Home

Eles crescem e você continua sendo a mãe deles. Talvez, a única mãe que eles têm.

Outro dia minha filha fez uma coisa errada e magoou uma amiga da escola. Quando fui confrontada com as consequências do que tinha acontecido e, eu nem sabia que tinha acontecido, lembrei – de supetão – que minha filha ainda tem 10 anos, logo ainda é uma criança.

Nossa cultura prima a velocidade, a agilidade, as execuções e os resultados rápidos. Neste contexto educar um filho e até mesmo ser uma criança fica um pouco fora de quadro. Sempre me assusto quando amigos falam “você não tem mais crianças em casa”, “seus filhos agora já se viram sozinhos”. Por um lado me assusto, mas por outro estava me aproveitando disso. Quem não quer uma folga depois de 13 anos?

É possível ter uma folga, só não é possível achar que eles – mesmo com 13 anos – não precisam mais de regras, de limites e mais do que isso, do olhar de um adulto.

Outro dia tive uma aula com uma psicanalista que passou um tempo pesquisando a maternidade e parentalidade de um grupo indígena no Brasil. Incrível como que, mesmo sendo brasileiros, desconhecemos a cultura do povo que é nossa origem, né? Enfim, entre tantos relatos bonitos, ela disse que as crianças são criadas sem punição nesta tribo. A criança cai, chora, bate e tudo isso é visto com naturalidade. Claro que o espaço, o lugar, marca e ajuda a definir uma cultura. Imagina como o espaço onde estão é livre, sem copo de vidro, sem objetos, sem paredes brancas, sem janela do décimo andar. O espaço onde vivem é um convite para esta liberdade. Já para quem como eu vive uma cidade cheia de perigos e de pressa, as crianças são criadas de outra forma.

Uma amiga uma vez disse: “Não aguento mais São Paulo, as crianças são criadas igual frango. Tem sempre alguém as guiando pelo braço, elas mal sabem andar.”

Digo isso para dizer do jeito esquisito que vivemos. Para lembrar que no dia a dia vamos seguindo sem nem perceber muito bem o que estamos fazendo. Pois o convite deste texto é parar um pouco para pensar no que se está fazendo agora que “eles cresceram.”

Estão mais distantes e falando menos? A resposta rápida é se afastar mas talvez isso seja o que você menos deve fazer. Experimente se aproximar, mas de outro jeito. Um jeito não inquisidor.

Estão menos amorosos? A resposta rápida é deixar pra lá. Mas talvez você possa apresentar uma nova maneira de se relacionar com afeto. Se a velha maneira não serve mais, faça um ajuste.

Eu despertei para o fato de que eles cresceram mas continuam tendo só eu de mãe. Estou encontrando uma nova maneira de me fazer presente. Como? Com nossa cultura de velocidade e resultados talvez algumas coisas bem simples passem desapercebidas. Posso falar uma delas? As pessoas (filhos incluso) gostam de ser vistas e ouvidas. Outro dia promovi um piquenique (no quarto mesmo) e eles amaram. Consegui um boa conversa.

Talvez grandes conflitos aconteçam só para se chegar a este objetivo. O também conhecido como “chamar atenção.”

Quando eles crescem – mais do que nunca – precisamos entender que eles são sujeitos. Não estão aqui apenas para cumprir com o que definimos para eles. Não são apenas uma extensão de nós mesmos. Não vão corresponder a todas as nossas expectativas. Nem vão necessariamente repetir nossos erros. Enxergar eles como outros já é uma grande coisa.

Tentar silenciar nossas vozes de preocupação – que muitas vezes são vozes que falam de nós mesmos, da nossa relação com nossos pais, do nosso passado – para escutar este outro sujeito. Este sujeito que para ser livre e ser outro de verdade, precisa primeiro ser reconhecido como tal.

A pressa vem fazendo com que “eu sei” seja um raciocínio formulado rápido demais. Concluímos rápido demais. Mas se nosso lugar na vida é ser peregrino, nosso lugar como pais deve ser o de ser um eterno aprendiz. Com nossos erros, com alguns pequenos acertos, com conversas e trocas – sempre, sempre, sempre – vamos saindo do lugar. Mas que não seja só pela pressa de sair, mas com a certeza de que se está vivendo. “Tudo passa. Escolha bem a maneira como quererá passar.” Pe Fábio de Melo.

Toda educação começa com auto educação, certo? Por isso vamos lembrar dos índios que ao mesmo tempo que são criados sem punição, são criados com responsabilidades. Eles trabalham, cuidam dos menores. Para que a responsabilidade chegue até as crianças, vamos refletir o que nós adultos estamos fazendo dela?

“A pessoa livre é aquela que está consciente das necessidades que a compelem.” Espinosa

Pode ser que a fase do “por que” tenha passado, mas as perguntas continuam com eles. A conversa tem que continuar.

Cris Leão

Pintura: “Afternoon Stroll” por Pino

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s