Home

O texto que segue é o resumo do meu trabalho escrito para minha formação em psicanálise. Espero que gostem.

Minha proposta é refletir sobre o sintoma das famílias atuais que vivem obcecadas pela ideia de perfeição. Não é pouco representativo que drogas como Ritalina e Conserta tiveram aumento de vendas de 775% nos últimos anos segundo o Ministério da Saúde.

Antes de se chegar ao ponto de querer ver crianças calmas ou “Consertadas” pode-se observar também uma geração que quer oferecer aos bebês uma vida “perfeita”. Uma vida sem frustrações. Será que isso existe? Será que é realmente bom para o bebê ser apresentado a um mundo onde tudo acontece como ele – sua majestade – deseja?

Aqui vem uma pequena surpresa do texto porque estamos acostumados a chamar de “infantil” aquela pessoa que gosta de brincar, de dar risada. Mas infantil aqui é outra coisa, é a ideia infantil de querer que tudo seja perfeito. Adultos são aqueles que já entenderam que não existe perfeição.

Então a partir de agora vamos pensar na perspectiva de um adulto. Uma pessoa que já entendeu também que a vida não é tudo preto ou branco. (não entre em pânico achando que só você não virou adulto, do ponto de vista da psicanálise, a maioria de nós não é adulto, mas podemos trabalhar para isso.) O adulto sabe que entre o preto e o branco tem sempre um pouquinho de bege, de violeta, alguma coisa misturada.

Então quando falo para o bebê não ser tratado o tempo todo como majestade, também não estou sugerindo que aquele ser que acaba de chegar fique chorando a noite inteira sozinho no berço. Vamos pensar em todas as cores que existem. Por exemplo, a livre demanda na amamentação. Não quero contrariar os dados da Organização Mundial de Saúde que mostram os benefícios primordiais da amamentação. Não pode haver dúvidas sobre isso. Vamos apenas refletir. Psicanálise se baseia um pouco nas regras da física. Ou seja, se temos uma relação de dois e um deles está se colocando no lugar de dar livre demanda ao outro, este que dá fica com sua própria demanda represada. Se a demanda do outro é livre e atua com máxima autoridade sobre a minha vida, então a minha demanda não tem lugar nenhum. O que pode ser correto, importante e muito bonito, por algum tempo, mas não durante anos – de novo o preto e o branco.

Eu fiz livre demanda com meus filhos. Meu primeiro filho era um bebê que chorava muito e acredito que essa foi a maneira que conseguimos. Mas tive uma grande sorte de ter um pediatra – a mesma pessoa que me incentivou e me convenceu de que devia fazer livre demanda – falar que eu devia parar de amamentar quando ele fizesse 1 ano e 3 meses.

Sei que o tema é delicado. Não quero entrar na polêmica. O que quero é exatamente o contrário. Abrir uma reflexão para o tanto que estamos – como geração – criando polêmicas, grupos, lados. No caso da maternidade, conheço mães maravilhosas que simplesmente não conseguiram amamentar. A vida também é aquilo que acontece com a gente, não é? Não é só o que queremos.

Quando entendemos que nada é perfeito, cobramos menos de nós mesmos e de nossos filhos. Precisamos assumir, como adultos que somos (em idade pelo menos), que já vivemos o suficiente para saber que não existe o grupo dos bons e o grupo dos maus. Isso é infantil e narcisista. Pode ter certeza, quando uma mulher começa a fazer um belo discurso sobre a amamentação é porque ela teve condições – físicas, emocionais e financeiras para fazer isso. Mas ela não enxerga isso e o que fica claro para quem está ouvindo o discurso é “existe o grupo dos bons (mães que amamentam) e dos maus (mães que não amamentam)” e em qual grupo você acha que ela se inclui?

Ser mãe, ser pai é uma oportunidade maravilhosa de evoluir. De virar adulto. Educação é auto educação. Por isso é tão importante refletir, se questionar. Ao invés de querer repostas, se fazer perguntas. Aqui vão algumas:

Qual é o propósito de viver obcecado com a ideia de dar perfeição aos filhos? Qual será a consequência de se viver a primeira infância (e não só) sob essa falsa mensagem de perfeição? Como disse Rubem Alves: “Educar é mostrar a vida a quem ainda não a viu.” Pois então qual será a imagem da vida que terão depois de receber essa apresentação feita através dessa lente de pretensa perfeição? Podemos pensar que essa ansiedade é interna dos pais e apenas projetada nos filhos. Com isso vamos enxergar que por detrás dessa lente que só quer ver abundância e maravilha existe um espelho côncavo, um vazio interno dos pais, então a qual dos lados estarão essas crianças olhando?

Como disse a psicanalista Julieta Jerusalinsky: “poderíamos trocar a palavra culpa por responsabilidade”.

