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Tanta palavra guardada que eu queria escrever aqui. O tempo e as escolhas não estão deixando isso acontecer. Então vou começar escrevendo sobre isso.

Há um tempo atrás eu fui num retiro de yoga e o mestre disse muita coisa interessante. Uma delas foi: as pessoas querem trabalhar, mas não querem se cansar.

Acredito que podemos pensar nisso no contexto da maternidade também. A pessoa quer ter filho, a pessoa quer cuidar do filho, mas não quer cansar. Parece que ficou feio cansar. Talvez essa cultura com tanta rede social tenha colocado uma ideia no nosso inconsciente coletivo dizendo que só podemos ser felizes e aparecer lindos nas fotos. Não cansamos, deitamos na rede e postamos uma foto. Não estamos exaustos, registramos belíssimos pratos de comida. Não sentimos tonteira depois de noites sem dormir porque temos um bebê em casa, fazemos lindos bolos instagramáveis porque estamos em casa cuidando de um bebê.

Recebi um buquê de flores no dia das mães. Hoje já faz quase 2 semanas que o buquê chegou, algumas flores morreram completamente, outras se transformaram. O buquê hoje é outro. Tem outro conjunto de cores, mas a beleza está lá. Só é outra beleza. Eu olho para ele e vejo muito sobre a vida.

Talvez o cansaço está como este buquê de mais de 2 semanas de vida, precisando ser reconhecido pela sua beleza.

Se o dia inteiro você trabalhou, não é justo chegar ao fim de dia frustada porque não ter conseguido fazer alguma coisa para se divertir. É preciso ver a beleza no trabalho, é preciso ver a beleza no ordinário.

O mundo corporativo exige 110% dos seus funcionários. Ninguém grita e sai correndo porque nós nos exigimos 110% também. Com isso, “ter tudo” só faz sentido se pudermos ter também aqueles 10% que não temos.

Hoje, ter filho é algo diferente do que foi até agora. Às nossas crianças está sendo dada uma única opção: ser feliz. “Eu só quero que meu filho seja feliz”. Na verdade, nessa época em que vivemos, onde a cada 23 minutos um negro é assasinado, onde as mulheres continuam a sofrer violência e preconceito, a gente bem que podia querer mais para nossos filhos. Querer que fossem pessoas promotoras do bem. Querer que cumpram seu papel social e, para isso, estabelecer regras e limites em casa. Abrir mão do papel confortável de ser amigo/a para ser educador. Isso dá trabalho. Isso cansa. Cansados, seria lindo podermos olhar uns para os outros e ter a sensação de que estamos fazendo bonito e por isso estamos cansados. Como as flores no buquê.

Freud no seu texto “Além do princípio do prazer” diz que o aparelho psíquico é direcionado a evitar o desprazer. Parece que como cultura atualmente estamos bem fixos nessa posição. Nunca a boa comida foi tão celebrada, nunca as festas foram tão elaboradas até os mínimos detalhes – para que não falte nada. Mas vai faltar.

No psiquismo, o que equilibra o princípio do prazer é o princípio da realidade. Afinal, uma cabeça no lugar aprende logo que não dá para comer o pote inteiro de sorvete todo dia. Evitar o desprazer não é o mesmo que optar por uma vida de puro prazer. É claro que queremos prazer. Quem em sã consciência vai escolher o desprazer? O erro está só no extremo dele.

Já viram como é difícil falar sobre dinheiro com algumas pessoas? Ou sobre a vida na sua ordinariedade? Não existe problema em querer ter prazer. O único defeito dele é que ele não tem limite. O prazer olha para o buquê que se decompõe e joga fora. O princípio de realidade consegue ver beleza na decomposição. Do mesmo jeito que pode haver beleza, amor, amizade para quem está exausto porque cuida de um bebê. Se reconhecer exausto, se abrir para conversar sobre isso, é o primeiro passo.

Parar de se esforçar para evitar o desprazer pode nos levar a – enfim – ter a experiência de viver o presente, com o que ele trouxer. Isso, minhas amigas, parece ser a grande beleza.

Um breve relato do que é beleza para mim:

Em uma aula de psicanálise, a psicanalista contou sobre um paciente criança que não sabia falar, apesar de já ter idade para isso. A psicanalista conduz algumas sessões junto com os pais para entender a dinâmica da família. Ela percebe que esta família não tinha nenhuma refeição com todos juntos sem celulares ou sem algum aparelho eletrônico. A psicanalista então sugere que a família passe a ter, pelo menos o jantar de domingo, todos juntos na mesa, conversando. Ela sugere uma pizza, uma tradição nos domingos em São Paulo. Pois bem, a primeira palavra que essa criança fala é “pizza”. (me fala se isso não é lindo?)

Talvez fosse muito esforço para os pais conseguirem tempo para estarem todos a mesa, mas veja a beleza que este esforço causou.

Podemos pensar a vida assim, pelo menos como um pequeno exercício. Semear sempre deu muito trabalho. Podemos aprender a ver mais beleza nele, já que é o responsável pelo prazer da colheita.

Desejo que você possa reconhecer a beleza do seu trabalho. Seja ele qual for. Desejo que você veja beleza – não no sofrimento, mas na força que você tem para realizá-lo. Talvez hoje não tenha ninguém vendo isso. Mas a caminhada não é feita da chegada nem do pódio. Encontre a sua maneira de apreciar onde você está. Porque este lugar, logo muda.  Este é o trabalho do tempo, e o princípio da realidade nos fala, o tempo não para.

