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A vida não tem grand finale. Escutei essa frase da psicanalista Vera Iaconelli neste sábado em uma aula. A Vera tem doutorado pela USP. As quatro horas de aula pareciam uma orquestra tocando tamanha precisão das palavras. No entanto foi essa frase curta que mais me marcou. Vou explicar o que tirei dela.

Normalmente passamos tempo demais da vida pensando e sofrendo por aquele casamento, filho, emprego que não temos. Ou passamos tempo demais da vida sofrendo pela ideia de tentar ser perfeito (no casamento, como mãe, na carreira). Não vai dar para ter tudo, pessoal. De forma geral, não vai dar. Talvez seja melhor já encarar isso logo de cara. Porque aí a conversa com o filho a noite (depois de trabalhar o dia inteiro) pode ser uma conversa honesta (livre de pressões internas). Ou porque você entende que está sem casamento agora, mas olha que maravilha, tem outras coisas boas na vida.

O ideal nos pressiona a dar o nosso melhor. Mas é preciso entender que nem sempre é só o nosso melhor que está em jogo. Ou que a vida está dando em troca vários prêmios por você dar o seu melhor, você é que não vê, porque só mira naquilo que não tem.

Sabe uma coisa que eu não tenho e fico passada com as pessoas que têm e não enxergam? Uma mãe, uma sogra, um irmão, um padrasto, uma tia que faça companhia para meus filhos. Isso vale muito. Eu posso te garantir. Outras fontes de afeto, outras referências para as crianças, outras pessoas se preocupando e pensando junto. Uma outra pessoa para ensinar a nadar, para ir buscar na escola, para ir assistir a uma apresentação quando nem você nem seu companheiro conseguem. Gente, isso tiraria uns 25% dos meus cabelos 100% brancos.

Claro que fui sempre me relacionando com pessoas e tentando criar comunidades que se auto ajudam e isso deu certo muitas vezes. Mas não é a mesma coisa. Nem vou tentar explicar muito porque eu sei como o privilégio cega. Sei que muitas vezes você pensa “ah, só busca na escola uma vez por semana”, “só me ajudam no final de semana”, “ajudam, mas é só quando eu peço”. Faça um esforço para pensar como seria sua vida se morasse longe dos seus pais, irmãos, amigos de longa data. Visualize a cena. Se viu que seria pior, manda um muito obrigada para esse pessoal aí que vem facilitando sua vida e a de seus filhos.

A vida é difícil e acho que todo mundo já percebeu. Mas um dificultador complicado é criado por nós mesmos. Ele se chama ego e a vontade de ser incrível. Gosto muito de uma escritora americana, Glennon Doyle. Ela fala: não tente ser incrível, tente ser uma boa pessoa.

A vida não tem grand finale. Tente ser uma boa pessoa.

Esse ano está difícil para muita gente. Eu sei. Talvez esteja sendo para você também. Então vamos lá, vamos pensar qual foi a última vez que você comemorou uma coisa boa da sua vida? Qual foi a última vez que aquela roupa, aquela toalha de mesa guardada para um momento especial foi usada? Qual foi a última vez que você ouviu um elogio e ficou feliz sem pensar “ah, mas…” Qual foi a última vez que um dia terminou sem você se fazer uma auto crítica mas se fazendo um auto reconhecimento positivo? Qual foi a última vez que você agradeceu alguém de verdade?

Gratidão. Talvez seja a possibilidade única da gente tirar o melhor proveito dessa vida vivendo da única maneira possível: aqui e agora.

Faço um convite a tentar parar de buscar as hipérboles, as proparoxítonas e abraçar com verdade o sujeito e o verbo.

Quando meu filho mais velho começou a escrever, a primeira coisa que escreveu foi um poema que era assim:

A ave voa

O tigre ruge

O papagaio fala

A iguana coloca a língua pra fora

Eu sei que para os animais é mais fácil viver. Eles não têm consciência. Eles não ficam pensando “Mas a Fifi não devia ter me olhado daquele jeito.” Não vamos conseguir calar as vozes da consciência, da dúvida, do desapontamento. Mas podemos nos inspirar um pouco na simplicidade deles.

Ninguém vai te dar um troféu por ser uma mãe maravilhosa.

Aquele super reconhecimento profissional pode nunca acontecer.

O casamento perfeito talvez não aconteça e se acontecer, não é eterno.

Então para que aceitem meu convite de viver a vida de forma mais calma, dou uma instrução: ao invés de colecionar frases de aniquilamento, de destruição (você está velha, ridícula, você é um peso, seu braço está gordo, etc) comece a colecionar as coisas boas que têm na vida. Assim você vai criando um escudo para se proteger quando essas ideias ruins aparecerem. Vá colecionando os elogios que as pessoas te fazem. Eles podem ser uma base firme da auto estima. Se perceber que algumas palavras se repetem (você é muito inteligente, fala bem) quem sabe não pode acreditar? Já pensou? Por que as críticas são o que mais gostamos de guardar?

Deixe o excesso de crítica e a necessidade de máxima pontuação para os atletas olímpicos. Eles têm (alguma) chance de receber uma medalha no final, nós não.