Talvez por trás de pais que dão em excesso, existam pais que oferecem um excesso de nada. A vida das crianças é preenchida com coisas, eventos e atividades enquanto os adultos responsáveis estão ansiosos com o silêncio que reside no seu mundo interno. Os pais talvez estejam tão inseguros com o senso de valor próprio e fora de contato com seu próprio ser que compensam esta lacuna criando a ilusão de perfeição através das crianças. Esta implacável projeção das ansiedades internas nas crianças faz com que elas paguem um preço muito caro. Parece ser uma leitura possível, enxergar que – do ponto de vista psicanalítico – o sentimento de insegurança, de falta de mérito, a baixa auto estima e falta de propósito e autenticidade dos pais, produz uma geração com necessidade de excessos e ideia de abundância.

É bastante comum a gente ouvir “eu prefiro pecar pelo excesso que pela falta”. O que eu tenho visto nos seminários clínicos que participo é que o excesso algumas vezes é pior do que a falta. Pois em psicanálise sabemos que é a falta que produz seres desejantes. (onde não há falta, não há desejo)

O raciocínio da geração que acredita que é preciso ser feliz o tempo todo e que os filhos também, faz pais que muitas vezes mimam demais os filhos. Talvez por não conseguirem lidar com suas próprias frustrações, querem ver nos filhos o retrato da plenitude – onde nada falta. Ou onde a falta interior, é esquecida por um instante. Nem que para isso seja preciso abdicar de noites de sono sem fim. Ou para não ter que se a ver com a demanda interna, reprime-se essa demanda. Abre-se mão das noites de sono em nome da livre demanda do filho.

No meio do século XX, o psicanalista inglês Donald Winnicott inventou uma frase para ajudar pacientes ansiosos que estavam fazendo o melhor que podiam, mas que se preocupavam constantemente sobre estarem longe de serem pais perfeitos. O real objetivo, disse Winnicott, não era ser ideal em todos os sentidos, mas apenas ser “bom o suficiente”. Segundo o autor, uma criança não precisa de um pai perfeito. Ela precisa de um pai ordinário, um tanto falho e bem-intencionado. Isso será “bom o suficiente”.

Winnicott reassegurava pais torturados por um ideal inatingível: pessoas que estavam julgando duramente as próprias vidas e a si mesmos por parâmetros que jamais poderiam alcançar. E – ironicamente – esses tipos corriam o risco de ser pais menos calorosos e naturais porque estavam constantemente ansiosos sobre não serem perfeitos. Winnicott estava dizendo que relações humanas podem parecer bem ruins e, ainda assim, estar indo bem, considerando a regra.

Termino com uma citação que pode nos indicar uma melhor saída para esse alto índice de crianças medicadas na nossa sociedade:

Lacan constata na clínica que o lugar da criança na estrutura familiar é sempre um lugar sintomático. A criança é alvo de projeção dos ideais, das frustrações e dos problemas dos pais. Conclusão: o lugar do sintoma é a criança e o lugar da doença (causa) está nos pais. Disso decorre com evidência que são os pais que precisam ser tratados e, tratados, os problemas (sintomas) das crianças consequentemente se dissiparão.

Algumas palavras do Guimarães Rosa, porque elas sempre acalmam:

“Que isso foi o que sempre me invocou, o senho sabe: eu careço de que o bom seja bom e o ruim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza. Quero os todos pastos demarcados. Como é que posso com este mundo? Este mundo é muito misturado.”

Por Cris Leão

Foto: Getty Image

9 pensamentos em “Com pais infantis qual é o lugar da criança?

  1. Oi Cris,

    Você já leu o livro da Laura Gutman, A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra? Tudo a ver com frustrações e uma visão bem interessante de como o bebê é o *porta-voz* das reais demandas da mãe.

    Beijos,

    Andreia Alcantara Mobile: 027 976 6221 E-mail: andreia.aldeia@gmail.com

    • Oi Andreia, já ouvi falar mas não li. Os textos que já escrevi no blog na temática Antroposofia falam também sobre isso. É o que Rudolf Steiner quer dizer com “toda educação é auto educação”. Também é o tema dos textos que já traduzi da Dr. Shefali e coloquei aqui no blog. Dá uma olhada. Beijos

  2. Obrigada! E parabéns pela lucidez, pela linguagem tão acessível e pela generosidade em compartilhar suas ideias das quais comungo tanto. Um beijo agradecido e um abraço apertado, Camila

  3. Interessante, sua fala sobre os julgamentos, como a amamentação, me lembrou algo que se estuda em design. Onde é comum o uso do termo “solução”, que pode ser entendido como “o que pode ser feito dentro dos recursos disponíveis e circunstâncias vigentes”. Isso ajuda a aceitar que é possível existirem diferentes soluções para o mesmo problema. E soluções diferentes admitem custos e resultados diferentes também. O que leva a responsabilidade em vez da culpa porque é preciso assumir as consequências de cada escolha. Eu gosto porque ajuda a tornar as decisões mais transparentes e aceitar que a perfeição pode indicar uma direção, mas nunca um resultado.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s