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Acabei de ler um livro que é a tese de doutorado da Vera Iaconelli. Chama-se “Mal-estar na maternidade: do infanticídio a função materna”. Uma literatura e um tipo de conhecimento muito importantes para as mulheres em geral. Ela apresenta um caso clínico, mas aproveita para fazer uma análise antropológica do lugar da mulher e da maternidade em diferentes contextos sociais. Com isso aponta para como e quanto este outro (o social) é importante e está presente na cena. Alterando (para o melhor ou para o pior) os sentimentos e os desejos da mulher/mãe. Com isso, ela desmistifica o tão falado instinto maternal dizendo que não há instinto mas sim um aprendizado que é passado de geração em geração (ou entre vizinhos, entre amigos, na comunidade). Portanto, a presença do que chamamos de “instinto” aponta mais para que tipo de grupo a mulher vivenciou sua história, se ela teve com quem aprender do que uma suposta aptidão nata a ser mãe. Já pensou como isso pode ajudar as mulheres que se culpam por não sentir instinto nenhum?

Como é uma tese de doutorado em psicanálise talvez não seja tão acessível, mas de qualquer maneira, é público. Está aqui .

No entanto, grifei muitas partes e algumas delas vou citar aqui neste post e oferecer a todas vocês. Na verdade, compartilhar o presente que este livro foi para mim, assim como são as aulas com a Vera.

*Grifos meus e algumas passagens não se tratam da sequência do texto original.

“Nunca antes a maternidade revelou-se tão contraditória. Idealizada na Pós-Modernidade, a maternidade concorre diretamente com outras aspirações, das quais as mulheres não querem ou não podem se furtar. O que parece à primeira vista ser a possibilidade de operar diferentes escolhas, acaba por revelar um imperativo de não perder nada.”

“A valorização social se dá para as mulheres que conseguirem ser, ao mesmo tempo, boas profissionais, boas mães, mantendo-se jovens. Não se pode perder nada, portanto não se pode de fato escolher.”

“O tecido social, por sua vez, não sustenta aquilo mesmo que preconiza. Basta um exemplo corriqueiro: a mesma mulher que deve amamentar exclusivamente no seio até os seis meses (leia-se: ser uma boa mãe), deve retornar ao trabalho em quatro meses (boa profissional) e, ao mesmo tempo, espera-se que perca o peso acumulado na gestação (ser uma mulher boa?!)”

“As idealizações, como sabemos, se prestam a negar a ambivalência, que não tardará a aparecer em outras cenas. Nunca os bebês foram tão preciosos nem tão maltratados, de acordo com a legalidade e a ética.”

Sobre uma cultura que – por ser de consumo – coisifica mães, partos e bebês: (tornando genérico ao oposto de indivíduos, sujeitos)

“Assim como a fabricação de bens de consumo tornou-se uma metáfora central de organização da vida social, também se tornou a metáfora dominante para o nascimento: o hospital tornou-se fábrica, o corpo da mãe tornou-se máquina, e o bebê tornou-se produto de um processo de fabricação industrial. (DAVIS-FLOYD)”

“O argumento de que as mulheres querem cesarianas porque não querem sofrer as dores do parto ou de que querem partos naturais porque querem se sentir poderosas esbarra na mesma questão: quem pode dizer de antemão o que quer cada mulher? Não estaríamos diante da mesma polêmica feminista ultrapassada que supõe, de forma genérica e arbitrária, que as mulheres preferem trabalhar a ter filhos numa contraposição à afirmação anterior de que as mulheres preferem ter filhos a ter que trabalhar? As mulheres? Que mulheres? Obviamente o que não está contemplado é que cada mulher possa falar em nome próprio e que o acesso às informações, beneficiadoras de sua escolha, lhe seja facilitado da forma menos tendenciosa possível.”

“Também seria ingênuo supor que todas as mulheres que escolhem o protagonismo do parto natural o fazem a partir do desejo e não por imposições grupais do ideário naturalista. Só o sujeito pode nomear de que lugar faz sua escolha e, para isso, ele precisa ser escutado.”

Poderia escrever vários textos para falar deste livro e das aulas que estou fazendo com a Vera no Instituto Gerar mas dessa vez, queria propor algo diferente. Ao invés de oferecer minha escrita, quero oferecer minha escuta.

Abri mão da minha carreira de redatora para virar psicanalista. Este blog me acompanhou nesse processo – porque coincide com os anos de formação. Mas agora, de um outro lugar, ando refletindo sobre coisas que escrevi aqui.

Para o texto existir ele às vezes assume formas duras. Para a frase não se alongar, ela precisa se encerrar. Para o texto dizer alguma coisa, é preciso abrir mão de dizer todas as coisas. Não há diálogo possível. Não há escuta.

A psicanálise me faz pensar o contrário. Portanto dessa vez quero escutar. Porque se a ideia aqui sempre foi a de ser companhia para as mães, é esta a companhia que quero oferecer agora.

Faço meus atendimentos na Avenida Faria Lima em São Paulo. Se você estiver precisando ser ouvida, eu estou disposta a escutar. Manda um e-mail para antesqueelescrescam@gmail.com e combinamos um hora.

Quem sentir mais à vontade em fazer isso em grupo, pode escrever também. Quem sabe temos gente suficiente para formar um grupo?

Com carinho,

Cris Leão

Ilustração: Alessandra Olanow

3 pensamentos em “Segura esse presente

  1. Ah…. se estivesses em Curitiba…
    Adorei o texto e gosto muito do que escreves!
    Sucesso e prosperidade pra você!

  2. Que delicia de convite! Essa troca será muito preciosa. Pena que moro em Brasília. Agradeço pelo texto e deixo um abraço de gratidão por tantas palavras maravilhosas.

  3. Que presente maravilhoso! Além dos seus textos agora poder contar com mais um lugar de escuta! Se morasse aí pertinho, com certeza passaria para conversar pessoalmente! Muito sucesso p vc! Juliana

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