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De todas as coisas que amo comer, mamão é uma das que amo mais. Além de ser lindo aquela cor laranja. Até os caroços eu como. E são picantes. Bom, quando estava grávida – as duas vezes – minha vontade de comer mamão era maior ainda. Comi todos os dias.

Diz as pessoas e as pesquisas que o bebê adquire o paladar e o gosto pelas comidas da mãe ainda na gravidez. Certo? Nesse caso as mães já seriam responsáveis pelo paladar da criança na gravidez. Aqui em casa, a história foi outra. Meus filhos não só não gostam de mamão, como odeiam.

Nenhuma pretensão de ir ao fundo no tema “Com quantos mamãos se faz uma repulsa” só usei esse exemplo para dizer que nós mães precisamos, pelo menos de vez em quando, assumir a ideia – bastante provável – de que aquilo que o filho se tornou ou vai se tornar, nem sempre veio de você. Filhos não são nosso produto.

Esse modo de pensar cria um espaço para uma possibilidade muito interessante também. Você assistir, ao invés de dirigir o tempo todo, a pessoa que seu filho (a) já é. Dr. Shefali fala muito sobre isso. Já escrevi sobre isso aqui.

Eu sei que parece complexo e confuso: você dirige a hora de dormir, conduz o que ele vai comer (já que ele ainda não faz o supermercado da casa), mas não pode dirigir como ele se comporta? Sim, é isso mesmo. Nossos filhos não são nossa propriedade. Somos ao contrário seus educadores, seus protetores, seu guardiões. Pensando dessa forma e com estas palavras acho que fica claro o trabalho que o ego executa. Porque a diferença entre um guardião e um diretor é que o guardião trabalha para guardar, proteger, não é o chefe, não tem o poder. Ele é base, não aquilo que está por cima.

Quer ir mais ao fundo nessa tema? Separei algumas passagens do livro que já comentei aqui algumas vezes “O Despertar de uma nova consciência” Eckhart Tolle:

Se você tem filhos pequenos, ofereça-lhes toda a ajuda, orientação e proteção que estiver ao seu alcance. Contudo, mais importante ainda é: dê-lhes espaço – espaço para que possam existir. Você os trouxe ao mundo, mas eles não são “seus”. A crença “Eu sei o que é melhor para você” pode ser adequada quando as crianças são muito pequenas; porém, à medida que elas crescem, essa idéia vai deixando de ser verdadeira.

PATERNIDADE E MATERNIDADE CONSCIENTES

Muitos filhos guardam raiva ou ressentimento dos pais. A causa disso costuma ser a falta de autenticidade do relacionamento. O filho tem um profundo desejo de que o pai e a mãe estejam presentes como seres humanos, e não como papéis, não importa com que grau de consciência essa interpretação esteja sendo feita. Podemos estar realizando tudo o que é certo e da melhor forma possível para nosso filho – ainda assim, fazer o melhor não é o bastante. Na verdade, fazer nunca é o suficiente se negligenciamos o Ser. O ego não sabe nada do Ser, porém acredita que acabaremos sendo salvos porque “fazemos”. Quando estamos sob seu domínio, acreditamos que, realizando mais e mais, vamos acabar acumulando “feitos” suficientes para nos sentir completos em determinado momento no futuro. Não, não vamos. Tudo o que conseguiremos com toda essa ação será nos perder de nós mesmos. A civilização inteira está desorientada por fazer aquilo que, por não ter raízes no Ser, se torna inútil. Como levamos o Ser para a vida de uma família atarefada, para o relacionamento com nossos filhos? A chave é lhes dar atenção.