“O que se leva da vida, é a vida que se leva.”

Minha mãe, que é muito brilhante, me falou outro dia: já pensou se na hora que estivermos morrendo a gente se lembrar do tanto que reclamou do cabelo?

Quero agradecer a todos os comentários que recebo aqui no blog. Eu não consigo responder sempre e nem acho que é necessário porque penso quem escreveu pode não voltar para ler. Mas quero que saibam que leio todos e é muito bom. Quero agradecer também a todas as pessoas que me procuram diretamente para conversar. Eu coloco muito carinho nesses textos. E o carinho volta de alguma forma. Obrigada!

Cris Leão

Foto: poeta Kate Baer (que também foi uma inspiração para este post)

12 pensamentos em “Corremos tanto, para quê?

  1. Você é incrível…. gostaria de ter você ao meu lado diariamente com suas sábias reflexões.. te acompanho desde sempre … e vou continuar vindo aqui… parabéns
    Com carinho….
    C.

  2. Querida Cris! Obrigada pelo texto❤️ Sigo você há tanto tempo. Já compartilhei varios textos e indiquei o blog, mas não costumo comentar. Gratidão por tudo 🙏🏼

  3. Cris, mais uma vez obrigada por uma reflexao excelente! Ando vivendo um dia após o outro e tenho achado ótimo. As medalhas eu coleciono no coraçao: um elogio aqui, outro ali, um beijo de um filho, um muito obrigada, mamae…

  4. Seus textos são preciosos e precisos.
    Simplificando conceitos complexos, traduzindo anseios e angústias em tom afável …. lindo trabalho. Obrigada pelo desprendimento e pela generosidade em trazer para um veículo gratuito tanto carinho. Que todos os bons sentimentos que vc desperta, retornem para o sua vida.

  5. Menina… Como brota cabelo branco… Rsrsrsrs….
    Aposto que você está linda com os seus…
    Saudades sempre.
    Obrigada por mais uma pérola de texto!

  6. Oi Cris, hj durante uma crise de insônia achei seu blog e li uns 30 textos (ainda to lendo na vdd, o q é preocupante pq são 5h da manhã e to acordada desde as 3h). Eu gostei mto do que li. Vivo o dilema da escola. Minha filhas tem 4 e 2 anos, a de 4 precisa mudar de escola ano que vem (não formará turma na escola q esta hj q é é apenas infantil). Aí mora meu conflito, atualmente ela está em uma escola construtivista que eu amo de paixão, que é cara de “casa de vó”, que tem afeto, paciência, carinho e dedicação dos professores. Hj vivo um dilema entre tentar uma filosofia Waldorf (ou similar como Escola da Vila, moro perto) ou uma bilíngue mais “quadradinha” mas que tb tem seu valor, praticidade de já ter o inglês, ensino período semi-integral, e já deixar a criança naquela ambiente mais preciso com “vida real” (o que tb é assustador). O fato é, ocupo hj uma posição de liderança em uma farmacêutica e a chance de eu conseguir me envolver mto c a escola Waldorf e fazer a própria mochila delas é algo próximo de 10% rsrs óbvio q sim, durante FDS e eventos, mas n acho q seria a mais participativa, pelo simples fato do meu trabalho tomar demais meu tempo, e sim gosto de trabalhar e n cogito sair, mas será q essa questão de não conseguir me envolver tanto nas sociedades da escola deveria ser motivo de medo? Ou poderei ver “de tudo” na escola Waldorf? (Considero a WaldorfSP), não serei um peixe fora d’-água e até julgará pelas mães, por ser a sem coração q trabalha 10h por dia e vê as filhas pela manhã/noite/FDS/férias? Enfim, difícil saber não vivendo o ambiente. Vc disse q colocou eles em uma bilíngue, não sei se pode abrir mas gostaria mto de saber qual é. Vc esta feliz? Tendo vivido os dois lados, qual a sua recomendação? Beijos e mto obrigada, seus textos são inspiradores!!

    • Oi Camila, fico feliz que tenha gostado dos textos. Se eu posso dar uma opinião, a opinião é: você sabe o que fazer, é só confiar. Estamos nos desautorizando muito, sabe? Como se a resposta fosse vir de fora. E não vem. Eu gostei muito de ter passado quase 5 anos em Escolas Waldorf. Para mim foi MUITO importante. Mas além de tudo, foi uma escolha possível. Nem meu filho mais velho nem eu nos adaptamos a uma escola no estilo mais “normal”. Com o tempo, aconteceu o contrário. Não tivemos opção de ir para uma Waldorf quando voltamos a morar em SP porque não aceitaram ele na escola. (eu escrevo sobre isso no blog) O que quero dizer é: a gente vai fazendo o que é possível. O que faz sentido. Com o tempo vamos mudando. As crianças vão mudando também. As fases vão mudando (completamente). Por isso, não precisa perder mais nenhuma noite de sono. Suas filhas têm uma mãe que passa a noite sem dormir pensando nelas (e na escola delas). Acho que elas já tem o mais importante. O seu amor. Boa sorte na jornada!

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