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Li uma matéria muito interessante em uma revista de arte inglesa chamada Elephant. A ideia da matéria provocativa é a de que – já que a arte está sendo feita cada vez mais pelas máquinas (os artistas têm a ideia mas quem produz é uma máquina) – também a outra criação humana – os seres humanos – vão no futuro ser criados por máquinas.

Falando assim – de forma bem resumida – parece uma pouco dramático. Mas por outro lado, não é de fato o que está acontecendo?

Em SP em uma importante avenida há um grafite com um bebê andando em direção a uma tela e no balão de fala está escrito: Mamãe!

No momento da construção da família, lá no passado, o desejo de ter filhos era motivado pela circunstância da vida. Uma delas era que seria preciso ter filhos para dar sequência a produção da família (lembrando que no passado poucas pessoas viviam mais de 50 anos). Em uma situação menos abastada, os filhos seriam agentes da cultura de subsistência. Quanto mais, melhor para plantar e lidar com a vida dura do campo.

Depois da revolução industrial, surgiram os empregos e os filhos deixaram de ter o papel que tinham até então.

Mas então para quê filhos?

Da mesma forma – te pergunto – para que arte? Para que algumas pessoas passam dias inteiros pintando ou escrevendo, sem ser remunerados, sem ter ninguém cobrando, ninguém pedindo. Para quê?

O escritor Saramago dizia: “Escrevo porque não gosto do mundo em que vivo”.

A ideia de criar, de criação pode trazer então uma esperança nova na vida. Algo além do mecânico, do que se conhece até então. Mas é preciso coragem.

Rudolf Steiner (a pessoa que me motivou a criar este blog) lá no começo de 1900 disse que no futuro as pessoas iam morrer de tédio. Porque os remédios iam lhes tirar a dor, sem dor iam deixar também de sentir.

O futuro (dele) chegou. No campo da criação dos filhos é comum ouvirmos as seguintes frases hoje em dia: “Já fiquei com ela de 6 às 8h agora fica você.” “Já fiquei o final de semana inteiro, agora você se vira.” “Eu e meu marido mal nos vemos mais, a gente só passa o bastão um para o outro.” “Eu e minha esposa fazemos revezamento.”

A última soa como corrida, daquelas coisas que você faz querendo acabar logo. As outras parecem uma obrigação ruim, como tal ela é cronometrada e a conta que este cronômetro aponta, precisa ser apresentado a alguém. Seja o pai, seja a mãe, seja a sociedade como um todo.

Sendo adultos a gente percebe quando alguém fala com a gente e não está muito interessado, não percebe?

Sentimos quando alguém está conosco pensando no próximo programa que vai fazer – e este sim vai ser muito legal. Não percebemos?

Imagina se você é uma criança? Imagina se este outro é alguém com quem você passou o dia (ou a semana) esperando encontrar?

Daí surge o comentário: “Mas no passado as crianças não tinham essa bola toda. Não tinha isso dos adultos darem atenção às crianças.”

Verdade. Mas de que passado estamos falando? Daquele onde tudo, tudo mesmo era diferente? (Fralda de pano, roupa lavada à mão) Então isolamos um fato e pensamos “ah, a criança não tinha essa bola toda.” Sabe o que a criança tinha? Tinha outras crianças. Coisa que hoje em dia não é a realidade de muitas – filhos únicos, ou que ao invés de viver em uma rua tranquila podendo brincar com os vizinhos, vivem em um apartamento sem muito contato social. Elas também tinham rotina, coisa que qualquer médico pediatra vai confirmar que elas precisam. Não vou dizer que o passado foi perfeito, mas a consequência do que estamos fazendo no presente só vamos ver no futuro. Aliás, vamos ver na prática qual é a consequência de uma infância na frente de uma tela.

Então podemos refletir: por que ter filhos hoje?

Para entregar, executar mais uma meta social? Provar mais um item de sua eficácia nessa curta experiência de vida?

Ou porque você sente que sim? Mesmo entendendo toda a trabalheira que isso vai provocar na sua vida, você entende e escolhe que melhor com eles do que sem. Se essa é a sua resposta, parece injusto que a experiência escolhida de repente vire um fardo. Uma mala pesada onde o que você mais busca é alguém para segurar – pelo menos a metade da mala com você.