Existem dois tipos de atenção. Um deles podemos chamar de atenção baseada na forma. O outro é a atenção sem forma. A atenção baseada na forma está sempre vinculada de alguma maneira a fazer ou avaliar. “Já fez sua lição de casa? Coma tudo. Arrume seu quarto. Escove os dentes. Faça isso. Pare de fazer aquilo. Vamos logo, apronte-se.” Qual é a próxima tarefa? Essa pergunta resume muito bem aquilo com o que a vida familiar se parece num grande número de lares. A atenção baseada na forma é necessária e tem seu lugar. Porém, se ela for tudo o que existe no relacionamento com os filhos, é porque a dimensão essencial está faltando e o Ser se torna completamente obscurecido pelo fazer.

A atenção sem forma é inseparável da dimensão do Ser. Como ela funciona? Enquanto observamos, escutamos, tocamos ou ajudamos nossos filhos, permanecemos atentos, calmos, inteiramente presentes tudo o que queremos é aquele instante como ele é. Dessa maneira, damos lugar ao Ser. Nesse momento, se estamos presentes, não somos o pai nem a mãe, e sim a atenção, a calma, a presença que está escutando, olhando, tocando e até mesmo falando. Somos o Ser por trás do fazer.

O anseio por amor que existe em toda criança é o anseio por ser reconhecida não no nível da forma, mas no plano do Ser.

Quando os pais distinguem apenas a dimensão humana das crianças e negligenciam o Ser, elas sentem que o relacionamento é insatisfatório, que algo essencial está faltando. Assim, poderão acumular dor e, algumas vezes, até um ressentimento inconsciente em relação aos pais. “Por que vocês não me reconhecem?” Isso é o que a dor e o ressentimento parecem dizer. Sempre que alguém nos reconhece, isso traz a dimensão do Ser mais plenamente para o mundo por meio de nós dois. Esse é o amor que redime o mundo. 

 

Queridos leitores desse blog, ao longo desses 5 anos, me tornei psicanalista. Ao longo da minha vida – desde os 19 anos – faço algum tipo de terapia e agora mais do que nunca, eu não consigo pensar em um momento mais rico para se tratar mentalmente do que a fase com filhos pequenos. É quando muita coisa está sendo mexida na nossa vida que temos a maior chance de fazer uma bela faxina. Recomendo fortemente. Damos tanta atenção aos aspectos físicos e estéticos da vida que acabamos esquecendo que, se não estamos bem internamente, nosso olhar nunca vai conseguir admirar a beleza que está na frente dos nossos olhos.

Com carinho,
Cris Leão

 

Foto: Nick Sebastian

8 pensamentos em “Como tirar do ombro o peso que não é dele.

  1. Que texto excelente e no meu momento certo. Reforçou tudo que estou pensando. Por ocasião da morte do meu pai, iniciei um ciclo de meditação de 21 dias do Deepak Chopra. E no exercido de ontem, minha reflexão foi justamente o quanto controlo meu filho de 7 anos mas tambem quão pouco espaço eu dou a ele para Ser! Estou no caminho. Gratidão, adoro seus textos!

  2. Esse blog é inspirador. Quero muito agradecer por compartilhar esse texto em especial. Veio justo com um suposto diagnóstico de Transtorno Opositivo Desafiador do meu filho de 3 anos. E isso me fez refletir o quanto falta do meu Ser na vida dele e tb na da minha filha de 10 anos. Tenho dado quase que só a atenção baseada na forma, apesar de tanto estudo de autoconhecimento nos últimos quase 3 anos… preciso acelerar a minha transformação, antes que eles cresçam.

  3. Concordo 100% sobre a necessidade de terapia para pais. Tempos atrás assisti um curso de preparação para adoção que incluiu uma constelação familiar. Realmente boa parte das dinâmicas do curso são aplicáveis à criação de filhos, sejam biológicos ou adotados. Saí do curso com a impressão que todo mundo que pensa em ser ou vai ter filhos deveria fazer algo parecido.

      • Eu era um tanto descrente de eventos terapêuticos curtos e, felizmente, queimei a língua. Ouvi dizer que o judiciário tem feito bom uso em questões familiares e de endividamento.

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