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As flores continuam a florescer, a abrir novos botões, a fazer novos giros na direção do sol, independente da idade que têm.

Quando eu fiz 34 anos comecei a sentir que estava envelhecendo. Na época eu dava aulas numa faculdade e, claro, percebia que tinha uma diferença dos meus alunos. Alguns anos de diferença. Até que um dia um deles me falou: você ia se dar muito bem com a minha mãe, vocês têm as mesmas referências. Eu perguntei: quantos anos têm a sua mãe? Ele disse: ah, deve ser a mesma idade que você tem, ela tem quarenta anos.

Estava certo ele, minha idade era bem mais próxima da mãe dele do que dele. Atualmente quando eu assisto filmes de adolescentes com meus filhos, onde os protagonistas têm 15 anos, me identifico com a personagem mãe da história. A roda girou rápido. Poucos anos atrás, eu nem ia perceber que essa mãe estava no filme.

O tempo passa e também está passando na quarentena. Não vai dar para não contar esse ano na nossas vidas. A quarentena me lembra as duas fases da minha vida com filhos bebê em casa sem socializar muito. Onde os dias eram uma repetição. Também me lembra quando fiquei sete vezes fazendo companhia para o meu pai no hospital no intervalo de um ano. Em 2020 meus planos eram outros.

Acho horrível essa sensação de ver a vida passar de dentro de um apartamento. Será que sair daqui e mudar para uma casa vai ajudar? Acho que não. Acho que o que sinto falta são as pessoas. São muitas as pessoas que fazem parte da nossa vida, né?

Sinto falta dos meus filhos irem para a escola. De ver o rosto deles chegando da escola, suados, alegres ou com cara de que alguma coisa foi vivida. Essa vida de telas deixa tudo chato. Perdemos as dimensões na vida e no formato achatado das telas ficamos pobres de experiências. Essa pobreza me entristece.

Quando consigo, vou fazer uma caminhada de 20 minutos pelo bairro. Reparo nas flores, nas árvores, nos pássaros. Parecem não se importar com nada disso que está acontecendo.

Gostoso isso de não ter consciência, né? Isso de só ser, isso de só desabrochar.

O tempo está passando. Isso me angustia. Mas fiquei um pouco contente quando nesse fim de semana pensei nisso das flores não pararem de abrir novos botões. Assim também podemos viver. Sempre migrando, sempre criando. Sábado tive um momento bom: por um momento pensei que todos os problemas acabavam e eu tinha um novo sonho. Eu não desabrochei nesse dia, mas por um breve momento senti o que é desabrochar.

Tem uma coisa muito cruel que acontece com a idade. As pessoas à nossa volta param de se importar com o que você sonha. Repare bem e me diga se não é verdade. Se um amigo consegue um bom emprego aos 20 e poucos, nossa genial. Se a pessoa muda de área, muda de país, começa uma vida completamente nova aos 40 e poucos, não tem brilho. Comprar uma casa, abrir uma empresa, decidir outra profissão, tudo isso vai ficando mais invisível com a idade. Até as visitas ao médico e dentista são diferentes. Agora entre um comentário e outro aparece “para a sua idade”.

É difícil não sentir ansiedade quando o tempo está passando na nossa cara, não é? Na minha sessão de análise da última semana, eu disse para meu analista: meus desejos têm poréns. No fim da sessão, ele comenta: desejos têm poréns mesmo.

Acho que é isso que precisamos ir nos falando ao longo do tempo da vida, sabe? Se o desejo foi ter filhos, esse desejo tem poréns. Se o desejo foi pedir demissão do emprego. Se o desejo foi morar fora do Brasil. Seu desejo tem poréns. Essa verdade fica muito escondida numa sociedade de consumo tão influenciada pela mídia. Não vamos ser ingênuos. “Para a sua idade” já devia ter percebido que essa ideia de que podemos tudo, de que 40 são os novos 30, é muito lucrativa para as indústrias de consumo. Resiliência é olhar para o que se tem e pensar que está bom o suficiente. Quem vende alguma coisa com isso?

