filho ainda, mas já sofre de pensar em ter que deixar ele em casa para trabalhar ao mesmo tempo que sofre de pensar em ficar só em casa com ele. (que ainda nem nasceu)

É cansativo ser mulher. Percorrer por todos os desafios que percorremos e ainda assim olhar na janela, para aquilo que ainda não somos e já sentir falta de alguma coisa.

É cansativo, mas é bonito.

Uma vez na terapia (uns 15 anos atrás) eu falei que achava que não gostava de mulher, que elas me irritavam de modo geral, que era muito mais fácil conviver e trabalhar com homem.

A psicóloga falou: será? Pensa então quem são as pessoas mais próximas. Quem são as pessoas que você divide as coisas mais íntimas e que também dividem com você. Você tem dificuldade com mulher porque elas são as pessoas mais importantes da sua vida.

Dr. Shefali falou: estou cansada de ver gente perturbada que foi criada com amor. Talvez os pais devessem esquecer um pouco o amor. Porque quem dá amor, faz porque quer receber em troca. Então talvez devêssemos parar de querer amor e começar a querer ter mais consciência. O amor cega e chega num ponto que você nem está mais vendo aquela pessoa ali na sua frente. Está vendo uma projeção de você mesmo, ou daquilo que mais teme em você, ou daquilo que você queria ser.

Essa consciência pode começar em saber que você tem limites. E que nossa ideia de felicidade muitas vezes se encontra em um lugar muito longe da realidade.

Vamos pagar um preço quando escolhemos ficar com os filhos? Vamos.

Vamos pagar um preço quando escolhemos não ficar? Vamos.

Semana passada tivemos reunião com os professores do João. As professoras falaram muitas coisas boas sobre o João. E eu sei que existe uma parte muito grande do que ele é que não me diz respeito. Ele é. Ele também tem pai e eles têm muitos pontos em comum. Então tem elogios que, sinceramente, não acho que tenho participação. Mas quando a professora de matemática em tom de brincadeira falou “acho que ele é de outro planeta”. Ela disse que explica uma coisa e o João fala que pensa de outro jeito, pede para explicar o jeito dele e os alunos adoram e depois perguntam a professora se podem fazer no “método João” nessa hora eu me incluo. Porque sempre ajudei muito o João com matemática. Sempre quis que ele entendesse a matemática e não decorasse. E a escola Waldorf de Miami que tinha um monte de defeitos, sabia ensinar matemática e por isso eu banquei ele ficar numa escola que dava muito mais trabalho para mim. Essa presença é minha. Narcisismo meu? Sim! Precisamos de alguma dose de narcisismo.

Então meu presente de Natal para você que lê meus textos é esse. Acolha seu narcisismo. Tente enxergar, no meio de tanta coisa que não deu certo esse ano (eu sei) aquela coisa que deu certo. E deu certo porque você estava lá.

Se sua casa tem uma árvore de Natal, é porque você estava lá. Se você tem uma família (não só indivíduos morando na mesma casa) é porque você estava lá. Talvez se seu filho sabe nadar, é porque você estava lá. Talvez se seus filhos sabem cozinhar, é porque você estava lá. E talvez você, como eu, está cansada de tanto “estar lá”.

Afinal, desde quando formar um ser humano é uma tarefa simples? Se a sociedade não fala disso o tempo todo, eu falo. Aliás, eu não, Alfredo Jerusalinsky falou no último dia do seminário de 18 horas que fiz com ele: “Não me falem que um bebê só precisa de alguém que alimente e cuide dele. Não me digam isso! (com aquela irritação que só quem tem mais idade sabe expressar) Eu tenho 40 anos de clínica, eu sei que um bebê precisa de uma mãe.”

Como diz minha filha, você é a parte mais importante do presépio. Aprenda a descansar. Mas não desista. O show está lindo. Talvez não dê para ver agora, mas ali na frente, vai dar. E vai parecer coisa de outro planeta. ; )

Pare de se auto flagelar pensando em tudo que não tem.

“Toque os sinos que ainda pode tocar.

Esqueça sua perfeita oferenda.

Há uma falha em tudo.

É assim que a luz entra.” – Leonard Cohen

Esse final de semana, vou descansar. Depois de 12 anos, esse final de semana vou passar 2 dias sem filhos, sem marido, sem bichos e não é por trabalho. É porque quero descansar. E agora que está chegando a hora, me parece uma coisa tão óbvia fazer isso que não entendo porque esperei tanto tempo. Aliás, eu sei. Mas isso é outro post. ; )

Por Cris Leão

Foto: Amanda Odonoughue 

14 pensamentos em “Dona de casa e dona da coisa toda

  1. Como diz a música, o que falta cega para o que já se tem… exercitar o narcisismo é um desafio para mim. Obrigada por nos brindar com esse texto tão forte e ao mesmo tempo simples. Que bom ter suas postagens para lembrar que a maternidade pode ser “de outro planeta”! Bom descanso!!!

  2. Seus textos sempre são abrigo acolhedor!… Obrigada por dar clareza a sentimentos por vezes dúbios ou nebulosos! Reconhecer, entender, compreender tudo isso dá leveza aos dias! Não pare! Abraço forte…

  3. Muitoooo bom !! Que texto lindo , me enquadrei total/e nele, como vi hj na aula de yôga tb um pouco do que vc falou , ou melhor escreveu ! Parabéns e descanse

  4. Hoje acordei pensando em procurar texto novo por aqui, e me deparo com isso. Que lindo, me tocou demais. Obrigada!

  5. Uau…que texto esplêndido!Me fez…me olhar e reconhecer que apesar de cansativo….sou responsável pela felicidade do meu lar e claro minha também…mesmo que ela pareça só cansaço…mas e felicidade!!bom fim de semana!curta sem culpa!..ahh a culpa!!

  6. Boa tarde,
    Obrigada por se expressar mais um vez o que levo no meu intimo.
    Descanse e curta sem culpa.Um beijo

  7. Voce nao faz ideia do que vc faz de bom por mim e consequentemente por meu filho. Obrigada, obrigada mesmo. As vezes me sinto tao sem valor pq mesmo com todos os esforços sempre tem coisa saindo errado e fora dos trilhos. Mas hoje senti que cada palavra sua entrou no meu coracao e me fez perceber que ainda com tantos erros existem muitos acertos que fazem tudo valer a pena. Seja abençoada! Foi meu presente de Natal!

  8. Tive que sorrir à menção sobre o nosso narcisismo aplicado aos filhos. Acho que todo mundo tem esse momento, que é gostoso, mas é realmente narcisismo. Um presente belo (como todo bom narciso) e inusitado.

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