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Terminei de ler a tetralogia da Elena Ferrante e estou muito marcada pela escrita e pela história. Para quem não sabe, é um romance contado em primeira pessoa por uma mulher que se refere a maior parte do tempo a sua amizade de infância com outra mulher de mesma idade. Não me lembro de ter alguma vez lido um livro (4 no caso) tão marcado pelo discurso feminista. E como é forte ver ali o tanto de machismo que existe em mim e na nossa cultura.

As duas personagens são feitas de uma força e determinação que na vida real – de verdade – só se vê em mulheres. Pessoas que conseguem se erguer, se reerguer, ajudar as pessoas à sua volta, educar os filhos, são heroínas. Como são tantas em minha vida.

Os livros têm – somados – quase 2 mil páginas então é possível fazer várias reflexões. Mas a reflexão que proponho agora é a de que se saber mulher talvez seja o primeiro passo para começar a transformar a vida. Como diz Prost “O leitor lê a si mesmo” e lendo naquelas páginas sobre a dificuldade de equilibrar as tarefas de casa com a criação dos filhos, com o casamento, com a família de origem, com os desafios (ainda) de ser mulher em um ambiente de trabalho dá uma sensação enorme de não estar sozinha.

Então se você parou de trabalhar para cuidar do seu bebê e agora não vê como vai conseguir voltar a trabalhar, você não está sozinha.

Se você está com depressão pós parto, se sentindo horrorosa, sentindo que não tem condições de cuidar do bebê, você não está sozinha.

Se você está precisando muito retomar o trabalho, focar na sua vida profissional, estudar, fazer contatos mas simplesmente não tem tempo para nada disso no meio das muitas funções e surpresas domésticas, você não está sozinha.

O problema é que isso não pode ficar na teoria. Isso precisa vir para a vida real. Essa é a grande proposta feminista da autora Elena Ferrante: que as mulheres se unam. Esse seria o único movimento capaz de mover o sistema machista – onde, claro, os que ganham com isso não querem mudança. Também seria o único movimento capaz de fazer com que a gente não se sentisse tanto “entregando à vida aos filhos e à família” porque se fosse feito em boa companhia, seria bem mais gostoso.

Como a gente pode fazer isso?

  • Ligue para aquela amiga que você sabe que está precisando conversar;
  • Arrume um tempo para sair com aquela amiga que te chama faz meses;
  • Quando for passear com seu filho(a, os) ligue para sua amiga e pergunte se não quer que leve o dela também. Assim ela tem uma folga e depois revezam;
  • Indique mulheres para as vagas de trabalho que tiver notícias;
  • Deixe as mulheres falarem. Chega dessa falsa empatia que diz “eu sei como é, comigo aconteceu bláblábláblábláblá””. Não é verdade, você não sabe como é. E mais importante do que saber ou não, talvez você esteja tirando a única chance que ela tem para desabafar;
  • Elogie as mulheres, compre produtos e serviços de mulheres, valorize as mulheres.

Nas palavras da própria Elena Ferrante:

“Como princípio, eu me recuso a falar mal de outra mulher, mesmo se ela tenha intoleravelmente me ofendido. É uma posição que eu me sinto obrigada a tomar precisamente porque estou bem ciente da situação das mulheres: é a minha, eu observo isso em outras, e eu sei que não existe nenhuma mulher que não faça um enorme e exasperante esforço para chegar até o fim do seu dia.”*

No fim do quarto livro você consegue ter uma visão completa da vida dessas duas personagens e vê como a amizade entre elas (apesar de muito turbulenta) foi sem sombra de dúvida, a melhor coisa que aconteceu na vida de cada uma delas. Qualquer semelhança com a vida real, não é mera coincidência.

Mais alguém ficou fascinada por essa escritora? Se sim, comente aí! Vou adorar saber suas impressões sobre estes livros.

* Para ler este texto da Elena Ferrante na íntegra e cheio de verdades, clique aqui.

Pessoas queridas que me acompanham por aqui, esta quinta-feira, dia 19/04 vou dar uma palestra sobre meus aprendizados na maternidade no Pitanga. Eu sei que tem muitas leitoras que gostam de fazer perguntas, às vezes coisas bem específicas sobre minhas experiências em escolas Waldorf, ou mudar de país com crianças, psicanálise, penso que esse é um ótimo dia para conversarmos pessoalmente. Vou passar o dia lá vendendo meu livro. Por isso, apareçam! É de graça. Se alguém quiser se inscrever para a palestra, me escreve e eu coloco o nome na lista. Até lá!

7 pensamentos em “O que podemos aprender com outras mulheres? Ser nós mesmas.

  1. te amo! e também tenho, por princípio, não falar mal de outra mulher, no matter what! E sinto muitíssimo quando ouço.

  2. Cris, leio esse blog desde o início, adoraria ver a palestra, pena que é em dia de semana.
    Nos avise quando aparecer uma oportunidade num sábado ou domingo!

  3. Amei os 4 livros!

    E bom, o que você traz é ótimo.

    A minha análise foi mais acerca da profundidade das duas personagens. Quem afinal era Lina se só a enxergamos através de Lena? E isso dá pano para muita manga. E a fortaleza que ambas são? Esse poder de dar a volta por cima? Ou de se resignar? Uau!

    Mergulhei depois em resenhas pela Internet e muitas estão ótimas, trazendo novos olhares e até suposições sobre o que de fato aconteceu, ou então nuances sobre as personagens que deixei escapar.

    Mas sobretudo a humanidade de ambas as personagens me tocou em várias esferas. Saber que não estou sozinha em meus sentimentos, que consigo sentir coisas distintas de uma mesma pessoa, porque afinal não somos só isso ou aquilo, somos seres complexos e inacabados. Me deu um alívio e tanto!!

    Essa percepção histórica também foi maravilhosa. Ler uma vida praticamente do começo ao “fim” nos dá uma outra perspectiva né? Saber que há tempos em que nos sentimos estagnadas e que há tempos em que parecemos que não vamos dar conta… Tudo ao seu tempo.

    Enfim, tudo é simplesmente maravilhoso…

  4. Oi Cris,
    A muito tempo leio seu blog, não sei como foi que eu te descobri, mas estou sempre por aqui procurando algum texto que eu ainda não tenha lido, ou alguma novidade.
    Durante todo esse tempo eu namorei, des-namorei, voltei, noivei, casei e em janeiro pretendo parar de tomar remédio para tentar engravidar.
    Gostaria de te sugerir uma publicação sobre o medo que sentimos em relação a decisão de ser mãe e essa sensação de sentir-se egoísta pelas coisas que teremos que abdicar.

    Um abraço,

    Josi.

  5. Eu “devorei” os 4 livros! Difícil dizer o que mais me tocou, talvez o fato de ler uma vida do começo ao “fim” realmente trouxe-me muitas reflexões sobre a finitude. Simplesmente amei Elena Ferrante, melhor que Jane Austen!

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