Cris Leão

(Foto: Yasmine Mei/Instagram.)

A luz do sol não sabe o que faz

E por isso não erra e é comum e boa.” – Fernando Pessoa

Saudade de estar por aqui. E das tantas trocas que já fizemos. Agradeço quem me escreve até hoje e quem me incentivou a voltar nesse momento. Este blog é uma alegria para mim. S2

27 pensamentos em “O tempo e as escolhas

  1. Que bom te ler de volta. Obrigada pelas palavras sempre certeiras pro momento em que eu te leio!

  2. Fiquei muito feliz quando vi seu texto, e feliz por estar de volta!!! Obrigada pelas palavras, que sempre são certeiras.

  3. Nossa, que legal. Estive aqui ontem, a procura de novos textos. Não sou mãe, sou educadora, mas sou fã desse blog aqui, rs. Aprendi muito com você e fiquei muito feliz quando vi o título “ANTES QUE ELES CRESÇAM” na minha caixa de e-mail. Obrigada por voltar.

  4. Muito feliz por ver um texto seu de novo aqui. Suas palavras são luz e tocam meu coração. Obrigada!

  5. Lindo texto , agora que estamos nessa pandemia , ler esse texto deveria ser obrigatório pra muita gente , porque eu vejo tanto ódio , tanta incompreenção , tanto egoísmo , tanto desamor , tanta infelicidade só por não sair de casa , infelicidade deve sentir quem perde um ente querido para o covide o resto é uma tremenda bobagem , sei que a liberdade é importante mas a vida humana é mais ainda,

  6. Cris (vai ser um pouco longo pq tenho dificuldade em escrever em twitês :)),

    Com uma xícara de café e o sol batendo diretamente aqui no quarto eu começo a ler o seu texto. Ah, coloquei Nina Simone, afinal, um texto de uma mulher tão inspiradora, também merece uma trilha forte e igualmente inspiradora.

    Seu texto me emocionou muito, como ser humano, mulher e futura mãe, que um dia eu espero ser.
    Como ser humano, pensei na minha própria caminhada, história que meus pés poderiam contar, e quantas vezes apenas valorizei onde cheguei com esses pés, mas não necessariamente a caminhada. É estranho pensar que as vezes escolhemos valorizar o inverso da beleza. Você poderia ter olhado apenas para as flores quer murcharam, mas escolheu olhar para a beleza, e fico imaginando que são tantos os momentos que nos conectam à beleza das coisas, do universo, e também nos desconectam, e parece que ficamos sempre nesse movimento cíclico de conexão e desconexão. Suas palavras me fizeram me olhar para o espelho, para dizer para mim mesma o que eu valorizo em mim, que eu sou grata pelo caminho que estou, pq simplesmente as vezes não valorizo esse cansaço, ou o esforço, apenas valorizo o que não tenho, pq parece que não há felicidade na exaustão, quando na verdade há um processo longo, para estarmos ali, naquele lugar, que como vc disse, muda, pq o tempo é implacável, e nossos pés também, que sempre querem nos levar a outros lugares, acho que meus pés são meio aventureiros, o inverso do que seria um capricorniano, talvez?!

    Como mulher me fez refletir sobre o esforço excessivo que precisamos fazer para chegar em lugares até então masculinos. Quanta vezes rolaram olhares maliciosos dentro de uma sala de reunião apenas com homens, ou então, piadas machistas, ou então um desdém pq simplesmente a minha voz não é tão alta ou tão grossa quanto a deles, e aí eu preciso literalmente levantar da cadeira para ficar de igual para igual.

    Como mãe me fez refletir sobre a exaustão em um outro nível, e que talvez valorizando a exaustão com o trabalho, seja mais fácil valorizar a exaustão de ser mãe, seu processo, e reconhecer a nossa beleza nisso.

    Achei o final lindo, e desejo também Cris que você veja beleza – não no sofrimento, mas na força que você tem para realizá-lo.

    • Re, minha querida. Fico emocionada toda vez que você, com palavras, me traz o sentimento que senti logo que te conheci. O sentimento me dizia “seu caminho te trouxe até aqui por causa dessa pessoa”. Obrigada por tanto. S2

  7. Fiquei tão feliz ao verificar meus e-mails e ver que tinha texto novo no blog! Obrigada por continuar escrevendo. beijo grande

  8. É preciso ver beleza no ordinário! Algo tão óbvio mas cada vez tão mais longe da realidade das pessoas… assim como fazer as refeições juntos sem celular…
    Muito bom ter pessoas como você Cris, que de forma tão doce traz muitas pessoas de volta à realidade simples.

  9. Muito bom teu texto querida Cris, amo seu jeito de escrever,

    de comunicar e de tocar em pontos essenciais da criação e formação dos filhos, da vida como uma caminhada!!!

    Siga escrevendo!!

    beijos e muita Luz sempre!!!

    Ingrid

    http://www.ingridcanete.com.br

  10. Alegria imensa abrir o e-mail e encontrar um texto teu. Não pare de escrever, agora mais que nunca!!! Precisamos fazer um mundo melhor!

  11. Muito obrigada pelas tuas palavras. São sempre uma inspiração. Gostei muito do regresso. Fica.
    Beijinho

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