Acredito que devemos e vamos sim desabrochar sempre. Independente da idade. Mas que feiura seria passar pela experiência da vida contando só os botões abertos e não todas as estações. “Para a minha idade” eu já aprendi algumas coisas:

  • não é só o que você quer do mundo, é o que o mundo quer de você. A vida não é uma página em branco nem para você, nem para ninguém. Então um pouco de resiliência não é covardia, nem precisa ser amargura, é inteligência. Pense que passar a vida pensando o tempo todo “e se” é o mesmo que passar a vida sem viver, só reclamando do roteiro.
  • pare de se comparar com as outras pessoas. É difícil, mas foque nisso. Se comparar – tanto com pessoas reais quanto com imagináveis ou criadas com filtros de Instagram é a maior perda de tempo de todas. (e o tempo é escasso, lembra?)
  • encontre um lugar de silêncio dentro de você, é nesse lugar que estão as suas respostas. Somos muito infantis. Queremos que os outros resolvam coisas muito importantes das nossas vidas. Queremos acreditar que qualquer pista pode ser um “sinal” mas não nos esforçamos com a mesma intensidade para encontrar com o nosso sentimento, a nossa intuição, o nosso desejo. Eu acredito que eles se encontram em um lugar de silêncio. Por isso gosto de fazer análise. Para você pode ser outra coisa. Pode ser por exemplo, se deixar ficar triste quando está triste. Boas respostas podem vir desse lugar.
  • egoísmo deprime. Não passe seus dias pensando só em você. No que realizou, no que não realizou. Somos seres coletivos. Encontre seus pares. Os pares mudam. Encontre novos pares. Ficar ensimesmado é o mesmo que ficar deprimido. Nosso brilho, nossa alegria, o movimento da vida, vem dos encontros e vem da doação – não só de receber.
  • abaixe a bola. Sei que nós mulheres somos questionadas o tempo todo e que isso é super empobrecedor. Esse tema daria um texto inteiro só sobre ele, mas o que quero falar aqui é o contrário. Se ao invés de dar vazão a sua veia artística você ficar se comparando com Monet, se ao invés de começar a cantar você decorar a biografia da Elis Regina, pode ser que você não dê nem o primeiro passo. Mulheres pensam muito que não são boas o suficiente. Sabe qual é minha dica: use isso para se libertar. Não tem um texto aqui que para publicar eu não tenha pensado um tempo se valia mesmo a pena. Sabe o que me faz publicar? Pensar que provavelmente não importa. Isso é a coisa mais parecida com a liberdade que eu conheço. Como disse a musa genial Maya Angelou “Os pássaros não cantam porque têm uma resposta, eles cantam porque têm uma canção.”

Para finalizar, queria dizer uma coisa que penso muito: quem dera se a ideia de se perder fosse tão levada a sério quanto a ideia de “se encontrar”.

“É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo.” Clarice Lispector

Mas como se perder? Leia de novo esses tópicos aí de cima. E depois me conta se ajudou um pouco.

Por Cris Leão

Foto: Lisa Przystup/Instagram

7 pensamentos em “Sobre idade e o tempo que também passa na quarenta

  1. Bom dia Cris,

    Obrigada mais uma vez por compartilhar seus pensamentos e sentimentos que também são meus. Força, coragem e resiliência para continuar e superar os obstáculos que aparecem no nosso caminho! Fique com Deus, abraço forte,

    Patrícia

    ________________________________

  2. Lindo texto, Cris! Eu me identifiquei com cada palavra pois acho que temos mais ou menos a mesma idade, experiência de vida semelhantes, trabalho, maternidade, residência no exterior, filhos agora na adolescência… Siga escrevendo e nos inspirando sempre! A vida é realmente um desafio e uma linda arte!

    Muita saúde e fé!!

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