Não quero dizer que a experiência de acordar cedo, ou passar a noite sem dormir – e tantos outros episódios comuns na vida de quem tem filho – deve ser encarado como prazer e alegria. Não é isso. Mas o ponto é justamente para quê tanto prazer e alegria. Por que o esforço, a dor, a angústia não podem ser suportados em nome de uma escolha?

Penso que a busca incansável pelo prazer como única meta de vida – o famoso “eu mereço” – é o que mais tem nos empobrecido como raça humana.

É justamente ele a causa de tantas drogadições, ansiedade e angústia. Porque viciados com o prazer, qualquer fila de 10 minutos no aeroporto parece um inferno. Quando eu era criança – sim, o mundo era muito diferente – minha mãe levava os 5 filhos de férias para Diamantina. De ônibus, em uma estrada de terra a viagem durava mais de 5 horas. Hoje toda vez que vou para Minas com meus filhos – saindo de SP – em um vôo que vai durar 50 minutos – morro de vergonha dos adultos e seus chiliques por qualquer coisa.

Como na matéria que li na revista Elephant – queria deixar a reflexão de que será que estamos perdendo a noção do que é que nos torna humanos? A começar pela forma como estamos nos relacionando com nossos filhos. Que muitas vezes parece mais uma máquina de horário de ponto.

Como dizia antigamente, não vai adiantar chorar pelo leite derramado.

Pessoas que foram maltratadas, aprendem a maltratar.

Pessoas que foram abusadas, aprendem a abusar.

Pessoas que não foram amadas, não sabem amar.

Talvez a época de tantas “selfies” a gente possa gastar um tempinho olhando no espelho para nós mesmos e tentar enxergar o que estamos fazendo com nossas escolhas.

Se você chegou até aqui e ainda não tem filhos, pense e tente identificar seu sentimento quanto a isso. Filhos dão trabalho. Não vá soltar o famoso “ninguém me avisou que seria assim!” Eu estou te avisando. Mas pergunte às pessoas próximas. Repare no olhar de cansaço de quem tem filhos pequenos. Se você não está disposto a ter trabalho cuidando e criando uma criança, acredite, o mundo mudou e você pode não tê-los. Já é de grande ajuda para esse mundo de coração partido.

Porque sabe o que eu penso? Estamos todos muito cheios de ira. Diferente da raiva, a ira nos paralisa, faz tudo parecer inimigo, faz todo dia parecer um convite para se armar ao invés de se amar e de dar amor.

Por isso quero terminar com um poema do Drummond.

Para a gente lembrar do sentimento gostoso que é o amor. Está aí uma qualidade humana que as máquinas ainda não conseguiram copiar. Será que queremos abrir mão dele?

O Amor Bate na Aorta

“Cantiga de amor sem eira

nem beira,

vira o mundo de cabeça

para baixo,

suspende a saia das mulheres,

tira os óculos dos homens,

o amor, seja como for,

é o amor.

 

Meu bem, não chores,

hoje tem filme do Carlito.

 

O amor bate na porta,

o amor bate na aorta,

fui abrir e me constipei.

Cardíaco e melancólico,

o amor ronca na horta

entre pés de laranjeira

entre uvas meio verdes

e desejos já maduros.

 

Entre uvas meio verdes,

meu amor não te atormentes.

Certos ácidos adoçam

a boca murcha dos velhos

e quando os dentes não mordem

e quando os braços não prendem

o amor faz uma cócega

o amor desenha uma curva

propõe uma geometria.

 

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro

o amor subiu na árvore

em tempo de se estrepar

Pronto, o amor se estrepou.

Daqui estou vendo o sangue

que escorre do corpo andrógino.

Essa ferida, meu bem,

às vezes não sara nunca,

às vezes sara amanhã.

 

Daqui estou vendo o amor

irritado, desapontado,

mas também vejo outras coisas:

vejo corpos, vejo almas

vejo beijos que se beijam 

ouço mãos que se conversam

e que viajam sem mapa.

Vejo muitas outras coisas 

que não ouso compreender.” 

 

Por: Cris Leão

5 pensamentos em “O amor na era da tecnologia

  1. Você sempre nos presenteando com seus lindos e sábios textos. Obrigada Cris. Presente de final de semana para refletir. bjs,

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