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Estou lendo um livro chamado Untamed. É um best seller nos Estados Unidos e também em outros países. O livro conta como nós mulheres somos condicionadas pela cultura a agir de certa forma. Enfim, os homens também são (claro) mas o livro é escrito em primeira pessoa e fala do ponto de vista de uma mulher.

Em um dos capítulos ela conta que quando uma das filhas era pequena, ela colocava a filha para dormir e dizia “você nunca vai me perder” e que um dia essa frase se transformou em”você nunca vai se perder”.

Essa frase saltou para mim. Parecia uma grande anunciação. Veja se faz sentido.

Muitas mulheres “compram” a ideia de que alguma coisa aconteceu e “eu me perdi”, “não sei mais quem sou eu”, “preciso voltar a ser quem eu era”.

Mas será que isso é mesmo possível? Ou isso é mais um ideia que estamos acostumadas por ser comum na cultura. Nietzsche diz que quando uma mentira é contada três vezes, ela vira verdade.

Qual será a verdade sobre essa ideia de “se perder?”

Quando eu fico bem cansada, eu escuto a música da Adriana Calcanhoto Devolva-me (sei ser dramática também) e parece que essa música fala o que eu estou sentindo. É um pedido para que alguém me traga de volta.

Talvez quando estamos em situações de extremo estresse (pandemia, crianças sem escola, trabalho triplicado) fique fácil a gente sentir que “se perdeu”.

Um dos momentos de mais cansaço na minha vida foi quando mudamos para Nova York com nosso filho de 10 meses. Eu falava inglês muito mal, meu marido trabalhava muito, viajava a trabalho e meu bebê não dormia a noite e tinha muita energia durante o dia. Lembro que nessa fase nos poucos momentos de folga que eu tinha eu não sabia o que fazer. Se eu precisasse escolher alguma coisa: o que comer, o que comprar, eu não sabia. Parecia que eu não estava lá.

Mas eu estava. Também estava sem dormir e sem conseguir me comunicar com tranquilidade. Sem conseguir levar meu primeiro filho no pediatra e ter certeza de que falei tudo certo e de que entendi tudo certo. Eu não tinha me perdido, tinha perdido a “comunidade”.

Criar filhos hoje (mesmo antes da quarentena) traz um desafio que não existia antes. Porque antes filhos eram da comunidade. Eu criança no interior de Minas passava mais tempo fora de casa do que dentro de casa. Eu era uma criança que vivia naquele rua, naquele bairro, naquela cidade. É muito diferente do que acontece hoje. A solidão é que o faz gente ter a sensação de ter se perdido. Porque precisamos do outro para saber quem somos.

Não é a toa que conversando com uma amiga chegamos a importantes conclusões sobre nós mesmas. Ou lendo um livro temos grandes insights. Ou fazendo terapia. A gente se vê através do outro. E se no momento você não tem esse outro, não significa que se perdeu, mas que não está conseguindo sozinha.

Nessa quarentena algumas de nós estamos no limite do cansaço. Onde quase tudo irrita, incomoda. Onde o telefone tocando parece o sino da catedral vibrando dentro da cabeça. Não atenda esse telefone. Não sinta que você se perdeu. Acolha seu cansaço. Chore o quanto precisar. Não pinte cenários catastróficos que definem o que vai acontecer na sua vida daqui para frente. Sua vida daqui para frente só vai começar depois. E depois pode ser muita coisa.

Nossos maiores medos podem não se realizar. E que perda de energia seria focar muito neles.

Quando as pessoas me falam “nossa, como você é calma, como é resiliente” eu lembro de muitos momentos da minha vida como este que falei da época de NY. Momentos que parecia que eu nem estava lá. Hoje eu olho para eles e vejo que foram fundamentais para me fazer quem eu estou hoje.

A gente não é, a gente vai se tornando.

Mando em palavras um abraço para quem me lê com bebê em casa na quarentena.

Também para quem como eu tem filhos adolescentes em casa e vive o luto que é essa passagem.

Encontre um outro que te acolha. Pode ser um livro, uma música.

Não vamos nos perder com essa dificuldade.

Porque como diz a frase que mais gosto desse livro:

We can do hard things. (Nós podemos fazer coisas difíceis)

Hoje meu dia começou com uma mensagem de uma pessoa pedindo para eu escrever aqui. Essa mensagem me fez lembrar de como eu gosto de escrever aqui. Precisamos uma das outras.

Cris Leão

Foto: minha gata só para ficar bonito mesmo

11 pensamentos em “Você nunca vai se perder

  1. Estava sentindo falta de te ler. Uma hora antes de chegar seu email lembrei que fazia tempo que não te lia. Quando seu email chegou fiquei muito feliz. Obgda e obg. 🌷

  2. Ah que bom que você recebeu essa mensagem e veio escrever aqui!!! Pode ter certeza de que suas palavras chegaram onde precisava…. Seu texto foi como um bálsamo hoje para mim!! Obrigada!!

  3. Eu já falei em vários outros post: NÃO PARE DE ESCREVER! Tua reflexão é sempre rica. O bom desse momento é reconhecer como precisamos uns dos outros, como me fortaleço no outro! Cris, teus textos são sempre sementes em nossos corações, obrigada por mais este!!! Abraço forte!

  4. Adoro seus textos! Me sinto tão acolhida! Não pare de escrever, seu dom é maravilhoso e acalenta nossa alma de mãe!

  5. Marco: Gostei do texto. Muito boa reflexão. beijos Leila

    Em sex., 4 de set. de 2020 às 14:14, Marco Trivelli escreveu:

    > Achei bonito! saudades Marco > > Enviado via UOL Mail > > > *Assunto:* [Novo post] Você nunca vai se perder

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